segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Paixão fugaz em horário de almoço

O teu lugar acabou de ficar vazio.
Enquanto saías não me olhavas mais, meteste conversa com o empregado.
Não reparei de imediato em ti, e ainda não sei o que me prendeu.
Trocámos olhares três vezes quase seguidas.
Quando olhei a primeira vez, olhavas para mim.
 Estavas a observar-me e não sei o que pensas.
Depois ficaste inquieta, o resto da refeição. Tentavas não me olhar, claramente.
Não conseguia ver-te inteira, tinha pessoas sentadas à frente e escondias-te por detrás de um vaso grande, mas fiz um esforço.
Expressão cansada no rosto. Vestias-te bem.
Não me olhaste com desejo. Uma curiosidade atroz, talvez. E medo alheio à curiosidade que te consumia, ou parecia consumir. 
Vestias uma camisa fina azul, mangas arregaçadas, ligeiro decote. Cabelo arranjado, ligeiramente ondulado com jeitos, semi-comprido. Não eras nova, mas tinhas um ar sofisticado e estavas em forma.
Fiquei subitamente com calor, e despi os casacos. Até agora continuo sem eles, e hoje chove e está frio.
Alguma coisa em ti me aqueceu a alma.
Não sei o que viste em mim, que levo uma t-shirt preta simples e nem estou arranjada. Como acordei, saí. Não penteei o cabelo, está desordenado e parece mais curto quando está assim, para todas as direções. Mas o teu olhar prendeu-me, ou o que tentaste transmitir com ele. 
Alguma telepatia pouco recetiva se terá passado, algum sinal que não soube decifrar.Os teus olhos procuravam os meus, pelo menos, naquelas três vezes em que nos olhámos.
A tua postura mudou depois daí, parecias incomodada com aquilo que tu mesma pareceste provocar.
Será que és casada?
Não pareces feliz. Mesmo quando sorris, é um sorriso mecânico. Fabricado para distanciar perguntas.
Mas mesmo antes de te levantares, enquanto eu sorria pela conversa da minha mesa e me esqueci por segundos de ti, olho-te por acidente e lá estavas tu novamente a olhar de volta. 
Acho que sorri ligeiramente para ti, pela primeira vez, e tu mantiveste a tua postura executiva e desviaste novamente o olhar. 
Mas desta vez, a mensagem passou. 
Consegui sentir o sentimento de culpa que te consumia, alimentado por uma qualquer religião – reparei numa revista que contigo trazes.
Por momentos eu penso que me poderia levantar, chegar-me a ti e dizer-te tão somente o quão bonita és, em todo o teu olhar tão incomodado e tão intenso. 
Ainda que parecesse ridículo da minha parte.
Talvez o tivesse feito, num outro contexto, e se não estivesse sentada num banco duplo impossibilitada de espontânea e impulsivamente me levantar como a situação o exigiria para poder agir com alguma coragem. Descobrir por onde te levam os reservados passos. 
Mas saíste, e  não te voltarei a ver. Todavia se pelo acaso do destino voltar a cruzar-me contigo, saber-te-ei reconhecer. 
Talvez também tu te recordes de mim.




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