Bem-vindo ao circo - murmuram-me, oiço mal.
Despacho-me demasiado rapidamente a confiar no que ela me dá a beber, com um sorriso maduro mas louco no rosto que me acalma as pulsações muito rítmicas que o álcool me provoca e dá a provar em sensações desfocadas de muita luz e muito som envoltos numa neblina que me cerra os sentidos da sensatez.
Sinto-a acariciar-me no braço, ou então, sinto só o toque, que me sabe bem, que me sabe real, que me sabe. E já nada me sabe. E já nada me enche.
Eu sei que ela não gosta de mulheres, noto-lhe na postura e na forma como se chegou a mim, mas gosta de brincar, e isso basta-me bem, basta-me. E já nada me basta. E já nada me [pre]enche.
Gosto da forma como me olha e eu deixo-me ser muito adolescente e insana, já que ela não parece estar a importar-se, e brinca comigo às trocas de olhares falando-me perto demais para me permitir conter impulsos, arrisca-se.
Ensinaram-me a não falar com desconhecidos, muito menos beber das suas bebidas.
[A ela não, provavelmente.]
Mas quanto a mim? Faço por pôr em prática precisamente o contrário do que me foi ensinado, já que em nada resultou - permaneço em vazio e desconsolo, continua a faltar-me algo.
"23 anos para o lixo"- dizem eles diariamente, certo como o despertador. Eficaz e pontual.
Foi apanhada na rede da minha carência, muito susceptível, muito reles.
Se me estendesse a mão e me levasse com ela não estaria hoje aqui deitada, sem sono, na cama do costume, a escrever mais uma merda destas para passar o tempo, e provavelmente estaríamos num quarto de hotel a brincar aos casais e ao "amo-te muito", que não ama nada, que é só fachada para enganar a alma que sofre menos hoje para doer só lá à frente, adia-se.
É como a droga e o álcool, esses corpos em tesão que só se querem vir porque é a sensação mais próxima de amor possível que se arranja enquanto reais emoções não chegam - deixem-se disso, caro público- elas não chegam.
Somos todos farsa e mentira, bando de egocêntricos que só nos queremos amar a nós. Aliamo-nos a quem só nos pode ajudar a alimentar isso- amarmo-nos a nós. Sentirmo-nos amados, da maneira que encontramos,
Sentirmo-nos bem, grandes, especiais, úteis, bem fodidos.
[Nós, nós, nós, nós, nós, nós, nós, nós, nós... mesmos.]
Ela vai falando mas eu não entendo o que diz, não consigo juntar as palavras e só vejo agora o seu semblante moreno, a sua pele gasta com traços que denunciam a idade, e os seus olhos fulminantes em mim,
E beijo-a.
Bem-vindo ao circo - murmuram-me. Agora oiço, e acredito.
Estou no meio do palco, os leões aproximam-se, o trapezista quase cai, bem por cima de mim. Oiço sons muito altos e disformes, aplausos, e sinto todas as vistas em cima de mim. Só pode ser o circo.
Consigo distinguir algumas expressões faciais, tradicionalmente condenatórias,
Será que errei o meu número? Ah, fiz merda outra vez.
E ela, depois de me retribuir o beijo, deixa-me só, em palco de número falhado, a viver aquela condenação mental sozinha.
O relógio toca as três horas da manhã e o estômago em nó regista a data de óbito,
A hora em que oficialmente me perdi.

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