quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Lucy in the sky with diamonds

Hoje ligou-me a Lúcia. 
A Lúcia é a irmã de uma das minhas melhores amigas. Tem dez anos de idade.
As crianças não me arrancam grande emoção e se alguma vez escrevi sobre/para elas, fi-lo pouquíssimas vezes, se o fiz.
A Lúcia tem problemas na escola, tem um défice de concentração elevadíssimo e já correu mais escolas nos seus dez anos de vida que a filha de um diplomata na sua vida toda. Ainda assim, ao contrário das suas coleguinhas de escola, que ouvem as músicas convencionais para crianças e os cantores populares portugueses por influência dos pais, ela ouve Beatles e Pink Floyd e diz "ser bem melhor que Tony Carreira". Gostos não se discutem, mas na verdade dada a complexidade da obra dos intérpretes referidos, e meio onde está inserida, é pouco viável serem uma opção agradável aos ouvidos de uma criança que mais depressa compreende e aprecia os singelos acordes e letra das músicas populares que um "blackbird singing in the dead of night". Talvez por isso me cative um pouco mais que as outras crianças com quem contraceno quando é preciso.
A Lúcia viu a minha foto de perfil e diz que quer cortar o cabelo como o meu, do mesmo modo. Escrevo o seu nome vezes sem conta porque além de ser o meu nome predilecto, sinto-me à medida que o escrevo e leio para mim, a transmitir-lhe um pouco mais de força.
A Lúcia vai ter de cortar o cabelo.
A Lúcia ligou-me a perguntar se a podia ir visitar, e  eu nunca sei bem como reagir com as crianças, o que lhes dizer. Entretanto fico sem palavras, e desta vez o silêncio era ainda mais ensurdecedor por ter a responsabilidade de lhe fazer esboçar um sorriso.
E eu queixo-me da quantidade de cadeiras que tenho que fazer, quando ela está a começar uma pequena luta para conseguir chegar, um dia, à faculdade, ou então até ao Natal.
A Lúcia  está com uma puta de uma leucemia. E só não é justo. 

Não é justo criança alguma passar por isto: inevitavelmente criar resistência emocional, forças, medos, maturidades, que podiam muito bem chegar depois da merecida idade da brincadeira.














[Imagem do filme "I am Sam" em que Dakota interpreta a personagem de Lucy. Gostaria de mencionar que este é um dos meus filmes de eleição.]

Um comentário:

  1. Desde que tudo isto começou estonteantemente depressa, mal me permiti verter uma lágrima que fosse. Assomaram-se muitas, mas recolhi-as para dentro. Tinha de ser prática e concentrar-me no necessário. A Lúcia tem de ser forte e para isso eu tenho de ser forte e sorrir para ela. Mas agora ao ler o teu texto finalmente deixei-as correr, mas com um sorriso nos lábios. Obrigada minha charlie alforreca musical <3

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