segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Um abraço

Existe uma pessoa na minha família que me marcou muito. O meu tio João. Crescido no Brasil, médico ginecologista como o meu pai e artista de tempos livres.

Poderíamos pensar à partida que a medicina, uma ciência, não se cruza com a arte, mas ele soube combiná-las muito bem ao longo da sua vida. Podia tê-lo sido a tempo inteiro porque ele era muito dotado. Praticava todas as manhãs religiosamente na guitarra e ao piano, lia pautas como ninguém e estudava muito. Era um apaixonado pelos grandes e cresci com ele e com a minha tia (eram os tios mais próximos ) a ouvir Bethânia, Elis Regina, Vinícius de Morais, Gal Costa, Caetano, Chico Buarque.

Além da música o meu tio era um poliglota autodidacta. Ele estudava as línguas e estudou-as até à sua morte. Sabia um montão delas e ia-me ensinando algumas palavras. De japonês, Chinês, Alemão, Inglês, Francês, Norueguês…

Na altura em que me lembro dele já ele era reformado. Tenho muita pena de não ter podido viver mais dele e mais cedo. O meu tio nunca me tratou como uma criança. Eu aprendia com ele como os crescidos. Era resmungão, mimado e comodista, mas tinha um coração gigante e emocionava-se muito. Lembro-me de o ver chorar uma dezena de vezes. Há dois anos atrás morreu a minha avó, e ele disse que o próximo era ele – estava certo. Um ano depois faleceu. Ambos artistas. Ficam os comuns mortais e fico eu sozinha no meio de pessoas que me incompreendem. Talvez por isso tenham sido tão marcante as suas mortes porque eram eles que traziam vida às salas de estar.

O meu tio tocava romance de amor todas-as-manhãs à guitarra e de seguida ia praticar o piano. O meu quarto, que era ao lado do piano no tempo em que morei com eles ou quando lá ia dormir amanhecia ao som do piano, Chopin ou Bach maioritariamente, e acordava eu sem problema nenhum a ouvir as canções ao piano que aos quatro anos já eu tocava de ouvido ao lado dele. Tenho a certeza absoluta que as minhas influências musicais, os géneros que mais me são, Jazz, Bossanova, MPB, a nostalgia que inexplicavelmente me traz o povo brasileiro e muitos dos meus conhecimentos vêm, provêm, desse tempo da minha relativamente curta história que é a minha vida.

Os livros de piano, o piano, e a guitarra, ainda estão no mesmo lugar. Está tudo como ele deixou. Na escrevaninha todos os livros de línguas com os quais ele praticava, também diariamente, os mais diversos idiomas. Quando lá vou à casa que me é tão querida, entro no quarto dele e fico um bocadinho a olhar. Parece que ele ainda lá está. Parece que o quarto ainda é dele.

A minha tia e o meu tio têm vinte anos de diferença e não é a primeira vez que vos falo deles. Ela perdeu o marido muito nova e o meu tio era um dos melhores amigos dele, embora mais velho que ambos. Sempre os olhei com alguma admiração e sempre apreciei a relação deles, o que não era unânime.

Nunca me incomodou a sua diferença de idades, nunca estranhei enquanto criança o facto do meu tio ser notoriamente tão mais velho. A relação deles sobrevivia pelos gostos em comum na música e nos idiomas. Falavam em inglês e Alemão juntos já que a minha tia é também fluente nestes dois idiomas e às vezes em francês. Eu ia absorvendo tudo como tão bem fazem as crianças. Eram um casal muito educado e culto embora o meu tio contasse frequentemente umas piadas mais arrojadas que ela não gostava. Sempre tinha piadas para contar e tinha muito sentido de humor. Eu ria do que entendia e do que não entendia. Ele dava-me álcool e café (em doses muito pequenas) a experimentar às escondidas dela.

Nem sempre achei que entre eles houvesse amor, o amor romântico de fogo-de-artifício, mas havia uma grande cumplicidade, amizade, respeito. Talvez a ida para os Açores me tenha sido tão amarga porque perdi tudo isto. Tenho memórias de infância, em Lisboa, com os meus tios e mesmo com os meus pais, tão bonitas que me marcam profundamente até aos dias de hoje. 

Quando me mudo para os Açores, enquanto criança, houve um sentimento de perda enorme de tudo isto que vos conto. Um vazio. Em Lisboa fui muito enriquecida – não em dinheiro, mas em vivência, em música, em conhecimento e pessoas tão cheias, tão ricas, tão interessantes e tão estimulantes.

Hoje lembrei-me dele como me lembro sempre que soam os discos que ouvíamos, as guitarras a tocar romance de amor, os pianos a tocar Bach e Chopin.

Em mim ele permanece bem vivo bem como a imagem de um amor tão bonito e tão desejado por mim que era o destes meus tios.

Quando eu revisito a minha infância, são estas as memórias que tenho. Quando penso no quanto fui feliz, também ele fez parte, e muito, desta nostalgia boa.

Onde estejas, um abraço.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Frutos

Texto de 5 Nov 2016

No decorrer de um texto publicado recentemente que me fez refletir mais uma vez sobre isto do amor, em tempos menos bons que são no meu caso o da distância física, ponderam-se sempre os lados da moeda e fazem-se balanços. As minhas discussões são sempre reflexo de um background familiar ao qual me tento libertar. Tem sido uma caminhada.
A distância destabiliza, desgasta e destrói emocionalmente, mas no decorrer deste texto lembro-me do que vem de dentro sem filtros sociais e familiares, lembro-me da escolha que fiz. Relembro-me que amar, mas amar depois da paixão, amar nos temporais, amar na distância, amar quando vacilamos, amar quando existem outros amores igualmente válidos, de ambos os lados, é uma escolha.  É uma escolha ficar e lutar. É uma escolha ultrapassar. É uma escolha silenciar quando não é altura para discussões e as coisas estão quentes.  É uma escolha respeito mútuo, e dar tempo, de forma recíproca, e saber quando cada um precisa de espaço. É uma escolha funcionar a dois. É uma escolha saber que é o caminho mais duro, mas saber que é o caminho certo quando crescemos e nos consolidamos e amadurecemos e vão nascer frutos.
Também é uma escolha partir.

*bonito ver que, um ano depois, continuo a crescer, consolidar[-me], amadurecer. Continuarão a nascer frutos. Sempre.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Tragédimanche, Amor aos Domingos




Os domingos sempre me traem, como os sonhos. Existem circunstâncias que ainda saem do meu controlo. Quando assim o é, pela inutilidade de raciocinar porquês, para evitar desastres de responder a impulsos, durmo. Muito. É o meu dia de pausa. Como hoje que dormi todo o dia. Todo-o-dia. Quando acordo ou a vontade passa, ou dá-me pra escrever, ao mundo. Em dias de grande fragilidade só há uma primeira escolha. Querem saber quem amam? Aí têm. No chão, na morte, no medo, no medo da morte, quem é a primeira pessoa que vos vem à cabeça? É essa a pessoa. Em todo o caso, se teve que terminar, não pode haver amizade de dia a dia. Saber-se do outro. Eu, que tenho uma boa relação com todas as pessoas que passaram pela minha vida até hoje salvo raríssimas excepções - Foi preciso tempo. Depois depende das situações quanto tempo é preciso. Se ainda se ama, o que para mim nos términos só aconteceu uma vez, é preciso muito mais tempo. Tem que haver espaço - cortar-se uma rotina, se queremos preservar o que ficou.  Guardar num espaço bonito e optar por não destruir o que resta -resta sempre algo.
E nisto só uma coisa me aflige, já que falamos de Amor, além da minha idade que me repugna, à qual deposito parte das culpas, e não devia, que é a sensação de estar a perder dias e provavelmente anos. Dias e provavelmente anos sem ver crescer - crescemos a vida toda, mudamos, evoluímos - sentir que perco sinais nas costas, sorrisos, vitórias, um rosto que se vai modificando.  E já não temo as minhas mortes. Não me aflige fumar mais ou menos, correr riscos. A minha esperança média de vida é o amor que guardo dentro.  Não almejo viver muitos anos mas apenas quantos esteja o meu amor pelo mundo a Ser. E como diz Brel, que seja eu uma mera espectadora se a vida entender que eu não mereço perdão. Seja. Sem ela no peito, sou sem jeito, vagabunda, sem vida, 24h/dia todos os dias. Mas enquanto habita em mim e eu deixo de tentar abortar esse sentimento tão meu e tão intrínseco, sou feliz a maior parte do tempo. Tenho vontades, apetite, sou forte e sou capaz. Vou atrás. Quero viver. Depois há um dia de luto, um dia em que o morar no peito não chega e queremos o aconchego dos braços. Poder acariciar a pele, ver acordar e ver dormir. Ouvir respirar. Rir - E depois dormimos e passa.
Chamem-me louca -  A loucura é o refúgio mais bonito. Amar é bonito. Não tenho nada a perder. Amanhã é dia de voltar a lutar por todos os sonhos, ser maior e melhor. Evoluir, crescer, amadurecer.
E se a vida não trouxer o meu amor de volta? Fui feliz. Não há nada errado na espera - se não esperamos sentados, inúteis, e desistimos de nós.
É porque O meu Amor existe, que eu não desisto de mim.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vai ser sempre assim

[A todos os que amam pelos dois]

Às vezes nos dias mais difíceis tememos que estes se repitam por muitos mais, ao contrário do que desejamos às pessoas nos aniversários. Nestes dias parece que voltamos à estaca zero, que deixámos voar todo o trabalho de casa emocional que andámos a fazer até aqui quando já estava tudo tão bem encaminhado. Ainda ontem aprendemos acordes novos na guitarra; ainda ontem compusemos qualquer coisa de novo; ainda ontem fomos ver uma exposição; ao cinema; jantar fora; planeámos o próximo passo e não nos incomodou estar a sós em casa. Caramba, somos todos tão frágeis. Este mundo é tão injusto. Somos todos tão injustos. Eu quero falar das minhas dores mas também eu já magoei os outros. Aí calo-me a boca mas não é por isso que deixa de doer. Como é que se cura esta culpa? Repito-me em todos os textos. Como é que eu limpo esta culpa de dentro de mim?

Nos dias mais difíceis questiono, como todos nós em dias mais difíceis, como é que vamos seguir. Como é que a vida vai continuar a ser assim, a ter estes dias tão difíceis. Se desculpas não bastam então o que é que basta? Se silêncio não basta então o que é que basta? Se não prender não basta então o que é que basta? O que é que vai bastar? Que saída temos? Sermos nós mesmos e continuarmos aqui, rezando a todos os santinhos para que as nossas almas estejam a comunicar que se está aqui e que vai ser sempre assim, até o coração se abrir de novo? Evoluir, mudar, crescer, amadurecer e rezar novamente a todos os santinhos para que as almas estejam a comunicar que isto está a acontecer e que é melhor vir ver daqui a um ano ou dois?

Neste momento, expelindo aos poucos a nuvem negra cheia de chuva que se apoderou de mim, prestes a tempestear, voltarei a falar como já fiz noutros textos, no “amar pelos dois” de Salvador Sobral e porque é que se ama pelos dois. Eu respondo. Ama-se pelos dois porque, tão simplesmente, não dá para desamar. 

Ama-se pelos dois quando existe aquela pessoa com quem se vai casar ainda que nunca casemos com ela porque, se casarmos, será com ela. E se não for com ela, esse plano é descabido e não vai acontecer. Ama-se pelos dois quando existe essa pessoa por quem sabemos que damos a vida e doamos sem pensar uma vez um órgão do nosso corpo se preciso for. Ama-se pelos dois quando nos pedem silêncio  e era tão mais fácil mandar declarações diárias, falar de todas as vezes que bate aquela saudade de querer contar o que vimos, vivemos, observámos e aconteceu, chamar de volta, fazer birra, ouvir a voz. Amar pelos dois é vencer egoísmos e dar espaço mesmo que a nós nos tire espaço na caixa torácica para respirar e nos deixe em pedacinhos aí pelo mundo, e então engolimos em seco e silenciamos sem prazo correndo o risco de ser para a vida toda. Amar pelos dois é não admitir que ninguém fale mal do nosso amor depois que ele termine fisicamente. É não fomentar relações que o denigram. É não perder os vínculos com pessoas comuns. É continuar e evoluir sozinho na incerteza de que isso alguma vez será partilhado, ao invés de estagnar. É pertencer sem corpo. Ser fiel na alma. Desejar o melhor. [Voa, pássaro contente. Segue o teu caminho.]

Desculpas não bastam mas talvez um dia tudo isto baste. Talvez daqui a muitos anos. Talvez daqui a um ano. Talvez daqui a três. Talvez renasça uma amizade. E entretanto amamos pelos dois e talvez, talvez a vida nos desculpe, nos perdoe, nos mime. 

Se calhar vai ser sempre assim.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Edite


É sempre à mesma hora da madrugada que ela se despe toda e começa a partir tudo dentro de casa. O médico de Edite contou-lhe que é pior ter baixa que alta. Ela não ganha um tostão em acolhê-la, mas a coitada não tem quem cuide dela. Nem os filhos a visitam. Está só no mundo. A sua mãe chamou-a de Edite em homenagem a Piaf que lançava o seu primeiro êxito um ano antes de Edite nascer. Tiveram ambas um destino digno dos grandes artistas: trágico. 
Edite acabou por acolher também, durante sete anos,a vizinha de cima com quem não se dava, mas a senhora teve um AVC e ficou incapacitada. Edite cuida de todos os que ficam por aqui abandonados, isto inclui também o cão Barnabé e o Gato Matias. O marido deixou-a cedo, com três filhas para criar. Conheceu-o numa festa da aldeia enquanto ambos observavam a marcha e timidamente deram as mãos. Manuel era alto, usava bigode, tinha uns olhos marcantes bem como a sua postura. Assim que entrava em qualquer lado todos os olhos eram postos nele. Era um pingamor como os que vemos nos filmes e perdemos-lhe a conta às mulheres. Mas só casou com Edite. Deixou-a quatro anos depois de casados, três de namoro, todos bem atribulados. Sempre teve as suas amantes mas não deixava Edite. Até que deixou.
Edite cantava só à janela. Não teve a mesma sorte (traiçoeira) de Piaf mas sempre encantou os que passavam. Ia a Alfama todas as sextas feiras ouvir os fados. Chorava rios pelo marido que lhe desaparecera sem rasto, fugido para o sul de França. Seria de esperar. Assim que o prendessem ele não se ia aguentar por muito tempo e “muito tempo aguentou ele”, dizem as más-línguas. Nunca mais ninguém o viu. Nunca mais ele voltou. Era um homem de vícios e, em certo modo, também o era Edite. O seu vício era Manuel.
É sempre à mesma hora da madrugada e ela balbucia palavras soltas ligadas ao seu passado, sem nexo. Ou com o nexo dela. Edite questiona-se às vezes se só nos tornamos realmente lúcidos no ponto em que enlouquecemos, ou nos instantes que antecedem a nossa morte. Se só podemos ver com clareza quando rebentamos os fusíveis inúteis que iluminam sensos discutivelmente bons. Edite enlouqueceu por amor uma vez só e recorda-se bem: Caiu no chão e achou que ia morrer. Ali ficou até Isaltina a encontrar deitada, de pele rija de tanta lágrima salgada escorrida, olhos baços sem vida embora o coração batesse, e o corpo mais pesado que nunca. Foi a partir daí que Edite se sentiu a envelhecer. Tinha apenas 35 anos. As filhas notaram-lhe a tristeza nos olhos, independentemente das vezes que sorrisse a elas e lhes dissesse que aguentava bem o barco sozinha. Nunca chorava em frente a elas. No dia em que Manuel a deixou, as meninas estavam de férias com os avós na terra. Nunca mais viram o pai.
Edite gostava de pequenos detalhes, como uma bonita caligrafia ou o barulho do vento em noites silenciosas de janela aberta e nunca sentia frio. Era uma mulher quente.Às três da tarde bebia a sua amêndoa amarga na praça das flores e observava a juventude tão diferente dos seus dias.Mas não se queixa desta. Pelo contrário, “acha muito bem à evolução das coisas”, como costuma dizer. Edite espera o marido à janela como se ele tivesse só ido trabalhar de manhã. Todos os dias. 
Avó, porque dormes tu no sofá? 
Porque a cama é demasiado grande só para mim. Edite fez a cama quando Manuel se foi, de lavado, e nunca mais a desfez. Nunca mais lá se deitou. Um luto que dura há anos mas Edite é uma mulher que aprendeu a ser feliz.
Porque é que não voltaste a casar, como a mamã? 
Porque não voltei a amar outro homem. 
Ainda o amas avó? 
Sim.
É sempre à mesma hora da madrugada mas naquela a velhota não se mexeu. Não partiu tudo em seu redor. Pelo contrário, naquela noite, começou a arrumar tudo freneticamente. Diziam por lá que de enlouquecida tinha ganho poderes de vidente. Falou a noite toda “ele está a chegar, deixemos a casa pronta. Faça o comer Edite”. 
-Ele quem? 
Ele está a chegar. Faça o comer Edite. 
- Estás louca mulher. Vai dormir que é tarde. 
Ele está a chegar. 
Edite deixou de lhe prestar atenção. Nessa noite não teve que a trancar no quarto como era obrigada a fazer por esta lhe começar a partir tudo quanto via pela frente. Conseguiu dormir cinco horas o que para Edite era já uma noite bem dormida. 
No dia seguinte, de manhã, parecia verão. Estava sol, as crianças brincavam na rua. Um senhor consertava para a filha um berço de madeira. Os cães à solta lutavam por um pedaço de carne, e eu observava as vidas e fumava o meu cigarro sentada no degrau. As pessoas cumprimentavam-se. Subiam e desciam. A vida passava de sacos na mão, bengalas, mochilas, trelas, crianças de colo. Gritava-se e jogava-se à macaca. Até que, de repente, fez-se silêncio. Eu nem dei por nada até que dei. Até que percebi que já não se ouvia nada. Nem os pássaros. Nem sequer o serrote contra o berço de madeira. Nem tão pouco os cães, que até mesmo estes pareciamrespeitar tal figura estranha ao bairro que subia a rua e se aproximava devagarinho de todos nós e impunha um respeito, um silêncio, uma atenção de todos, um espanto comum, um choque geral, qualquer coisa que também a mim me contagiou e me deixou, assim, atenta, de cigarro na mão a apagar-se sozinho. “Manuel” murmurou o senhorde serrote na mão, ao vento. Nisto sai edite de casa pronta para ir ao café, como se nada fosse, como se nada se passasse, como se o mundo não estivesse todo parado a contemplar a chegada daquele fantasma do tempo. 
- Edite. 
Olharam-se, ela parou. E agora estávamos todos naquela rua parados. Agora tudo estava religiosamente em silêncio. Não se ouvia um ai que fosse. Eu achei que o mundo fosse parar para sempre. Que fosse aquilo o fim de uma história e agora ficávamos todos assim em pausa. Havia uma tensão no ar. Aqueles dois corpos explodiam energias um contra o outro e no entanto silêncio. Nem uma palavra. Nem um sorriso. Nem um pestanejar. Nem uma expressão no rosto. Ninguém se atrevia a mexer. Pensei que não íamos nunca sair daquele instante de tempo. Que ficássemos colados ao chão. Depois pensei que naturalmente Edite lhe fosse cair nos braços e chorar por todos os anos que conteve as lágrimas, depreendi entretanto que se tratava de Manuel, o ex Maridodesaparecido, fugido. Depois comecei a desconfiar que o ia agredir com todas as forças que tinha e não tinha, com a mala pesada que tinha na mão e cada anel que tinha nos dedos, vincar-lhe as unhas na pele e acabar-lhe com a espécie e nisto, com uma expressão morta, tão vazia, tão perdida de sonhos, Edite sem desviar o olhar diz:
- É tarde demais. – e seguiu para o café, à hora do costume, como fazia sempre, em passo vagaroso, tranquila.
A rua continuou, com alguma dificuldade, gradualmente, à rotina de antes. Sem saber bem como reagir, sem saber bem se ir atrás de Manuel se atrás de Edite, se juntar os dois se deixá-los a sós. Manuel virou costas. Mais tarde avistei Edite regressar a casa do café. Não voltei a ver Manuel. Também não voltei a ver Edite. 

No dia seguinte, ela não acordou.

sábado, 30 de setembro de 2017

A Viagem

- Aqui está.
- Desculpe? -  perguntei, indignada e confusa.
- Estava a falar da sua ex-mulher.
- Não lhe falava de coisa nenhuma!
- A senhora estava a falar enquanto dormia.
- E que dizia eu? 
- Não consegui entender, mas posso senti-la aqui nos seus ombros. Era dela que falava, pude perceber. Está muito tensa...
Os meus ombros estalavam a cada passagem dos seus dedos e desde que tomei consciência de que eras tu que ali te encontravas alojada, debaixo da minha pele, gradualmente eles enrijavam pelo desconforto de te saber tão mal instalada. Achei que fosse virar pedra.
- Consegue tirá-la daí?
- Não sou exorcista.
- Não posso viver com esse peso. O que me aconselha?
- Desculpe a indiscrição, era um grande amor?
- É.  
Depois de 50 minutos de massagem as minhas costas não estavam totalmente recuperadas. Carrego um constante sentimento de culpa dentro de mim, sou assim desde criança. Esqueci o teu casaco em casa e não o devolvi. Estava escondido junto com os meus. Massacro-me em considerações; terá sido inconscientemente propositado para te manter perto? Eu realmente nunca mais me lembrei do casaco até há dias olhar para aquele canto da casa e reparar que ele estava ali. Tirei-o com muito cuidado como se pegasse em ti. Abracei-o junto a mim, procurei-te nele. Não estavas lá. Nem tu nem o teu cheiro. Dobrei-o e guardei-o. Respirei fundo e voltei à rotina.
- E o que deixou ela consigo?
- Sabe… - comecei, saltando a pergunta, enquanto ela, de pé não muito longe de mim, me escutava em silêncio  - sabe eu pensei que desta vez que, naturalmente, como tudo acaba, não acaba? … e, tendo eu me apaixonado por outra mulher, este destino fatal de lhe pertencer irremediavelmente na alma ia virar pó como tudo o que arde. Não posso falar por ela, não ousarei mais fazê-lo. Mas posso falar-lhe de mim. Em mim, por ela, tudo arde. Nada é pequeno ou de pouca intensidade. Quando a reencontrei, eu tinha um medo louco de usar as palavras. De me dar demasiado. De dar um passo maior que o seu coração. Foi acertado, fui deixada. Depois a vida lá nos reaproximou, outra vez, e eu decidi que ia viver intensamente sem olhar às consequências. Foi acertado também. Mas os tempos nunca eram os certos. Estávamos sempre em contratempos e distâncias. Se uma queria tentar algo sério a outra estava só de passagem. As coisas não eram fáceis, as circunstâncias não eram as melhores. Eu fazia as crises próprias da idade, de uma relação à distância, incerta, sem tecto. Duas pessoas a recomeçar a vida. A idade faz diferença quando estamos em inícios de carreira e construção de identidades. Quando estamos no começo de tudo. Quando ainda não nos estabilizámos. Quando optamos por recomeçar a vida do zero. E quando o tempo poderia começar, talvez, a fazer mais sentido, e as condições pareciam melhorar, apaixono-me por outra mulher.
- Vire-se de frente. Caiu?
- De joelhos.
- Grandes nódoas negras… 
- Precisamente. 
Fez-se um silêncio mútuo. Aproximou-se dos meus joelhos e gentilmente massajou as minhas nódoas negras, fazendo movimentos circulares com a ponta dos dedos.
- Estou constantemente a tropeçar e a bater em todo o lado. – recomeço, enquanto observo o tecto imaculadamente branco, contrário à minha pele morena, fria e ferida, repleta de nódoas negras - Será que podemos habitar para sempre em alguém que não faz de nós casa? Repare, eu deixei de precisar da presença dos outros. Essa necessidade de estar numa relação, de procurar um outro, de estar acompanhado. Prefiro-me só. Sou feliz comigo e não me quero dar a outro corpo ao qual não pertenço; sou eu a tentar fazer morada numa casa onde não tenho os meus pertences e não reconheço nada. O corpo e o cheiro é uma coisa que não se empresta, nem se vende, nem se dá quando é a alma que está no comando, quando é de amor que falamos. No entanto este ser-se só é falso; desde que os nossos corpos se uniram, e gradualmente, como as sementes crescem e brotam, ficou um pouco dela em mim. Portanto não sou só. Eu não ando por aí triste sem ela porque na realidade eu nunca a perdi. Ela está nas palavras e nos livros, no arranhar dos céus dos edifícios e os detalhes que se escondem da vista de todos nós, que caminhamos frequentemente cabisbaixos do cansaço do dia – esboço o primeiro sorriso do dia, recordo-me do seu caminhar - mas ela olha para cima, observa, interage, dança com as ruas. Eu não deixei de viver, tenho objectivos e planos, tenho vontades, tenho o que dela ficou em mim e o que tenho de mim que já era meu. Às vezes sinto-me errante por mesmo na distância e no silêncio fazer dela casa e pertencer-lhe sabendo que não é essa a sua vontade. Se pudesse escolher escolheria outro caminho. Quantas vezes tentei? Não é algo que escolhamos. Ensinou-me que estas coisas não se escolhem mas aos 20 aprendemos só com as nossas quedas e não com as quedas de quem já caiu uma vida inteira e sabe melhor que nós. Eu poderia ter aproveitado, visto a oportunidade de crescer ao lado dela mas se a vida nos facilitasse o caminho talvez não criássemos arte. Há caminhos que temos que fazer por nós próprios, há ensinamentos que só aprendemos quando somos deixados ao relento para experimentar o voo a sós, pelas nossas próprias asas. Ela deixou comigo as ferramentas e os ensinamentos, o carácter e as lembranças de quem sabe estar e ser e eu retenho isso na retina que olha o mundo hoje de forma diferente. Quando ela foi não deixou só a mala de viagem no canto da sala, ela deixou uma mala com uma viagem dentro de mim. Tenho vindo a abri-la aos poucos. Sabe, foi difícil ouvir tudo no fim. A mala que ela me deixou, dentro de mim, não é uma viagem passada, é a minha viagem para o futuro. 
- Você devia fazer análises. Está muito magra e pálida. Sinto-lhe os ossos. Quanto pesa?
- Agora? 47. – Disponho os braços ao longo do corpo caídos nas ancas cujos ossos visíveis os sustêm. 
- Não tem medo?
- Não. De quê? Cada vez menos, no geral. Já fiz análises. Não tenho nada. A minha ansiedade é outra. Sinto tédio e um aborrecimento imenso, tantas vezes. Ao mesmo tempo uma vontade de viver mais e assimilar tudo. Desencantei-me mas procuro encantos. Não amorosos, dentro de mim. Tenho uma lista de locais a visitar, livros a ler, teatros, museus, concertos e filmes. Quero escrever e compor. Tenho investido na compra de livros dos autores que gosto e procurado estudar a escrita. Não desisto de mim. Não tenho tempo para outros. Não tenho tempo nem paciência para outras mulheres que me sugam a energia como, sabe, eu estava despropositadamente a sugar a dela. Fiz tudo errado. Que desastre. Não me arrependo de nada excepto os últimos dias. Eu queria dar-lhe tanto e tudo o que tinha, e mostrar-lhe que tinha e podia porque achei que a maturidade partia também do ter além do ser mesmo quando ela me dizia «não compres tanto, vive!» que acabei por descurar do essencial e não soube dar e ver o que ela mais precisava. Às vezes só precisamos de um corpo quente em silêncio, sem fogo-de-artifício. 
- Relaxe os braços  – ajeito-me melhor – Assim. Está melhor.
- Paguei esta massagem para lhe estar a contar histórias. 
- Eu gosto de histórias. Às vezes parece que fala dela como alguém que lhe morreu, ao mesmo tempo parece que a tem aqui ao seu lado, de mão dada consigo.
- Sinto exatamente o mesmo. Às vezes ela parece-me tão distante e outros dias aqui mesmo diante de mim. Parece-me que nunca ninguém vai poder ser feliz a meu lado As mulheres que foram passando pela minha vida referem que se sentem constantemente comparadas. Eu não o verbalizo, sabe? Elas dizem que não é por palavras. Que se sente. Existe em mim uma insatisfação e um descontentamento, talvez genético, quem sabe.  Ela tem-me sempre. À minha alma. Conhece-me desde o começo. Onde começo. Sabe o que é e não é para mim. Sabia que … isto não era para mim. - Coloco as mãos à cabeça e de seguida aos olhos. Esfrego-os para limpar as lágrimas e borro a maquilhagem deixando a cara num tom avermelhado da pressão das mãos contra a pele salgada, manchada de preto. - Que fui eu fazer. 
- Chorar faz bem. Isto o quê?
- Apaixonar-me por outra mulher. Eu conto-lhe. Foi ali num pequeno intervalo, em que, sem procurar ninguém, sem querer amar, sozinha mas feliz, a estabilizar, me apaixono por outra pessoa. Pensei que só pudesse ter um significado especial. Que só pudesse fazer sentido depois de tanto tempo. Fiquei tão entusiasmada, tão empolgada com o sentimento novo. O facto de ter conseguido sentir uma emoção igualmente forte por outra pessoa, tão genuíno e despropositado, sabe? Tão perto de mim e tão presente. 
-Fogo-de-artifício.
- Isso. E veja agora os meus joelhos. E quando sou deixada livre para viver este sentimento, quando ela anteviu tudo antes de mim, como sempre vê, e se retira cansada, não necessariamente por essa razão mas…  - Desculpe, estou a gostar muito da conversa mas estamos a terminar, tenho uma outra cliente a seguir... se calhar vai apreciar ficar em silêncio a escutar a música enquanto eu termino agora os últimos dez minutos.- A verdade é que somos pouco ensinados a ficar em silêncio. A apreciá-lo e a reconhecer a sua importância. Ela deixou-me essa herança, também. Durante este tempo todo reclamei pequenos-almoços no quarto e presentes embrulhados em papel de cetim e fita mas sinto-me deixada com uma riqueza imensa daquilo que foi a sua passagem por mim. Oferecemos, deliberadamente, excesso de confiança nos contextos errados. Para que tenham o direito de opinar sobre nós. Decidir os nossos passos e a nossa vida. Para que tenham o direito de nos exigir telefonemas diários e esperar de nós o mesmo. Cobrar, esperar de volta. Mas depois desconfiamos dos que ficam em silêncio a ensinar-nos a importância do que é olhar para cima e estar calado na hora certa. Desconfiamos dos que praticam os gestos certos e cuidam sem fogo-de-artifício. Desconfiamos de presentes que não vêm embrulhados e são oferecidos com o toque, a presença, e até as palavras. Existe dentro de mim uma maior clarividência, como se ela tivesse partido e escancarado as portas de uma solarenga manhã de verão… e agora vou silenciar, sim, e escutar a música de fundo. Boa escolha. Gosto muito deste compositor.
             Ficámos dez minutos em silêncio em que aproveitei o que restava da minha sessão ao som de uma agradável faixa sonora. 
- Vamos ter de ficar hoje por aqui.
- Obrigada. 
Regressei para o carro num estado de levitação e paz. Ultimamente cuido mais de mim embora isso ainda não se note no peso que teima em não aumentar. Tirei um casaco quente da bagageira do carro, num dia que ainda se declarava de verão. Gosto de andar agasalhada mesmo nos dias quentes. Lembrei-me de ligar à tua mãe e saber como estava. Deu-me uma certa saudade depois de falar tanto em ti. O calor do carro que deixei estacionado ao sol e o entusiasmo da tua mãe pelo meu telefonema que a deixa sempre animada reaqueceu-me e segui de volta para casa já sem casaco e de janela aberta. Nessa manhã senti-me particularmente tranquila e feliz. Descobri que os problemas de costas não eram as costas, eras tu. Às vezes ainda te alojas onde não deves que é quando a saudade traz alguma nostalgia. Nos restantes dias vou-te avistando pelas ruas, a lembrar-me para olhar para cima, apreciar os silêncios e ser antes de ter. Foi isto que me deixaste.

Eu caminho comigo e levo-te em mim.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O filho pródigo não regressou a casa
































Quando terminou a minha relação eu senti-me obrigada a informar a família mais chegada que o nome ficava a partir daí proibido em qualquer circunstância. Por uma simples razão de, inicialmente, protecção da minha pessoa, e em segundo lugar, respeito pela outra pessoa.

Pude sentir, como previa, uma espécie de reacção à  filho pródigo que retorna a casa, como na passagem bíblica que é, por acaso, uma das minhas favoritas.

(Dois irmãos, um deles decide deixar a casa de família e afastar-se, viver uma vida de luxos e pecado, gastar o dinheiro todo da herança que lhe foi deixada, e regressa no fim, sem nada, arrependido, para os braços do pai, que o acolhe de volta e recebe em festa com um banquete porque o filho pecou, mas regressou em arrependimento.)

Tempos depois tive um familiar com quem aos dias de hoje não me compatibilizo que fez anos e eu não dei os parabéns. Não comecei a visitá-los mais. Não os procurei como das outras vezes. Continuei a faltar às festas e aos jantares por indisponibilidade ou alguma falta de vontade. Rapidamente as pessoas se aperceberamque o meu afastamento não estava mais preso à minha relação amorosa e se tinha individualizado. 

No outro dia diziam-me que o corpo tem memórias. E eu acrescento que a alma também as tem. Para o bem e para o mal.

Independentemente de ter ou não ter tido relações amorosas tóxicas e/ou abusivas, por culpa minha, de ambas as partes ou apenas de uma, ou por sermos apenas pessoas destruídas pelos meios familiares respectivos, não tenho dúvidas que a minha relação familiar, essencialmente com a minha mãe, é tóxica. Se calhar é-me impossível deixar de a amar, por ser minha mãe. Com certeza ela não planeou intencionalmente ser tóxica, mas é. Se calhar ela genuinamente queria que as coisas fossem diferentes, mas  situações irreversíveis.  Personalidades que chocam. Padrões que se agravam com os anos. 

As rupturas não só são parte da vida como são essenciais e devemos vê-las assim como devemos encarar as mortes com naturalidade – Eu lido mal com ambas. Às vezes não são apenas consequência de, inevitáveis, mas imprescindíveis. Precisas.

Às vezes é necessário o silêncio e a ruptura – não temporária, definitiva. Seguir realmente em frente, o deixar realmente ir e procurar outro caminho, literalmente seguir a outra estrada, deixar para trás - para podermos evoluir, amadurecer, olhar com outros olhos.

Às vezes a estrada em que estamos, por culpa de ninguém, é uma estrada sem fim que já não nos leva a lado nenhum e andamos em círculos já sem qualquer direcção – já não se vê senão o mesmo caminho, a mesma vegetação, as mesmas pessoas, e tudo é igual a si mesmo.


Às vezes o ser tóxico não vem só dos outros mas vem da união dos outros connosco: Às vezes quando somos egoístas e nos afastamos da zona de conflito não estamos a ser assim tão egoístas porque ao nos protegermos a nós protegemos os outros, do conflito e da desordem. Do mau estar. De umas férias estragadas e de um sentimento mútuo de arrependimento.

Às vezes não deixámos de ser criativos – Mas já não dá.

Às vezes não deixámos de ser românticos – Mas já não dá.

Às vezes nenhum de nós é má pessoa – Mas já não dá.

Às vezes temos a capacidade de amar no abstracto – Mas já não dá.

Às vezes não é que não sejamos fortes – Mas já não dá.

Às vezes não somos assim tão imaturos – Mas já não dá.

Às vezes simplesmente já não dá e o mais acertado, saudável, ajustado, sensato, maduro, honesto, amigo, é compreender que já não dá.

E isto vale para todas as relações que preenchem a nossa vida ou nos esvaziam dela  – amorosas, ou não.