terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Em casa


Ela disse-me um dia que que nunca a amaram assim. Eu congelei por dentro.
Não aceito isso, e revolta-me.
Quero fazer voltar atrás o tempo e devolver-lhe os anos, os filhos, os amores, e torná-los grandes, menos físicos, mais duradouros, mais reais, mais mútuos, mais saudáveis, mais estáveis.
Depois penso. Repenso.
Que estupidez.
O passado só nos torna naquilo que hoje somos - E ela é Grande.
É profunda, é intensa, é pesada.
É pesada e leve nas horas. É ferida, mas o seu sangue é doce e dócil, porque frágil.
- Não és inocente, erraste uma vida inteira. Mas redimes-te aos poucos em postura e amadurecimento, e é delicioso assistir, obrigada por me deixares constatá-lo junto de ti.
Observar-te de perto, no teu (ainda) crescimento interior, menos acelerado e mais preciso, hoje.
Como dizes [e eu só posso concordar] a vida só me podia trazer até ti.
Depois de tanto te ver: Por entre os livros que lia, nas cordas da guitarra de cada vez que tocava, nas mulheres que passavam e as que momentaneamente me seduziam, entre os olhares que ilusoriamente te continham,
E não eram o teu.
Eu fiz uma tentativa de te reconstruir no tempo, para poder sentir algum conforto perdido no espaço que na verdade, nunca veio por inteiro.
Dizes que te sinto como nunca ninguém sentiu, que te vejo, como nunca ninguém viu.
E como é isso possível?
Não sei como te vejo, mas sei o que vejo, e parece que para ti guardei, desde sempre, o meu melhor - O melhor de mim.
Mas sabes,
Também só tu me vês do jeito que me vês. Desse jeito. Toda a confiança que depositas em mim e em tudo o que faço. Todo esse orgulho que se reflete nos teus olhos, toda essa minha grandeza que vês, imputável a ti, com o teu nome escrito, eu poderei arriscar dizer.
Sou nos teus braços o mais de mim
Escrevo-te, escrevo-me, escrevo-nos.
E tu, Leão de coração, despes a confiança
Comoves-te, humilde
E nesse momento vai-se tudo.
O que achas da vida, o que aprendeste... a ambição.
À minha frente, nua. Nua de tudo, apenas corpo e alma, para mim.
E eu olho-te a medo, a medo de destruír a construção de um sonho, e vejo as tuas imperfeições, e as tuas perfeições...
Provo a doçura da tua pele
Fecho os olhos
E sinto-me finalmente em casa.


sábado, 27 de dezembro de 2014

O infortúnio dos desencontrados

Hoje foi a cerimónia dos 25 anos de casados dos meus pais, e roí-me um bocadinho de inveja, e de alguma tristeza pessoal, devo admitir. É que, mais uma vez, ocorreu-me uma reflexão que tem vindo a ser constante em mim.

Que sorte têm aqueles cujos grandes amores se cruzam, se apaixonam, se juntam. Que sorte aqueles que com estes constroem uma vida a dois. Que sorte aqueles que se encontram no momento certo e na idade certa. Que sorte aqueles que têm sorte, essa sorte. A maior sorte de todas.

E então tudo o resto parece fácil; As contas para pagar, os estudos para acabar, o trabalho por despachar, o cuidar do outro, o esperar pelo outro, inclusivamente, o aturar o outro.

Parece que é tudo extremamente prazeroso, mesmo os sacrifícios que nos propomos a fazer, porque os fazemos por esse amor que faz de nós seres alheios ao espaço e ao tempo - Parece que levitamos numa realidade tão capaz de nos salvar e proteger de tudo, e se isto vos parece completamente exagerado e descabido, então, meus caros, ainda não viveram o vosso grande amor.

Na verdade eu quero um grande casamento – sem me casar – uma bonita vida a dois, partilhar, amar, respeitar, e cuidar até à morte. 

Tenho em mim todas essas capacidades, e até outras mais como a compreensão e o saber perdoar os erros, as falhas, os temperamentos menos agradáveis e possíveis mudanças de humor, e tudo isto não obstante todos os aqueles meus defeitos que dificultam a tarefa a todas essas capacidades ditas acima.

Mas acontece que eu estou verdadeiramente cansada.

Cansada de fazer tudo isso e até mesmo cansada de o projetar, com pequenos amores.  

Parece sempre que falta uma qualquer força sobrenatural, aquela, que temos, quando estamos perante um grande amor. Falta sempre aquele impulso além de nós, superior a nós, aquela motivação, aquela garra, aquela inspiração. [E nós sabemos sempre, sempre quem são, ou quem é, o nosso grande amor - Porque aquilo que sentimos difere de tudo o resto que sentimos com qualquer outra pessoa, coisa, situação na nossa vida. Como se se tratasse de um sentimento aparte, reservado desde o nosso nascimento para esse momento grandioso, aos mais diversos níveis, que é o de conhecer um grande amor.]

E dizem, por aí, que desses grandes amores temos muitos ao longo da vida, e eu desacredito mas continuo à espera que chegue um outro, bem maior do que o que vive em mim, para que eu pare, de uma vez por todas, de amar pela metade, e cansar-me de quem de mim não se cansa, e começar a retribuir amor na medida em que o recebo. E longe de mim queixar-me de não ter sido amada ao longo da minha ainda não muito longa vida, mas esses amores não me alimentam a alma, não me tiram o fôlego, não me tiram a vida. E eu fico, assim, pela metade, a mesma metade que sou capaz de retribuir.

Sei tão perfeitamente que não mereço o que me dão, porque não mereço. E ao longo dos anos que passam vou-me tornando uma pessoa pior:
Mais egoísta.

Sinto tanta falta de sentir o que sei que não me podem fazer sentir, que exijo toda a atenção, todo o carinho, todo um mundo a meus pés que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha … em vão.

E em contrapartida o que dou é sempre tão pouco ou nada igualável aos castelos que ergo, às muralhas que construo e aos rios que faço nascer, em mim, secretamente no meu quarto, por quem nunca será verdadeiramente
Meu.

Este é o infortúnio dos desencontrados - No tempo, na vida, nas escolhas, nas cidades, nas famílias, nos amores. 

E eu lembro-me tão bem de pensar que nunca iria acabar a vida ao lado de quem não amasse. Aperta-me o coração e a alma saber que serei mais uma daquelas pessoas que acabam a vida junto de quem gostam muito, muito, muito,


Longe de quem amam mais.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

No caminho para casa

No caminho para casa,
Escuto-a.
Fumo um cigarro que demora em mim,
Como ela demora em mim.

No caminho para casa,
Os meus passos são os dela,
Em compassos que se acertam com as melodias,
Espero-a em cada ruela.

No caminho para casa,
Fala-se da crise nas ruas,
Dos amores perdidos,
E dos não correspondidos

No caminho para casa,
Eu esqueço toda uma realidade deprimente,
Que a realidade é ela,
E dentro dela, sou contente.

No caminho para casa,
O cigarro já se apaga
E eu estou cansada da sua distância,
E do que dela se afasta e propaga

No caminho pra casa,
Vejo-a em cada rua,
Ligeiramente nua,
Nunca minha,
Nunca inteiramente sua.

No caminho para casa,
Desejo-a tão irresistivelmente
Prender-lhe nos meus braços
E ser muito mais decente,

Do que fui com as outras.
Que ela merece inteiro
O que para o mundo fui
Sempre pela metade.



sábado, 8 de novembro de 2014

Como te atreves?

Os teus lábios nos meus -  só desastres,
Numa neblina de disformes contrastes.
Unimo-nos a este incerto fado que nos estremece
E tu desejas-me numa ofegante prece!
Falas com o coração,
Calas ruídos alheios,
E silencias os medos,
E apaixonas-me os seios.


Vertemos lágrimas doces,  
Em alegrias sintónicas,
Gememos prazeres adormecidos,
As vozes já afónicas!

Os teus olhos lêem-me a mente,
E amas-me ao infinito,
E eu já não estou em órbita terrestre,
E o teu corpo é o mais bonito!


És sol que nasce e sol que se põe em mim,
Estás-me presente da noite ao dia,
E a lua esconde-te para se mostrar a ela,
Mas és também tu quem na noite me guia.


E nasces, de novo, pela janela,
E desenhas nas paredes dois corpos leves,
Como ousas encantar-me assim,  

Como te atreves?

Estou ébria de desejo por ti,
E mais ainda por tocar-te nua,
Conhecer-te o interior desses doces olhos,
[E hoje eu cedo ao inconsciente]

Que já só me sinto tua.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Queres construír-me de novo?

O meu coração dispara assim que o telefone toca
A sua voz acalma-me as pulsações e os medos
Estou assustada de mim mesma,
Sem saber o que sinto por quem só oiço a voz,
E sonho sentidos.
Não sentido os seus lábios,
Já são dela os meus,
E beijo-a mesmo de longe.
Fazemos amor sem corpos.
Ela é o sol que me desperta pela manhã,
E me diz essas coisas que eu já não ouvia,
- Nem sabia ouvir.
Sinto-me segura em braços que não conheço,
Se não o entendo também já não busco a lógica.
Quero o seu riso e o seu sorriso,
A sua pele na minha que conheço por fotografias,
E quase lhe sinto o cheiro da pele com o perfume que deixa nas cartas.
Outrora sem chão,
Pisando caminhos que a sanidade não se arrisca,
Inundada por um desejo insaciável de recordações
Tão falsas, tão cortantes.
Tudo aquilo que um corpo não deve fazer à alma.
E eis que esta mulher me ampara nos braços,
E me embala sobre as nuvens.
E pergunto-lhe baixinho,
Perto do adormecer,
Queres construir-me de novo?
Remar sob oceanos como se o vento nos levasse?
Que a distância é nada quando os corpos e os corações se querem...
Alors viens contre moi,
Je t'embrasse.
















quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Já te foste confessar?

Olá, e desculpa.
Devo avisar-te que te vou magoar. Vou magoar-te sempre.
Ninguém merece ser magoado,
Mas na verdade eu não vou ter escolha por muito tempo, tu queres uma resposta e eu devo dar-ta.
Não me aproximei falsamente, achei-te realmente graça, mas é só.
Se te uso? Mas é claro que uso!
Bem como todo o mundo...
Não há emoção em mim já.
Na realidade apetece-me agora ter-te do meu lado, mas eu sei que isso dura apenas dez minutos. Depois farto-me outra vez.
Todos nos fartamos. Eu farto-me um pouco mais rapidamente, porque nada realmente me interessa, apenas ando por aqui a tentar extraír emoções...
Que não vêm (pensei que viessem, Desculpa.)
Desculpa,
Eu sei que não mereces.
Obrigada pelo poema, e pelas cartas de correio.
Desculpa se não te respondo aquilo que queres ouvir.
Desculpa se não te engano, prometo estar quase, quando me fartar de nunca estar quase.
Queres que te diga que te amo? Está bem, di-lo-ei.
Sim, eu sei que estou a fazer exactamente o mesmo que me fizeram a mim,
É um ciclo karmico este em que entrei, mas já não tenho saída.
O meu coração não está aberto, e o meu corpo só por agora.
Amanhã, por favor, afasta-te e deixa-me,
Antes que eu acorde e me lembre mais uma vez que não és tu quem eu quero a meu lado.
Se queres entrar neste jogo de fingir amor,
Alinho.
Se não, Afasta-te-
Porque eu não sou susceptível de amor,
Já te disse que não sou,
E a paixão dura só enquanto estou inconsciente.
Desculpa,
Porque quando eu fecho os olhos,
Não é em ti que penso.
Desculpa,
E adeus.



domingo, 12 de outubro de 2014

Então Adeus

Já deste por ti a olhar para a última vez em que foste feliz?
O fim daquele que fora um princípio cheio de sonhos,
Quando tudo acabou?
Voltas àquele mesmo instante [em cada noite]
E perguntas-te porque não o aproveitaste mais.
Aquele último beijo, dado à pressa,
E sabias lá tu que seria o último.
Essas coisas sentem-se, não te enganes,
E não enganes tu, poeta,
Esta audiência que te lê, e sente, e ouve em pensamentos,
Tu sabias.
Sentiste-o no toque dos seus lábios nos teus
Já não estava ali.
Há quem prefere dizer não às despedidas.
Há quem prefere fingir que não as sabe.
Depois arrependes-te de não as viver.
Seria esse o nosso último beijo?
Então tempo leva me atrás,
Deixa-me perder esse autocarro,
Ficar só mais uns segundos
E agarrar me aos seus braços.
Que puta de vida,
Não foi?
Sim, não foi.
Que isto já não é vida,
Não é vida uma vida sem amor.
Então adeus,
Levo-te comigo.
Ou então, ficas só à passagem daquela rua
Tão cheia de música e vida e arte,
Onde ainda [te] leio quando passo,
"Paris em Lisboa"




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"Adivinha o quanto eu gosto de ti"

Gostar e amar são amigos.

O gostar vem primeiro (às vezes vem o não gostar primeiro), 
E amar vem depois. 
Gostava de falar-vos disso.

Para mim, dizer gosto de ti poderá ser mais profundo do que dizer-se um "amo-te".
Não sei se pela expressão "amo-te” tanto se ter vulgarizado, se por a palavra gostar parecer remontar a um período anterior, enquanto ainda não se ama. 
Antes de amar, gosta-se.
O gostar é a base do amar.
Depois, gosta-se muito muito, e aí, ama-se.

Gosto de Ti. Digo-o, penso, e sorrio. 
Gosto de gostar.
Gostar para mim é o além loucura, o além desejo sexual, o além “anda cá, deixa-me fazer amor contigo”;
É o que resta das relações bonitas,
É a parte racional do amor. 
E sim, o amor tem parte racional - o gostar. 
Por isso muitos amam, e passa. 
Amam uma noite,
Amam após o orgasmo [Todos amamos depois do orgasmo]
E eu amo, se amo...
E gosto, também!


Gosto de Ti porque gosto da maneira como sorris. A maneira como te expressas e pronuncias cada palavra, a maneira como pensas, e como não pensas às vezes.
Gosto da maneira como és só e acompanhada,
Gosto de cuidar de Ti, e mesmo que não o possa fazer,
Gosto então de ser susceptível de (Te) cuidar.
Gosto de estar, gosto que estejas,
Perto ou longe - gosto da tua existência.
Gosto quando gostas dos outros, e quando não gostas.
Quando tens fé, e na descrença.
És engraçada, és bonita - para quê florear, se é só isto?
Se gostar, é isto!
Gosto da tua beleza;
Aquela que em Ti é convencional, e aquela que não é "das revistas", 
E gosto da beleza que vejo em Ti, que é só minha.
Gosto de poder dizer que gosto de Ti, 
Gosto que gostes que goste de Ti.
Gosto de Ti, e amo-te. 
Amo-te muito, muito
Mas gosto-te, essencialmente.
Tudo, em Ti.
Porque tudo em Ti são pequenos teus que te constroem e fazem de Ti esse EU,
Subtilmente grandioso.

Isso, guarda-te.
E abre-te a quem merece esse sorriso, essa escrita, essas palavras, esse olhar, esse passo, esse sim e esse não que habitam em Ti, essa calma e essa tempestade, e te aceitem assim, como eu, e um pouco mais melhor que eu.

Se o são,
Se to dão?
Então, também lhes gosto.

Sabes,
Eu gosto de Ti.



Gosto realmente de TI.






Mãe, acho que hoje estou a precisar de ti.

Mãe, 
Hoje preciso de ti.
Se calhar vais estar num daqueles dias bons em que me ouves e me falas durante horas.
Se calhar não, mas refugio-me à mesma em ti, arranjo manerias. Sempre o faço.
Qualquer dependência é de pendência.
Estou pendente.
Estou pendente de tudo e todos os que me movem em sentido oposto ao meu chão.
Por isso não digo mais “vou andando”, flutua-se sem jeito. Rasteja-se, às vezes.
E eu sou tão dependente das coisas.
Sou tão dependente de ti, embora não o mereças sempre. 
Embora não o mereças.
Ninguém merece ser a nossa dependência.
Ninguém merece estar pendente.
Sei que as minhas actuações não são de todo saudáveis. 
Tudo em meu redor, é doentio e lentamente me esquarteja qualquer sentido de racionalidade que tente atingir.
Tento-o diariamente. 
Vivo em espiral mas não lhe sei o fim. 
Digo-me racional mas não - Faço-me.
Caminho só. 
Não me adapto a mim - Fujo-me, procuro-me incessantemente.
Acabo nos braços de alguém - Mesmo que não seja real, sonho-o. 
Afinal não sei onde começa a minha razão, e onde acaba a minha emoção. 
Acho que as misturo e cozinho asneiras atrás de asneiras.
Eu  sei, começo a perder os argumentos.
Sim, eu também não te mereço.
Talvez eu não mereça, na verdade, mulher alguma.
As que me amam, perdem.
As que eu amo, perdem.
E eu perco-me nisto.
Perdemos todos, sei lá. Perdemos tempo, perdemos paciência, perdemos amor – É que eu não sei fazer ganhar nada. Não é de mim essa capacidade de engrandecer, só estrago.
Às vezes sinto tanto a sua falta, sabes? Deixa-me dizer-to, porque preciso que me digas que tenho que sentir só falta de mim,
Para me encontrar.
E aí recomeço a procura, e pode ser que desta vez...

Na realidade tudo isto que me falta é um pouco a falta que eu sinto de ti.

Mãe, 
Eu hoje preciso ouvir os teus inúmeros exemplos de vida, de ti e dos outros, e até os repetidos, que me fazem sentir um pouco menos só. 
Ouvir-te até deixar de te ouvir.
Podes até falar da religião e invocar o teu Deus, que tu julgas ser nosso. 
Hoje não me vou opor àquilo que pensas ser verdade.
Para o fazer, terei de ter resposta para o que é verdade em mim, e eu, não tenho verdade.
Tão pouco sei da minha existência senão quando dói.
E apesar de todos os nossos mal-entendidos és a minha única certeza.
É que mesmo no dia em que te fores, serás mãe para sempre.
Então és o meu para sempre.
E hoje, eu preciso do para sempre - Daquilo que fica. 
Preciso sentir que algo resta.
Aquilo que fica mesmo quando erro - e tenho tanto por errar, porque eu não sei viver senão em erro.
Eu não sei senão experimentar os meus riscos, queimar-me na minha real-idade, 
Que eu nego, e nego, e nego outra vez.
Não quero nada disto - mas fantasio, dou-lhe cor. 
Ando em preto mas visto-me de azul, para ofuscar a dor.
Se eu pudesse ao menos ser mais feliz, quando feliz, do que sou triste, quando triste.
Poder balancear-me, e acertar-me, como as balanças ou os relógios.
Sou um relógio parado. 
A hora passa por mim, e eu sou certa durante 60 segundos, duas vezes ao dia.
Talvez eu consiga superar esta dor, este vazio, esta falta de alguém que só tu podes, temporariamente nestes períodos de dor, de vazio, de falta, quase substituir.
Talvez porque tu, sendo certeza, sejas o oposto da dúvida, da exclamação que é o meu coração.
Então, liga-me e vamos falar. 
Passar tempo até eu me esquecer de mim,
Para depois recomeçar a encontrar-me, mais uma vez. 
Este relógio que sou eu, sempre fora de tempo.

Mãe 
Acho que hoje estou a precisar de ti.


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os braços de quem sabe quem Sou

Ela parou de fazer amor comigo e fita-me, intrigada.
O que fazes aqui, menina? Tu não pertences aqui. - Diz-me, com um ligeiro riso.
Terei sido demasiadamente doce? - penso.
Confesso que me desfez por momentos, aquela afirmação.
Fiquei momentaneamente sem resposta.
E depois, fiquei confirmadamente sem resposta.
O meu corpo falou por mim.
Desapego-me dos seus braços até agora quentes,
Agora frios,
E olho em redor.
Que foi feito de mim?
O quarto, um caos - para condizer com a cabeça.
Dois copos de vinho em cima da mesa de cabeceira,
Vazios,
Como a garrafa.
E nesta só reflexos de lucidez e discernimento mandados fora.
São cinco e meia da manhã,
E a minha noite resumiu-se a amar o não amável.
Mais uma vez.
Pedaços de nós espalhados por um quarto que não é o meu,
Um chão que não é o meu,
Um tecto que não é o meu,
Nem ela.
Pedaços de nós que não se vão juntar.
Ela pertence ao mundo do amor fugaz
Do amor da noite,
E eu finjo pertencer porque parece mais fácil.
Ninguém está certo,
Ninguém está errado,
E eu estou só longe:
De mim.
Visto a primeira coisa que as mãos alcançam,
Pego nas chaves,
E saio.
Não, eu não pertenço aqui.
Nem aqui nem aos braços de quem só me vê os traços.
Quero só os braços de quem sabe, e sente,
Quem Sou.

Mesmo quando finjo ser tudo o que não dói em mim.




domingo, 28 de setembro de 2014

Mais uma carta sem nexo


És o melhor sexo.
[Fumo um cigarro à janela enquanto ela me olha com ar apaixonado e consciencializo-me que terei de a deixar na manhã seguinte.
-Não voltas para a cama?
-Desculpa, estou a escrever.]
O teu corpo é o meu abrigo, e eu sinto-me tão à deriva desde o dia em que o deixei.
Sempre foste uma casa em ruínas e ainda assim, o meu mais seguro tecto - Não faz mal, estou acostumada a contradições, as minhas e as tuas.
Tenho uma mulher bonita na cama, bem mais jovem que tu, e não é nada disto que quero. Só sei que não é nada disto que quero.
Fecho os olhos e transporto-me para a irrealidade temporariamente confortável - Tu naquela cama. Vario entre querer agredir-te e beijar-te o corpo, vario entre querer ter forças e mutilar-me até me arder se não o corpo - deixem a puta da minha alma em paz.
Não estou em mim desde o dia em que me deixaste, mas arranjo refúgios.
Temo ter de ser assim por mais uma eternidade - Procurar-te nas mulheres, perder-te mais um pouco. Não te encontro, senão no cheiro das roupas que ficaram num saco debaixo da cama e que ainda não as lavei – nem consigo.
E elas, essas mulheres não chegam nem ao chão que pisas, quanto mais aos teus pés. Parece-me tudo relativamente reles e sujo - relativamente a ti.
Quero lutar por ti e não tenho armas- Amor não te chega, e eu não tenho mais. Quero fazer um luto e diariamente o recuso porque és ainda a razão por que me levanto. E se te apago, quem me acende?  É-me insuportável a consciência, destruo-a com bebida e cigarros - A consciência de que errei por carência e saudade os tempos, mais uma vez.
Adoro a noite e as gentes que me abordam, a solidão e a morte lenta vem depois, tal qual ressaca, mas consideravelmente pior.
Às vezes saio só e sento-me na última mesa do bar, fico a observar as suas danças, os seus engates, as suas mentiras. Todos mentem, menos nós, em mim. Em ti e contigo, nos teus braços, sou sempre mais real, e a única parte real em mim é a parte que deixaste de ti. Tudo o resto é mentira, disfarce, e mágoa. Até isto que escrevo, que já é o sem-ti.
Que lhe podes hoje dar? Criança reles disfarçada de mundo, não és mais do que projecto inacabado, e ela quer um projecto final. - diz-me a cabeça, pela milionésima vez já não ao coração, mas aos pés que se encaminham para aquela paragem de autocarro. Deixei-a na cama, não me apeteceu esperar - Sabes bem que não vem.
Espero por mim, não por ela. Respondo de volta. E continuo a escrever.
A minha teimosia é a minha motivação, o amor que resta, a droga.
Não respiro a sós sem ti, ando ligada a uma máquina, mas mantenho a lucidez.
A pior das mortes- Aquela em que não se morre. Vive-se morto - Diariamente me levanto, visto-me do melhor de mim e penso que este é mais um dia a menos - um dia a menos, em que não sou o que precisas.
Sê-lo-ei - Não fosse esta teimosia, esta teimosia que me faz querer ser mais e melhor, para ti, mesmo que disso não usufruas, mesmo que nem o saibas! Colmatarei todas as falhas, para que não haja nenhuma razão que nos desune neste mundo, além da tua vontade e do que quiseres que seja em ti:
Estarei preparada como os Reis, de reino feito e castelo montado, a mesa cheia com as melhores iguarias, o coche de seis cavalos pronto te ir buscar, Minha Rainha de sonhos.
E se tu não voltares?
Se não voltares, escrever-te-ei até ao fim dos meus dias.
E se não voltares?
Estarei aqui.
Jantarei só, ou acompanhada, e continuarei a cuidar dos jardins do reino, no caso de me quereres visitar, e elas podem fazer me a corte e despir me as roupas, a alma é tua. E o trono, esse, é teu. Correrei ao teu encontro onde quer que esteja, onde quer que estejas, assim que seja essa a tua vontade, assim que precises de mim- espera para ver onde os meus sonhos dão.
E se a vida, essa, te prender em algum momento a uma cama, eu ficarei do teu lado a ver as estelas passar, o sol levantar e pôr-se. E se as partes do teu corpo deixarem de funcionar, dispo-te os meus órgãos. E neste mundo não há nada que deseje mais, do que poder cuidar de ti.
A noite e as gentes sabem-me bem, mas nada sabe melhor do que ser aquela que se deita a teu lado, te vê existir e seres.
Meto a carta no envelope e fecho-o. Mais uma carta sem rumo. Pego no isqueiro e lentamente a queimo, vejo o fogo percorrer o papel e por fim apagar-se a chama, tal qual nós.
Mais uma carta sem nexo.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Quantos adeus um amante se promete dizer a si?

Mais uma insónia.

Tenho uma dor de cabeça que não passou o dia inteiro, mas faço um esforço por escrever, já que sempre silencia por um momento outra dor maior que se instalou em mim, e sempre me aquece por mais algum tempo.
Na verdade, é isto que tenho feito. Procuro pequenos fogos para me ir mantendo quente. Para sobreviver ao frio que se gerou dentro de mim. Para sobreviver a estas noites de insónia.
Mas quando se apaga o fogo...

De qualquer das formas, porto-me bem.
Eu, mais que ninguém, soube tão bem viver(-te) sem te ter. 
Basta-me desabituar-te em mim. 
É um processo de retrocesso, que faço como trabalho de casa de cada vez que acordo, e mantenho uma postura normal em público- Consigo sorrir, e digo que sim, tudo está bem.
Algumas memórias vêm e vão, umas bastante detalhadas outras já parcialmente esquecidas porque faço por não manter uma imagem mental de que tudo fazia sentido.
Minto-me tanto, ultimamente- Ao meu coração, à minha alma - que é tua, que sei que não pode ser, que sei que não a mereces, que sei que não é recíproco, que sei. Eu sei -  traio tudo o que está dentro de mim.
Lembro-me hoje com especial atenção do dia em que te disse que te amava, pela primeira vez. Estava nos teus braços e sorri, como de tantas outras vezes. E eu já nem pertencia à terra nem a nada. Estava tudo só como devia estar, em mim, em ti.
Já que te sei esquecida, pelo menos, de nós,
Perguntaste-me porque sorria, e em que pensava. 

Não era capaz de responder, porque se abrisse a boca não ia conter o que sempre esteve na ponta da língua. Sorria, então.
Insistias.
Respondi-te por fim após alguma insistência em que pensava. Que te amava.
"Que te amo" - disse.
Respondeste "não", com o teu ar infantil do costume e enquanto me balançavas e abraçavas com força, excluindo a hipótese, sem te aperceberes daquilo que tinha dito, e preparavas-te para continuar a insistir no "diz-me lá em que pensas",
Até que paras.
Apercebes-te do que te disse. 

Fez-se um pequeno silêncio, e exclamas, como criança que acerta na resposta, e com um sorriso emocionado:
"Ah! Nunca me tinhas dito isso!"
Escrevo(-te) em lágrimas, e alguns sentimentos à mistura. 

Quantos adeus um amante se promete dizer a si?
Quando finalmente te tenho inteira nos braços - não dou tudo de mim. Não quis arriscar em espontaneidade inconsciente, a medo que qualquer passo em falso te pudesse fazer partir, fugir, a medo, também.
De que valeu?
(Desculpa se o discurso está incoerente e tropeçado, mas preciso de [te] escrever.)
Julguei que se te apercebesses o quanto eu apreciava a tua presença, e tudo em ti, fugisses, por não quereres isso de mim.
De nada vale racionalizar.

 Todos vamos ciclicamente sofrer de uma maneira ou de outra.
E eu crucifixo a minha idade vezes sem conta, e milhões de vezes ao segundo, mas se dizer o que sinto for imaturo, infantil e precipitado 
Di-lo-ei. 
Sê-lo-ei.
 Em tempo algum voltarei a viver pela metade, sem dar tudo de mim, temendo a brevidade das coisas, porque ainda que que tudo se acabe no minuto a seguir terei vivido intensamente o hoje.
Não mais irei omitir, reprimir ou esconder o que quer que seja que arda no meu peito, que ecoe na minha boca, e me sussurre à mente.
Deito-me, por fim, e venço-me. 

Apetece-me ligar-te, dizer-te que te amo por todas as vezes em que quis dizê-lo e calei.
Por todas as vezes em que o senti:
Quando me olhavas, quando soltavas uma gargalhada estridente e infantil, enquanto lias ou cantavas, ou tocavas, ou sorrias - ou simplesmente existias mais o teu sorriso, do meu lado, 
quando eras tímida, quando eras louca, enquanto fumavas, quando abrias o teu mundo, medos, segredos, histórias a mim - e não disse.
E habituei-me ao silêncio, que vem com a idade e eu desconhecia o quão prazeroso é somente ouvi-lo e olhar-te.
Por mais que seja errado amar-te - meu pecado, minha alma - todo o meu corpo, cérebro, veias, coração, está-se pouco a cagar pra isso.
Ele só sabe - e eu penso em tantas outras coisas, mas no fim do dia, no fim de tudo, quando a luz se apaga, e tudo se silencia, e tu, até tu, dormes,
Ele só sabe,
Que te ama.


domingo, 14 de setembro de 2014

Sometimes I get tired of loving.

Sometimes I get tired of loving. It's so incredibily tiring when you do it alone. Time, wrapped in sterile hope, passes so slowly it even looks like it goes backwards. 

Still, it never goes.


Terminem-me já.

São sete da noite e eu levanto me com o quase deitar do dia
Sento-me na cama antes de ganhar forças para me erguer de pé,
E Já sinto os ossos das costas contra a parede feia e fria do quarto
De tanto comer o teu corpo à noite em sonhos mórbidos em que vens
E me violas sem perdão,
E de me alimentar somente das memórias que restam, durante o dia.
Como é ser papel principal?
Como é ser capa de livros e histórias intemporais,
Em que és a grandiosa protagonista?
Como é seres musa de poemas,
Inspiração para melodias, 
E tudo começar, e acabar em ti?
As minhas mãos tremem.
Eu sinto chegar um laivo de inspiração
Que me faz ter a força de ainda escrever um pouco.
Valha-nos isso - Escrever.
O que diariamente me salva.
E tu és momento quando te lêem e solidão quando te fecham a página,
E enquanto escreves?
Um doce coma ilustrado.
Aí que não me quero mais a mim!
Este corpo, esta alma, este pensar constante!
E sentir a falta daquela droga que é ela em cheiros, formas, sexo e calor,
E colmatar essa falta com tudo o que te corte  momentaneamente a dor.
E ser só isso, a tua realidade. 
Se é disso que vivo,
Terminem-me já.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Lucy in the sky with diamonds

Hoje ligou-me a Lúcia. 
A Lúcia é a irmã de uma das minhas melhores amigas. Tem dez anos de idade.
As crianças não me arrancam grande emoção e se alguma vez escrevi sobre/para elas, fi-lo pouquíssimas vezes, se o fiz.
A Lúcia tem problemas na escola, tem um défice de concentração elevadíssimo e já correu mais escolas nos seus dez anos de vida que a filha de um diplomata na sua vida toda. Ainda assim, ao contrário das suas coleguinhas de escola, que ouvem as músicas convencionais para crianças e os cantores populares portugueses por influência dos pais, ela ouve Beatles e Pink Floyd e diz "ser bem melhor que Tony Carreira". Gostos não se discutem, mas na verdade dada a complexidade da obra dos intérpretes referidos, e meio onde está inserida, é pouco viável serem uma opção agradável aos ouvidos de uma criança que mais depressa compreende e aprecia os singelos acordes e letra das músicas populares que um "blackbird singing in the dead of night". Talvez por isso me cative um pouco mais que as outras crianças com quem contraceno quando é preciso.
A Lúcia viu a minha foto de perfil e diz que quer cortar o cabelo como o meu, do mesmo modo. Escrevo o seu nome vezes sem conta porque além de ser o meu nome predilecto, sinto-me à medida que o escrevo e leio para mim, a transmitir-lhe um pouco mais de força.
A Lúcia vai ter de cortar o cabelo.
A Lúcia ligou-me a perguntar se a podia ir visitar, e  eu nunca sei bem como reagir com as crianças, o que lhes dizer. Entretanto fico sem palavras, e desta vez o silêncio era ainda mais ensurdecedor por ter a responsabilidade de lhe fazer esboçar um sorriso.
E eu queixo-me da quantidade de cadeiras que tenho que fazer, quando ela está a começar uma pequena luta para conseguir chegar, um dia, à faculdade, ou então até ao Natal.
A Lúcia  está com uma puta de uma leucemia. E só não é justo. 

Não é justo criança alguma passar por isto: inevitavelmente criar resistência emocional, forças, medos, maturidades, que podiam muito bem chegar depois da merecida idade da brincadeira.














[Imagem do filme "I am Sam" em que Dakota interpreta a personagem de Lucy. Gostaria de mencionar que este é um dos meus filmes de eleição.]

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Se faz favor

A minha mente paira acima de mim:
Sinto-me fora de mim pelas piores razões.
Já nem consigo fazer uma escrita minimamente consciente,
Coerente.
Chega de festa, chega de sexo, chega.
Mas o que fica?
Nada.
Dói-me a garganta, dói-me a cabeça,
Estou a doer-me.
E ela escreve-me e toca-me e sente-me,
É a loucura materializada em achegos bem quentes,
E agora não me apetece.
E agora, não me apetece calor.
Quero um banho de água fria e acordar do nada,
Se faz favor, obrigada.
A minha cabeça já não pensa, só vive.
Não quero parar, e não quero continuar.
Não quero saír, não quero ficar.
Não há um meio termo aceitável,
Como que um coma?
Preciso só de uma pausa, demorada,
Se faz favor, obrigada.


Escrever é uma forma de amar

Escrever é uma forma de amar. Escrever é amar em papel, assim como fazer amor é amar com o físico.







terça-feira, 2 de setembro de 2014

Falsas manhãs

Como ela fica bonita a dormir a meu lado.
Dou-lhe um beijo na testa, sinal de respeito,
E corro para a cozinha.
Preparo-lhe o pequeno almoço, como ela gosta.
O seu sumo favorito, as torradas do costume, o café na máquina italiana, que aprendi a fazer.
Por breves momentos pensei, que me acostumava a isso.
Novamente a medo, não o sussurrei quando ela abriu os olhos e me viu a seu lado, de pequeno almoço pronto.
Hoje é um dia calmo, e nem tão frio, nem tão quente.
Oiço os pássaros lá fora, e além desses, só o silêncio.
E a sua respiração.
E eu não me lembro ter sorriso mais real do que o que esbocei quando os seus olhos se abriram,
De um verde pouco desperto e terno.
Ela bastava-me e eu não lho disse convenientemente,
Que talvez até mudasse, talvez emigrasse, ou casasse,
Disse sempre,
Que não.
Acordo-me. Lá estou eu a sonhar.
Sento-me na cama.
A falta dela invade-me até aos olhos, e dos olhos até ao pescoço, abaixo
E desço em lágrimas para o quarto dos pais,
Que estou no começo da idade adulta,
A tentar aprender o que é amar sem birras,
Como os adultos fazem - calam e seguem,
Mas creio, ainda jovem o suficiente para me dar ao luxo de ainda pedir abraços,
Esses que a minha mãe então nega, e diz:
Se é por essa mulher, faz esse luto sozinha.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Silêncio

Garrafas de cerveja vão enchendo a minha secretária já sem livros.
Um caos constante instalado no meu quarto representa com rigor o meu caos interior.
A quem engano se disser que este não é o meu estado favorito
Podre, decadente, alcoolizada, e consequentemente genial.
Eu hoje cedi à dor. É o que os domingos, as manhãs e as noites quando te vais deitar fazem.
Não escrevo para te dar palavras, já nao as há.
Não te escrevo para te trazer conhecimentos novos, já não o são.
Eu continuo a fazer de ti uma presença feminina, estática, doce,
Presa às paredes das ruas e dos quartos e das outras,
Para colmatar o silêncio em que me envolveste.
Nunca pensei que o resto da história fosse perder-te de novo,
Perder o teu como estás, perder cafés.
E não me aflige mais saber que hoje não me pertences,
Mas ser a tua passagem sempre breve e contada.
E no resto do tempo,
Quem és?
Quero lutar contra o sentimento que vai crescendo de que não preciso de ti,
Precisando sempre,
Porque ainda que precise tu não estás e não queres estar.
E eu mascaro-me me do melhor que te posso dar, mesmo que nunca mais to dê, para afastar a real percepção que não sou o que queres receber,
E não me culpar por isso.
O teu silêncio é um grito ensurdecedor,
Que eu julguei não mais ter de ouvir.
Como és capaz de me voltar a negar um abraço,
Desses teus que me curam e salvam,
Mesmo que por compaixão fosse.
Tu estás bem, resolvida, apaixonada, destemida.
E eu estou a caminhar sem rumo, a resolver-me só.
Sei que te afastas a medo de esperar de ti mais do que devo esperar de ti,
E eu volto a dizer que o que me queres dar basta,
O que me queres dar e não dás porque devo desligar-te em mim.
Mas o teu silêncio, esse...
Só não me basta o teu silêncio, a tua despreocupada indiferença,
E como todos os apaixonados, eu só queria que soubesses,
[E me desculpasses mais uma vez]
Por estar a precisar de ti.




domingo, 31 de agosto de 2014

Incoerências

Vagueio por Lisboa só,
Até chegar ao teu encontro.
E Lisboa comigo é Linda,
Comigo e com os turistas apaixonados que por ela passam,
E os sem abrigo que dela fazem casa,
Mas quando chegas Lisboa toma nova forma,
Embuída da tua tão grande incoerência.
És só por si um risco de coca aceso,
E mesmo em lágrimas eu snifo-te o sorriso.
Trespassas-me com a tua loucura
Até que a sinto minha
És só inocência disforme em vivências precoces
E ensinas-me acerca do nada, que do resto eu já fui sabendo.
Nas tuas pernas, compridas, de traços ainda infantis,
Toda uma curta vida de experiências cortantes, uma história em cada cicatriz que trazes,
Ainda assim,
Pareces-me sempre tão virgem.
E tu enrolas mais uma ganza,
Sentada de pernas abertas, os calções curtos do costume, a blusa sempre a caír e a mostrar o começo dos teus seios,
Mas sabes,
Sou eu que realmente fumo,
Que te fumo toda essa incoerência,
Que não é mais que a minha fonte de lucidez.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Sou nada

Sou nada. Nada sinto.
Sinto necessidade de escrever para sentir que sinto necessidade de qualquer coisa que seja.
Na verdade, estou em tédio e vazio profundo, hipotecaram-me. Estou vazia.
Vazia dela. Fiz um investimento de longos anos com meu coração. Ele avisou-me que era arriscado. Quis eu saber?
Não.
"Agora não consigo pagá-lo", digo-o em lamento, aos pulmões que fraquejam e partem sem escolha para longe de mim. Falta-me o ar.
Hipotecaram-me.
E a alma não chegou para saldar as dívidas. Tem-se vindo a desvalorizar seriamente, com toda esta crise de amor que hoje se sente - ninguém resiste, ninguém investe, ninguém acredita - desiste-se.
Estou farta, farta, farta, farta de fingir.
Fingir tudo. Fingir.
Fingir, caro público. Em praça pública me executem, que tanto condenei a falta de honestidade, e aqui estou eu, todos os dias, a mentir.
A fingir que não sinto por ela,
Nada.
A fingir que sinto por elas,
Tudo.
Tudo me enerva. Até a própria escrita- mas preciso dela.
Para ocupar o lugar onde a sua ausência se gosta de sentar.
E hoje, bastava-me a sua presença. Prometo-vos.
Ela não acredita um segundo da sua existência, mas eu apostava as estrelas em como me bastava, hoje, senti-la perto de mim. Só.
Olhá-la. E ter uma noite tranquila de sono, sem medos.
Só.
Assim estou.
É ridículo e humilhante pedir-se a alguém a sua presença, quando nada somos. Quando somos, nada.
Nada é uma palavra pluriofensiva- podemos falar em tantas formas que há de ser-se nada, e todos elas extremamente ofensivas à nossa pessoa:
Não é amiga, não é namorada, não é conhecida, nada.
É o vácuo, uma lacuna que não sabemos onde enquadrar em nós, como guardar em nós, e nem sequer sabemos se a devemos, sequer, guardar.
O nada ressoa-me à mente.
Aqui estou eu. E cá me conformo a continuar a sê-lo, peço desculpa, voltar a ser, novamente, nada.
O banco do coração já não empresta nada, com toda esta crise que nos envolve, e eis que chega o momento em que tenho que declarar, por fim, insolvência.
E aqui me despeço, caro público, meu alento.

A minha mente, antes de partir, deixa-me um bilhete de despedida. Sempre tivemos os nossos atritos, ainda assim, dávamo-nos relativamente bem, e conforta-me:
"Não te inquietes. Todos somos sempre alguma coisa que seja."

Verdade. Sou nada.





domingo, 24 de agosto de 2014

Gosto de ti

Envolvemos-nos por vezes em considerações estúpidas, e caímos no erro de medir aquilo que não se pode medir: o amor.
Diferente em cada circunstância e em cada olhar, em cada toque e em cada ferida. Nós amamos do jeito que precisamos, do jeito que nos faz sentido, impulsionados pelo que não nos preencheu com o tempo.

O ser humano na verdade é um eterno egoísta; Mesmo quando ama outrém, ama viciado. Ama na medida em que o preenche e alimenta, e a ilusão que se faz de um amor é a natural resposta ao medo. Da perda, da incerteza, da solidão.
Não sabemos nada. E o nada tem tanto de assustador como de empolgante. O que temos, é um diamante em bruto e um traço de combustível no chão, a poucos metros da fogueira que nos aquece. Estamos tão perto do abismo como da praia. Duas metades de uma só partícula. Temos tanto de igual como de diferente. Ainda assim, as nossas almas encaixam em perfeita harmonia. Como yin e yang, duas energias opostas. Tu és a escuridão e eu sou a luz. Completamo-nos a meio caminho. Tu dás-me as noites e eu dou-te os dias.

Foi esse encaixe que se deixou ficar no tempo, até que os nossos olhos se encontrassem de novo, e procurassem por fim os nossos corpos, e devorassem a nossa mente, e emburrecessem os nossos corações.

E sabes, eu gosto de ti. Mais do que amar, se é que sequer sei o que é, afinal, o amor. Gosto verdadeiramente de ti. Ninguém deveria amar, sem gostar primeiro. E tanta gente ama sem gostar. Por isso antes de todas as coisas, antes de qualquer coisa que possa dizer, ou escrever para ti, quero que te lembres e guardes no teu coração, e te venha à memória quando te sentes perdida, ou só, ou desamparada pela incerteza do amanhã e se irás vingar nas tuas conquistas, que eu gosto de ti.

E verás, com o tempo, o alento que isso traz.

Saber que cativámos, e que nos gostam por isso.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Monólogo da madrugada

São 4.
Oiço o fado que me arrepia e presencio a nitidez da sobriedade que por alguma razão aprecio hoje.
A noite foi fantástica, mas assim que chego a casa desmancho-me em lágrimas.
Parti o ipad. Foda-se, parti o ecran do ipad.
Desato a chorar, depois desta noite maravilhosa.
Ultimamente, sinto-me pior.
A pior filha do mundo. A pior amante do mundo. A pior pessoa do mundo.
Minto. Não me sinto. Não me sinto de todo. Tudo o que vivo está além da pele, alheio à alma.
Que se passou, pergunto-me. Tive uma uma noite maravilhosa.
Mas depois sei, já que não és mulher. Tu és A mulher.
A minha mente mentiu-me a puta da noite toda.
E eu não choro pelo ipad partido, choro porque me partiste em mim.
Sinto na pele a condenação dos olhares que passam, parece que sabem.
Será que os meus olhos te transparecem em holograma enamorado?
O teu nome vem-me à mente e grita-me. Grita-me, grita-me, grita-me, GRITA-ME.
E eu já não posso olhar para esta guitarra vazia na minha frente, vazia. Sem te ter entre os braços.
Quero a tua voz. O teu toque que não sei decifrar entre o sexual e o maternal. Ou ambos.
Quero o teu sorriso tão, tão frágil, tão meu.
Não o que hoje exprimes.
Quero-te assim, imperfeita e frágil.
Enquanto caminho até casa recordo me do cheiro dos teus cabelos. Recordo-me dos teus cabelos.
Lindos, grandes. Já não os sei, bem como nada em ti.
Tudo o que [te] amo, sei conscientemente não ser mais do que uma ilusão disforme,
Que construíste para mim. Não te perdoou.
Saí dali.
Não me estava a trazer conforto algum provar outro sabor, além do teu.
A quem engano? Engano-me para te esquecer e nos beijos dela só recordo os teus.
Estou acordada sem sono absolutamente nenhum.
Não me gabam a sorte.
Porque o meu corpo e mente escolheu esta cruz pra si?
Aquele teu cheiro tão teu, tão doce, tão venenoso. Entrou e encheu toda uma sala.
Os teus olhos nos meus quando a minha voz se juntou com as cordas.
Aquilo que não esquecemos, consolidamos com os sexos.
Tu-vives-em-mim.
E vais fugir eternamente a isso, não conformada com os olhares e reprovação que nos rodeia, tudo isso aliado à tua carência insaciável, incontrolável, e à tua própria instabilidade mental provocada por abandonos, crenças, fragilidades e desejo interminável de vivências no limite da emoção.
E eu?
Estou aqui.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Chego em breve, Lisboa

Lisboa,
Chego em breve para te abraçar inteira.
És a primeira e serás a ultima que os meus olhos querem ver e comer.
Aqui te prometo o meu último suspiro, mesmo que a distância nos prive de nos amarmos juntas.
Lava os restos que é de mim e traz-me sangue novo e doce à alma.
Quero-te nua, crua, verdadeira.
O teu pior e o teu melhor.
Quero as tuas ruas, os teus sons, os teus ruídos, os teus prantos, os meus gemidos.
Chego para me amparar na tua calçada.
Beijarei teus pés com as minhas palavras,
E num canto eterno proclamar-me-ei tua,
Mesmo que me venda aos falsos anjos, por aí.
Da noite ao dia encher-te-ei da minha doce melancolia, aquela mesma que os fadistas entoam em solene harmonia.
De madrugada traz-me o prazer que se esconde em teus braços.
Dá-me as drogas que mereço, todo um álcool que me polua a alma e a escureça, para que eu não possa mais ver o que nela se esconde.
Dá-me tudo o que me possa levar ao clímax da maior inconsciência.
Deixa-me só consciente ao riso.
Prometo rir-te muito, e dançar em ti desfeita.
Preenche o meu coração, as minhas entranhas, as minhas preces e descrenças.
Devolve-me inocência, rouba-me a decência.
Faz de mim o teu voraz pecado.     
Vem perder-te enfim comigo, Lisboa
Que chego em breve para te abraçar inteira,
E tão vazia de mim.

domingo, 17 de agosto de 2014

Bem-vindo ao circo



Bem-vindo ao circo - murmuram-me, oiço mal.
Despacho-me demasiado rapidamente a confiar no que ela me dá a beber, com um sorriso maduro mas louco no rosto que me acalma as pulsações muito rítmicas que o álcool me provoca e dá a provar em sensações desfocadas de muita luz e muito som envoltos numa neblina que me cerra os sentidos da sensatez.
Sinto-a acariciar-me no braço, ou então, sinto só o toque, que me sabe bem, que me sabe real, que me sabe. E já nada me sabe. E já nada me enche.
Eu sei que ela não gosta de mulheres, noto-lhe na postura e na forma como se chegou a mim, mas gosta de brincar, e isso basta-me bem, basta-me. E já nada me basta. E já nada me [pre]enche.
Gosto da forma como me olha e eu deixo-me ser muito adolescente e insana, já que ela não parece estar a importar-se, e brinca comigo às trocas de olhares falando-me perto demais para me permitir conter impulsos, arrisca-se.
Ensinaram-me a não falar com desconhecidos, muito menos beber das suas bebidas.
[A ela não, provavelmente.]
Mas quanto a mim? Faço por pôr em prática precisamente o contrário do que me foi ensinado, já que em nada resultou - permaneço em vazio e desconsolo, continua a faltar-me algo.
"23 anos para o lixo"- dizem eles diariamente, certo como o despertador. Eficaz e pontual.
Foi apanhada na rede da minha carência, muito susceptível, muito reles.
Se me estendesse a mão e me levasse com ela não estaria hoje aqui deitada, sem sono, na cama do costume, a escrever mais uma merda destas para passar o tempo, e provavelmente estaríamos num quarto de hotel a brincar aos casais e ao "amo-te muito", que não ama nada, que é só fachada para enganar a alma que sofre menos hoje para doer só lá à frente, adia-se.
É como a droga e o álcool, esses corpos em tesão que só se querem vir porque é a sensação mais próxima de amor possível que se arranja enquanto reais emoções não chegam - deixem-se disso, caro público- elas não chegam.
Somos todos farsa e mentira, bando de egocêntricos que só nos queremos amar a nós. Aliamo-nos a quem só nos pode ajudar a alimentar isso- amarmo-nos a nós. Sentirmo-nos amados, da maneira que encontramos,
Sentirmo-nos bem, grandes, especiais, úteis, bem fodidos.
[Nós, nós, nós, nós,  nós, nós, nós, nós, nós... mesmos.]
Ela vai falando mas eu não entendo o que diz, não consigo juntar as palavras e só vejo agora o seu semblante moreno, a sua pele gasta com traços que denunciam a idade, e os seus olhos fulminantes em mim,
E beijo-a.
Bem-vindo ao circo - murmuram-me. Agora oiço, e acredito.
Estou no meio do palco, os leões aproximam-se, o trapezista quase cai, bem por cima de mim. Oiço sons muito altos e disformes, aplausos, e sinto todas as vistas em cima de mim. Só pode ser o circo.
Consigo distinguir algumas expressões faciais, tradicionalmente condenatórias,
Será que errei o meu número?  Ah, fiz merda outra vez.
E ela, depois de me retribuir o beijo, deixa-me só, em palco de número falhado, a viver aquela condenação mental sozinha.
O relógio toca as três horas da manhã e o estômago em nó regista a data de óbito,
A hora em que oficialmente me perdi.





Se te minto

[ainda não] sei o que é de nós.

Se te minto,
escondo-te que sinto medo de cada vez que beijo mais uma vez a tua pele.
Escondo-te que sinto paz quando o silêncio se instala depois que os nossos corpos gritaram à luz da noite escura.
Quanto mais te tenho, mais te quero, mais te preciso.

Se te minto,
Escondo-te que todos os dias ao acordar quero fugir, de mim, e de ti, e de nós, repudiar este sentimento porque vai crescendo, e não sei se cresce em direcção ao caos.

Temos, eu acho, tanta certeza na dúvida. Não sabemos o que queremos, mas queremos isto, não sabemos quanto dura, mas sentimos falta. Não queremos fazer planos, mas imaginamos futuros próximos. Não nos queremos envolver demasiado, mas envolvemos-nos em abraços.

Temos, eu acho, alguma certa dependência, em toda a nossa liberdade.
Queres mostrar-me o teu mundo, e eu quero mostrar-te o meu. Queres que te leve, e te vá buscar, e eu quero cuidar de ti.

Às vezes reflito, e penso em como é mais fácil quando somos impulsivos e não tomamos consciência das coisas. Acreditar tão simplesmente que tudo é eterno, e que nada acaba, como se pensa quando se é adolescente. A maturidade, ou a idade, traz enriquecimento, mas traz também descrença. E de que serve, quando aproveitamos tudo a metade, e nem por isso deixamos de viver aquilo que o coração quer.

Gostava de não te ouvir quando dizes que te fartas depressa, gostava que o meu sentimento fosse mais forte do que a consciência.

Gostava de continuar ingénua, e acreditar nas pessoas. Porque na verdade,talvez aí eu fosse plenamente, momentaneamente feliz, e não pela metade, sempre sempre à espera do princípio do fim.

Se te minto,
escondo-te que receio dizer-te tudo isto, e te afastes, para me proteger. Escondo-te que receio o dia em que me conquistas de corpo e alma, e partas com desejo, e saudades de conquistar outrem. Escondo-te que receio e sinto não poder dar-te tudo o que precisas e queres e desejas; Um dia irás procurar as partes que te vão faltar, deixando-me.

Temo tanto o futuro, como o anseio, para ver afinal, no que isto dá.

Peço-te, que fiques, enquanto te sentes minha, e eu me sinto tua, enquanto me quiseres conhecer, e descobrir comigo. E que me deixes sem perdão, quando só me quiseres o corpo.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Pais e filhos

Há uma troca de olhares com o homem da frente uma dezena de vezes.
Não sei se ele acha que o estou a achar interessante,
Mas na verdade o que acho interessante é a relação dele com o filho.
Como todas as relações com os filhos.
Porque não as entendo.


Esperas-me?

Às vezes digo o teu nome, pra mim. Gosto de o ouvir. Sinto-te perto.
Não te posso deixar ler isto que vou escrevendo. Não quero que me decifres assim.
Quero que me decifres com o tempo. Com os olhos, com o tacto, em beijos.
E nunca em tempo algum eu, apressada e irrequieta, e inquieta, gostei tanto de esperar.
Nunca fui capaz de esperar tempo suficiente por nada.
Desisti de algumas coisas que não devia ter desistido, porque me farto delas.
Abandonei locais na hora errada.
Ainda assim, soube esperar-te. A única coisa, por que soube aguardar.
Espero contigo,
Espera comigo.
Esperas–me?


Primavera


-Por morrer uma andorinha, não se acaba a primavera.

- Mas mãe, ela era a primavera...


Primeiro amor

Mais que as guerras,
As maiores calamidades,
Temporais que ameaçam ruir as casas,
Perigo algum se igualará, em tempo algum,
À perigosidade de viver e perder
Um primeiro amor.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Quero ser livre"


Já conheço todo o teu mundo e o que te rodeia. 
Tornou se monótono caminhar contigo, porque conheço a tua forma de ver. 
Precisava sentir uma fuga, e literalmente sentir me a fugir.
Há outra brisa que me refresca sentidos perdidos num espaço que ocultei no tempo. 
Não sabia mais voltar... e ainda não sei. Ainda me procuro.
Parece-me hoje que já me ensinaste tudo o que podias, e eu tenho saudades de aprender.
Não quero ser de ninguém, além de mim, e nem sei se de mim quero ser,
Porque posso correr o risco de me querer mudar. 

Quero ser livre.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

I will writte you down a thousand times until you come to life

To you, my letters.

You've won them All and one by one,
It's how it has to be, for centuries it was so.
I hate whom created me so deeply attached to feelings.
How can I love god
If he created this monster shadow upon me

How funny,
I see murderers behind bars
And they are not less trapped as me.
They've hurt someone so deeply
So they must be punished with their freedom taken

But I now ask sincerely
when was I free.
I can't recall.
I'm a prisoner of my own thinking
still I want this pain.
I must to cause it feeds my veins.

I drink another beer and
Scratch my notebook with these words.
I'm now free to the paper.
And to the paper only.

I will writte you down a thousand times
until you come to life.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Errar-te

Ama-me.

Ama-me ainda que mintas.
Engana-me mais uma noite,
E eu dir-te-ei toda a verdade.

Ama-me,
Que eu conto-te o resto.
Conto-te que onde a minha alma mora
- Olha para dentro de ti.

Ama-me,
Que os meus braços envolver-te-ão enquanto dormes,
E até à minha morte não serás nunca só-
Pensas que és.

Ama-me,
E eu confesso-te às paredes,
Derrubo os muros que nos fecham na lógica
Colmato uma a uma todas as nossas falhas.

Ama-me,
E eu fujo contigo,
Recrio as chamas que forem precisas
E aqueço o teu mundo.

Porque tu foste a mais bonita maneira de cometer um erro.
E eu só queria poder errar[-Te] o resto da vida.


Casas

                 A casa do coração constrói-se nos braços de quem o leva junto consigo no peito.
                                                                                                                                                  C.B.

Paixão fugaz em horário de almoço

O teu lugar acabou de ficar vazio.
Enquanto saías não me olhavas mais, meteste conversa com o empregado.
Não reparei de imediato em ti, e ainda não sei o que me prendeu.
Trocámos olhares três vezes quase seguidas.
Quando olhei a primeira vez, olhavas para mim.
 Estavas a observar-me e não sei o que pensas.
Depois ficaste inquieta, o resto da refeição. Tentavas não me olhar, claramente.
Não conseguia ver-te inteira, tinha pessoas sentadas à frente e escondias-te por detrás de um vaso grande, mas fiz um esforço.
Expressão cansada no rosto. Vestias-te bem.
Não me olhaste com desejo. Uma curiosidade atroz, talvez. E medo alheio à curiosidade que te consumia, ou parecia consumir. 
Vestias uma camisa fina azul, mangas arregaçadas, ligeiro decote. Cabelo arranjado, ligeiramente ondulado com jeitos, semi-comprido. Não eras nova, mas tinhas um ar sofisticado e estavas em forma.
Fiquei subitamente com calor, e despi os casacos. Até agora continuo sem eles, e hoje chove e está frio.
Alguma coisa em ti me aqueceu a alma.
Não sei o que viste em mim, que levo uma t-shirt preta simples e nem estou arranjada. Como acordei, saí. Não penteei o cabelo, está desordenado e parece mais curto quando está assim, para todas as direções. Mas o teu olhar prendeu-me, ou o que tentaste transmitir com ele. 
Alguma telepatia pouco recetiva se terá passado, algum sinal que não soube decifrar.Os teus olhos procuravam os meus, pelo menos, naquelas três vezes em que nos olhámos.
A tua postura mudou depois daí, parecias incomodada com aquilo que tu mesma pareceste provocar.
Será que és casada?
Não pareces feliz. Mesmo quando sorris, é um sorriso mecânico. Fabricado para distanciar perguntas.
Mas mesmo antes de te levantares, enquanto eu sorria pela conversa da minha mesa e me esqueci por segundos de ti, olho-te por acidente e lá estavas tu novamente a olhar de volta. 
Acho que sorri ligeiramente para ti, pela primeira vez, e tu mantiveste a tua postura executiva e desviaste novamente o olhar. 
Mas desta vez, a mensagem passou. 
Consegui sentir o sentimento de culpa que te consumia, alimentado por uma qualquer religião – reparei numa revista que contigo trazes.
Por momentos eu penso que me poderia levantar, chegar-me a ti e dizer-te tão somente o quão bonita és, em todo o teu olhar tão incomodado e tão intenso. 
Ainda que parecesse ridículo da minha parte.
Talvez o tivesse feito, num outro contexto, e se não estivesse sentada num banco duplo impossibilitada de espontânea e impulsivamente me levantar como a situação o exigiria para poder agir com alguma coragem. Descobrir por onde te levam os reservados passos. 
Mas saíste, e  não te voltarei a ver. Todavia se pelo acaso do destino voltar a cruzar-me contigo, saber-te-ei reconhecer. 
Talvez também tu te recordes de mim.