É sempre à mesma hora da madrugada que ela se despe toda e começa a partir tudo dentro de casa. O médico de Edite contou-lhe que é pior ter baixa que alta. Ela não ganha um tostão em acolhê-la, mas a coitada não tem quem cuide dela. Nem os filhos a visitam. Está só no mundo. A sua mãe chamou-a de Edite em homenagem a Piaf que lançava o seu primeiro êxito um ano antes de Edite nascer. Tiveram ambas um destino digno dos grandes artistas: trágico.
Edite acabou por acolher também, durante sete anos,a vizinha de cima com quem não se dava, mas a senhora teve um AVC e ficou incapacitada. Edite cuida de todos os que ficam por aqui abandonados, isto inclui também o cão Barnabé e o Gato Matias. O marido deixou-a cedo, com três filhas para criar. Conheceu-o numa festa da aldeia enquanto ambos observavam a marcha e timidamente deram as mãos. Manuel era alto, usava bigode, tinha uns olhos marcantes bem como a sua postura. Assim que entrava em qualquer lado todos os olhos eram postos nele. Era um pingamor como os que vemos nos filmes e perdemos-lhe a conta às mulheres. Mas só casou com Edite. Deixou-a quatro anos depois de casados, três de namoro, todos bem atribulados. Sempre teve as suas amantes mas não deixava Edite. Até que deixou.
Edite cantava só à janela. Não teve a mesma sorte (traiçoeira) de Piaf mas sempre encantou os que passavam. Ia a Alfama todas as sextas feiras ouvir os fados. Chorava rios pelo marido que lhe desaparecera sem rasto, fugido para o sul de França. Seria de esperar. Assim que o prendessem ele não se ia aguentar por muito tempo e “muito tempo aguentou ele”, dizem as más-línguas. Nunca mais ninguém o viu. Nunca mais ele voltou. Era um homem de vícios e, em certo modo, também o era Edite. O seu vício era Manuel.
É sempre à mesma hora da madrugada e ela balbucia palavras soltas ligadas ao seu passado, sem nexo. Ou com o nexo dela. Edite questiona-se às vezes se só nos tornamos realmente lúcidos no ponto em que enlouquecemos, ou nos instantes que antecedem a nossa morte. Se só podemos ver com clareza quando rebentamos os fusíveis inúteis que iluminam sensos discutivelmente bons. Edite enlouqueceu por amor uma vez só e recorda-se bem: Caiu no chão e achou que ia morrer. Ali ficou até Isaltina a encontrar deitada, de pele rija de tanta lágrima salgada escorrida, olhos baços sem vida embora o coração batesse, e o corpo mais pesado que nunca. Foi a partir daí que Edite se sentiu a envelhecer. Tinha apenas 35 anos. As filhas notaram-lhe a tristeza nos olhos, independentemente das vezes que sorrisse a elas e lhes dissesse que aguentava bem o barco sozinha. Nunca chorava em frente a elas. No dia em que Manuel a deixou, as meninas estavam de férias com os avós na terra. Nunca mais viram o pai.
Edite gostava de pequenos detalhes, como uma bonita caligrafia ou o barulho do vento em noites silenciosas de janela aberta e nunca sentia frio. Era uma mulher quente.Às três da tarde bebia a sua amêndoa amarga na praça das flores e observava a juventude tão diferente dos seus dias.Mas não se queixa desta. Pelo contrário, “acha muito bem à evolução das coisas”, como costuma dizer. Edite espera o marido à janela como se ele tivesse só ido trabalhar de manhã. Todos os dias.
- Avó, porque dormes tu no sofá?
- Porque a cama é demasiado grande só para mim. - Edite fez a cama quando Manuel se foi, de lavado, e nunca mais a desfez. Nunca mais lá se deitou. Um luto que dura há anos mas Edite é uma mulher que aprendeu a ser feliz.
- Porque é que não voltaste a casar, como a mamã?
- Porque não voltei a amar outro homem.
- Ainda o amas avó?
- Sim.
É sempre à mesma hora da madrugada mas naquela a velhota não se mexeu. Não partiu tudo em seu redor. Pelo contrário, naquela noite, começou a arrumar tudo freneticamente. Diziam por lá que de enlouquecida tinha ganho poderes de vidente. Falou a noite toda “ele está a chegar, deixemos a casa pronta. Faça o comer Edite”.
-Ele quem?
- Ele está a chegar. Faça o comer Edite.
- Estás louca mulher. Vai dormir que é tarde.
- Ele está a chegar.
Edite deixou de lhe prestar atenção. Nessa noite não teve que a trancar no quarto como era obrigada a fazer por esta lhe começar a partir tudo quanto via pela frente. Conseguiu dormir cinco horas o que para Edite era já uma noite bem dormida.
No dia seguinte, de manhã, parecia verão. Estava sol, as crianças brincavam na rua. Um senhor consertava para a filha um berço de madeira. Os cães à solta lutavam por um pedaço de carne, e eu observava as vidas e fumava o meu cigarro sentada no degrau. As pessoas cumprimentavam-se. Subiam e desciam. A vida passava de sacos na mão, bengalas, mochilas, trelas, crianças de colo. Gritava-se e jogava-se à macaca. Até que, de repente, fez-se silêncio. Eu nem dei por nada até que dei. Até que percebi que já não se ouvia nada. Nem os pássaros. Nem sequer o serrote contra o berço de madeira. Nem tão pouco os cães, que até mesmo estes pareciamrespeitar tal figura estranha ao bairro que subia a rua e se aproximava devagarinho de todos nós e impunha um respeito, um silêncio, uma atenção de todos, um espanto comum, um choque geral, qualquer coisa que também a mim me contagiou e me deixou, assim, atenta, de cigarro na mão a apagar-se sozinho. “Manuel” murmurou o senhorde serrote na mão, ao vento. Nisto sai edite de casa pronta para ir ao café, como se nada fosse, como se nada se passasse, como se o mundo não estivesse todo parado a contemplar a chegada daquele fantasma do tempo.
- Edite.
Olharam-se, ela parou. E agora estávamos todos naquela rua parados. Agora tudo estava religiosamente em silêncio. Não se ouvia um ai que fosse. Eu achei que o mundo fosse parar para sempre. Que fosse aquilo o fim de uma história e agora ficávamos todos assim em pausa. Havia uma tensão no ar. Aqueles dois corpos explodiam energias um contra o outro e no entanto silêncio. Nem uma palavra. Nem um sorriso. Nem um pestanejar. Nem uma expressão no rosto. Ninguém se atrevia a mexer. Pensei que não íamos nunca sair daquele instante de tempo. Que ficássemos colados ao chão. Depois pensei que naturalmente Edite lhe fosse cair nos braços e chorar por todos os anos que conteve as lágrimas, depreendi entretanto que se tratava de Manuel, o ex Maridodesaparecido, fugido. Depois comecei a desconfiar que o ia agredir com todas as forças que tinha e não tinha, com a mala pesada que tinha na mão e cada anel que tinha nos dedos, vincar-lhe as unhas na pele e acabar-lhe com a espécie e nisto, com uma expressão morta, tão vazia, tão perdida de sonhos, Edite sem desviar o olhar diz:
- É tarde demais. – e seguiu para o café, à hora do costume, como fazia sempre, em passo vagaroso, tranquila.
A rua continuou, com alguma dificuldade, gradualmente, à rotina de antes. Sem saber bem como reagir, sem saber bem se ir atrás de Manuel se atrás de Edite, se juntar os dois se deixá-los a sós. Manuel virou costas. Mais tarde avistei Edite regressar a casa do café. Não voltei a ver Manuel. Também não voltei a ver Edite.

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