[A todos os que amam pelos dois]
Às vezes nos dias mais difíceis tememos que estes se repitam por muitos mais, ao contrário do que desejamos às pessoas nos aniversários. Nestes dias parece que voltamos à estaca zero, que deixámos voar todo o trabalho de casa emocional que andámos a fazer até aqui quando já estava tudo tão bem encaminhado. Ainda ontem aprendemos acordes novos na guitarra; ainda ontem compusemos qualquer coisa de novo; ainda ontem fomos ver uma exposição; ao cinema; jantar fora; planeámos o próximo passo e não nos incomodou estar a sós em casa. Caramba, somos todos tão frágeis. Este mundo é tão injusto. Somos todos tão injustos. Eu quero falar das minhas dores mas também eu já magoei os outros. Aí calo-me a boca mas não é por isso que deixa de doer. Como é que se cura esta culpa? Repito-me em todos os textos. Como é que eu limpo esta culpa de dentro de mim?
Nos dias mais difíceis questiono, como todos nós em dias mais difíceis, como é que vamos seguir. Como é que a vida vai continuar a ser assim, a ter estes dias tão difíceis. Se desculpas não bastam então o que é que basta? Se silêncio não basta então o que é que basta? Se não prender não basta então o que é que basta? O que é que vai bastar? Que saída temos? Sermos nós mesmos e continuarmos aqui, rezando a todos os santinhos para que as nossas almas estejam a comunicar que se está aqui e que vai ser sempre assim, até o coração se abrir de novo? Evoluir, mudar, crescer, amadurecer e rezar novamente a todos os santinhos para que as almas estejam a comunicar que isto está a acontecer e que é melhor vir ver daqui a um ano ou dois?
Neste momento, expelindo aos poucos a nuvem negra cheia de chuva que se apoderou de mim, prestes a tempestear, voltarei a falar como já fiz noutros textos, no “amar pelos dois” de Salvador Sobral e porque é que se ama pelos dois. Eu respondo. Ama-se pelos dois porque, tão simplesmente, não dá para desamar.
Ama-se pelos dois quando existe aquela pessoa com quem se vai casar ainda que nunca casemos com ela porque, se casarmos, será com ela. E se não for com ela, esse plano é descabido e não vai acontecer. Ama-se pelos dois quando existe essa pessoa por quem sabemos que damos a vida e doamos sem pensar uma vez um órgão do nosso corpo se preciso for. Ama-se pelos dois quando nos pedem silêncio e era tão mais fácil mandar declarações diárias, falar de todas as vezes que bate aquela saudade de querer contar o que vimos, vivemos, observámos e aconteceu, chamar de volta, fazer birra, ouvir a voz. Amar pelos dois é vencer egoísmos e dar espaço mesmo que a nós nos tire espaço na caixa torácica para respirar e nos deixe em pedacinhos aí pelo mundo, e então engolimos em seco e silenciamos sem prazo correndo o risco de ser para a vida toda. Amar pelos dois é não admitir que ninguém fale mal do nosso amor depois que ele termine fisicamente. É não fomentar relações que o denigram. É não perder os vínculos com pessoas comuns. É continuar e evoluir sozinho na incerteza de que isso alguma vez será partilhado, ao invés de estagnar. É pertencer sem corpo. Ser fiel na alma. Desejar o melhor. [Voa, pássaro contente. Segue o teu caminho.]
Desculpas não bastam mas talvez um dia tudo isto baste. Talvez daqui a muitos anos. Talvez daqui a um ano. Talvez daqui a três. Talvez renasça uma amizade. E entretanto amamos pelos dois e talvez, talvez a vida nos desculpe, nos perdoe, nos mime.
Se calhar vai ser sempre assim.

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