sábado, 27 de dezembro de 2014

O infortúnio dos desencontrados

Hoje foi a cerimónia dos 25 anos de casados dos meus pais, e roí-me um bocadinho de inveja, e de alguma tristeza pessoal, devo admitir. É que, mais uma vez, ocorreu-me uma reflexão que tem vindo a ser constante em mim.

Que sorte têm aqueles cujos grandes amores se cruzam, se apaixonam, se juntam. Que sorte aqueles que com estes constroem uma vida a dois. Que sorte aqueles que se encontram no momento certo e na idade certa. Que sorte aqueles que têm sorte, essa sorte. A maior sorte de todas.

E então tudo o resto parece fácil; As contas para pagar, os estudos para acabar, o trabalho por despachar, o cuidar do outro, o esperar pelo outro, inclusivamente, o aturar o outro.

Parece que é tudo extremamente prazeroso, mesmo os sacrifícios que nos propomos a fazer, porque os fazemos por esse amor que faz de nós seres alheios ao espaço e ao tempo - Parece que levitamos numa realidade tão capaz de nos salvar e proteger de tudo, e se isto vos parece completamente exagerado e descabido, então, meus caros, ainda não viveram o vosso grande amor.

Na verdade eu quero um grande casamento – sem me casar – uma bonita vida a dois, partilhar, amar, respeitar, e cuidar até à morte. 

Tenho em mim todas essas capacidades, e até outras mais como a compreensão e o saber perdoar os erros, as falhas, os temperamentos menos agradáveis e possíveis mudanças de humor, e tudo isto não obstante todos os aqueles meus defeitos que dificultam a tarefa a todas essas capacidades ditas acima.

Mas acontece que eu estou verdadeiramente cansada.

Cansada de fazer tudo isso e até mesmo cansada de o projetar, com pequenos amores.  

Parece sempre que falta uma qualquer força sobrenatural, aquela, que temos, quando estamos perante um grande amor. Falta sempre aquele impulso além de nós, superior a nós, aquela motivação, aquela garra, aquela inspiração. [E nós sabemos sempre, sempre quem são, ou quem é, o nosso grande amor - Porque aquilo que sentimos difere de tudo o resto que sentimos com qualquer outra pessoa, coisa, situação na nossa vida. Como se se tratasse de um sentimento aparte, reservado desde o nosso nascimento para esse momento grandioso, aos mais diversos níveis, que é o de conhecer um grande amor.]

E dizem, por aí, que desses grandes amores temos muitos ao longo da vida, e eu desacredito mas continuo à espera que chegue um outro, bem maior do que o que vive em mim, para que eu pare, de uma vez por todas, de amar pela metade, e cansar-me de quem de mim não se cansa, e começar a retribuir amor na medida em que o recebo. E longe de mim queixar-me de não ter sido amada ao longo da minha ainda não muito longa vida, mas esses amores não me alimentam a alma, não me tiram o fôlego, não me tiram a vida. E eu fico, assim, pela metade, a mesma metade que sou capaz de retribuir.

Sei tão perfeitamente que não mereço o que me dão, porque não mereço. E ao longo dos anos que passam vou-me tornando uma pessoa pior:
Mais egoísta.

Sinto tanta falta de sentir o que sei que não me podem fazer sentir, que exijo toda a atenção, todo o carinho, todo um mundo a meus pés que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha … em vão.

E em contrapartida o que dou é sempre tão pouco ou nada igualável aos castelos que ergo, às muralhas que construo e aos rios que faço nascer, em mim, secretamente no meu quarto, por quem nunca será verdadeiramente
Meu.

Este é o infortúnio dos desencontrados - No tempo, na vida, nas escolhas, nas cidades, nas famílias, nos amores. 

E eu lembro-me tão bem de pensar que nunca iria acabar a vida ao lado de quem não amasse. Aperta-me o coração e a alma saber que serei mais uma daquelas pessoas que acabam a vida junto de quem gostam muito, muito, muito,


Longe de quem amam mais.

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