Hoje foi a cerimónia dos
25 anos de casados dos meus pais, e roí-me um bocadinho de inveja, e de alguma
tristeza pessoal, devo admitir. É que, mais uma vez, ocorreu-me uma reflexão
que tem vindo a ser constante em mim.
Que sorte têm aqueles
cujos grandes amores se cruzam, se apaixonam, se juntam. Que sorte aqueles que
com estes constroem uma vida a dois. Que
sorte aqueles que se encontram no momento certo e na idade certa. Que sorte
aqueles que têm sorte, essa sorte. A maior sorte de todas.
E então tudo o resto
parece fácil; As contas para pagar, os
estudos para acabar, o trabalho por despachar, o cuidar do outro, o esperar
pelo outro, inclusivamente, o aturar o outro.
Parece que é tudo
extremamente prazeroso, mesmo os sacrifícios que nos propomos a fazer, porque
os fazemos por esse amor que faz de nós seres alheios ao espaço e ao tempo -
Parece que levitamos numa realidade tão capaz de nos salvar e proteger de tudo,
e se isto vos parece completamente exagerado e descabido, então, meus caros,
ainda não viveram o vosso grande amor.
Na verdade eu quero um
grande casamento – sem me casar – uma bonita vida a dois, partilhar, amar,
respeitar, e cuidar até à morte.
Tenho em mim todas essas
capacidades, e até outras mais como a compreensão e o saber perdoar os erros,
as falhas, os temperamentos menos agradáveis e possíveis mudanças de humor, e tudo
isto não obstante todos os aqueles meus defeitos que dificultam a tarefa a
todas essas capacidades ditas acima.
Mas acontece que eu
estou verdadeiramente cansada.
Cansada de fazer tudo
isso e até mesmo cansada de o projetar, com pequenos amores.
Parece sempre que falta
uma qualquer força sobrenatural, aquela, que temos, quando estamos perante um
grande amor. Falta sempre aquele impulso além de nós, superior a nós, aquela
motivação, aquela garra, aquela inspiração. [E nós sabemos sempre, sempre quem
são, ou quem é, o nosso grande amor - Porque aquilo que sentimos difere de tudo
o resto que sentimos com qualquer outra pessoa, coisa, situação na nossa vida.
Como se se tratasse de um sentimento aparte, reservado desde o nosso nascimento
para esse momento grandioso, aos mais diversos níveis, que é o de conhecer um
grande amor.]
E dizem, por aí, que
desses grandes amores temos muitos ao longo da vida, e eu desacredito mas
continuo à espera que chegue um outro, bem maior do que o que vive em mim, para
que eu pare, de uma vez por todas, de amar pela metade, e cansar-me de quem de
mim não se cansa, e começar a retribuir amor na medida em que o recebo. E longe
de mim queixar-me de não ter sido amada ao longo da minha ainda não muito longa
vida, mas esses amores não me alimentam a alma, não me tiram o fôlego, não me
tiram a vida. E eu fico, assim, pela metade, a mesma metade que sou capaz de retribuir.
Sei tão perfeitamente
que não mereço o que me dão, porque não mereço. E ao longo dos anos que passam
vou-me tornando uma pessoa pior:
Mais egoísta.
Sinto tanta falta de
sentir o que sei que não me podem fazer sentir, que exijo toda a atenção, todo
o carinho, todo um mundo a meus pés que eu tento que me preencha, que eu tento
que me preencha, que eu tento que me preencha, que eu tento que me preencha … em
vão.
E em contrapartida o que
dou é sempre tão pouco ou nada igualável aos castelos que ergo, às
muralhas que construo e aos rios que faço nascer, em mim, secretamente no meu
quarto, por quem nunca será verdadeiramente
Meu.
Este é o infortúnio dos
desencontrados - No tempo, na vida, nas escolhas, nas cidades, nas famílias, nos
amores.
E eu lembro-me tão bem de pensar que nunca iria acabar a vida ao lado
de quem não amasse. Aperta-me o coração e a alma saber que serei mais uma
daquelas pessoas que acabam a vida junto de quem gostam muito, muito, muito,

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