Quando terminou a minha relação eu senti-me obrigada a informar a família mais chegada que o nome ficava a partir daí proibido em qualquer circunstância. Por uma simples razão de, inicialmente, protecção da minha pessoa, e em segundo lugar, respeito pela outra pessoa.
Pude sentir, como previa, uma espécie de reacção à ” filho pródigo que retorna a casa”, como na passagem bíblica que é, por acaso, uma das minhas favoritas.
(Dois irmãos, um deles decide deixar a casa de família e afastar-se, viver uma vida de luxos e pecado, gastar o dinheiro todo da herança que lhe foi deixada, e regressa no fim, sem nada, arrependido, para os braços do pai, que o acolhe de volta e o recebe em festa com um banquete porque o filho pecou, mas regressou em arrependimento.)
Tempos depois tive um familiar com quem aos dias de hoje não me compatibilizo que fez anos e eu não dei os parabéns. Não comecei a visitá-los mais. Não os procurei como das outras vezes. Continuei a faltar às festas e aos jantares por indisponibilidade ou alguma falta de vontade. Rapidamente as pessoas se aperceberamque o meu afastamento não estava mais preso à minha relação amorosa e se tinha individualizado.
No outro dia diziam-me que o corpo tem memórias. E eu acrescento que a alma também as tem. Para o bem e para o mal.
Independentemente de ter ou não ter tido relações amorosas tóxicas e/ou abusivas, por culpa minha, de ambas as partes ou apenas de uma, ou por sermos apenas pessoas destruídas pelos meios familiares respectivos, não tenho dúvidas que a minha relação familiar, essencialmente com a minha mãe, é tóxica. Se calhar é-me impossível deixar de a amar, por ser minha mãe. Com certeza ela não planeou intencionalmente ser tóxica, mas é. Se calhar ela genuinamente queria que as coisas fossem diferentes, mas há situações irreversíveis. Personalidades que chocam. Padrões que se agravam com os anos.
As rupturas não só são parte da vida como são essenciais e devemos vê-las assim como devemos encarar as mortes com naturalidade – Eu lido mal com ambas. Às vezes não são apenas consequência de, inevitáveis, mas imprescindíveis. Precisas.
Às vezes é necessário o silêncio e a ruptura – não temporária, definitiva. Seguir realmente em frente, o deixar realmente ir e procurar outro caminho, literalmente seguir a outra estrada, deixar para trás - para podermos evoluir, amadurecer, olhar com outros olhos.
Às vezes a estrada em que estamos, por culpa de ninguém, é uma estrada sem fim que já não nos leva a lado nenhum e andamos em círculos já sem qualquer direcção – já não se vê senão o mesmo caminho, a mesma vegetação, as mesmas pessoas, e tudo é igual a si mesmo.
Às vezes o ser tóxico não vem só dos outros mas vem da união dos outros connosco: Às vezes quando somos egoístas e nos afastamos da zona de conflito não estamos a ser assim tão egoístas porque ao nos protegermos a nós protegemos os outros, do conflito e da desordem. Do mau estar. De umas férias estragadas e de um sentimento mútuo de arrependimento.
Às vezes não deixámos de ser criativos – Mas já não dá.
Às vezes não deixámos de ser românticos – Mas já não dá.
Às vezes nenhum de nós é má pessoa – Mas já não dá.
Às vezes temos a capacidade de amar no abstracto – Mas já não dá.
Às vezes não é que não sejamos fortes – Mas já não dá.
Às vezes não somos assim tão imaturos – Mas já não dá.
Às vezes simplesmente já não dá e o mais acertado, saudável, ajustado, sensato, maduro, honesto, amigo, é compreender que já não dá.
E isto vale para todas as relações que preenchem a nossa vida ou nos esvaziam dela – amorosas, ou não.
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