segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Um abraço

Existe uma pessoa na minha família que me marcou muito. O meu tio João. Crescido no Brasil, médico ginecologista como o meu pai e artista de tempos livres.

Poderíamos pensar à partida que a medicina, uma ciência, não se cruza com a arte, mas ele soube combiná-las muito bem ao longo da sua vida. Podia tê-lo sido a tempo inteiro porque ele era muito dotado. Praticava todas as manhãs religiosamente na guitarra e ao piano, lia pautas como ninguém e estudava muito. Era um apaixonado pelos grandes e cresci com ele e com a minha tia (eram os tios mais próximos ) a ouvir Bethânia, Elis Regina, Vinícius de Morais, Gal Costa, Caetano, Chico Buarque.

Além da música o meu tio era um poliglota autodidacta. Ele estudava as línguas e estudou-as até à sua morte. Sabia um montão delas e ia-me ensinando algumas palavras. De japonês, Chinês, Alemão, Inglês, Francês, Norueguês…

Na altura em que me lembro dele já ele era reformado. Tenho muita pena de não ter podido viver mais dele e mais cedo. O meu tio nunca me tratou como uma criança. Eu aprendia com ele como os crescidos. Era resmungão, mimado e comodista, mas tinha um coração gigante e emocionava-se muito. Lembro-me de o ver chorar uma dezena de vezes. Há dois anos atrás morreu a minha avó, e ele disse que o próximo era ele – estava certo. Um ano depois faleceu. Ambos artistas. Ficam os comuns mortais e fico eu sozinha no meio de pessoas que me incompreendem. Talvez por isso tenham sido tão marcante as suas mortes porque eram eles que traziam vida às salas de estar.

O meu tio tocava romance de amor todas-as-manhãs à guitarra e de seguida ia praticar o piano. O meu quarto, que era ao lado do piano no tempo em que morei com eles ou quando lá ia dormir amanhecia ao som do piano, Chopin ou Bach maioritariamente, e acordava eu sem problema nenhum a ouvir as canções ao piano que aos quatro anos já eu tocava de ouvido ao lado dele. Tenho a certeza absoluta que as minhas influências musicais, os géneros que mais me são, Jazz, Bossanova, MPB, a nostalgia que inexplicavelmente me traz o povo brasileiro e muitos dos meus conhecimentos vêm, provêm, desse tempo da minha relativamente curta história que é a minha vida.

Os livros de piano, o piano, e a guitarra, ainda estão no mesmo lugar. Está tudo como ele deixou. Na escrevaninha todos os livros de línguas com os quais ele praticava, também diariamente, os mais diversos idiomas. Quando lá vou à casa que me é tão querida, entro no quarto dele e fico um bocadinho a olhar. Parece que ele ainda lá está. Parece que o quarto ainda é dele.

A minha tia e o meu tio têm vinte anos de diferença e não é a primeira vez que vos falo deles. Ela perdeu o marido muito nova e o meu tio era um dos melhores amigos dele, embora mais velho que ambos. Sempre os olhei com alguma admiração e sempre apreciei a relação deles, o que não era unânime.

Nunca me incomodou a sua diferença de idades, nunca estranhei enquanto criança o facto do meu tio ser notoriamente tão mais velho. A relação deles sobrevivia pelos gostos em comum na música e nos idiomas. Falavam em inglês e Alemão juntos já que a minha tia é também fluente nestes dois idiomas e às vezes em francês. Eu ia absorvendo tudo como tão bem fazem as crianças. Eram um casal muito educado e culto embora o meu tio contasse frequentemente umas piadas mais arrojadas que ela não gostava. Sempre tinha piadas para contar e tinha muito sentido de humor. Eu ria do que entendia e do que não entendia. Ele dava-me álcool e café (em doses muito pequenas) a experimentar às escondidas dela.

Nem sempre achei que entre eles houvesse amor, o amor romântico de fogo-de-artifício, mas havia uma grande cumplicidade, amizade, respeito. Talvez a ida para os Açores me tenha sido tão amarga porque perdi tudo isto. Tenho memórias de infância, em Lisboa, com os meus tios e mesmo com os meus pais, tão bonitas que me marcam profundamente até aos dias de hoje. 

Quando me mudo para os Açores, enquanto criança, houve um sentimento de perda enorme de tudo isto que vos conto. Um vazio. Em Lisboa fui muito enriquecida – não em dinheiro, mas em vivência, em música, em conhecimento e pessoas tão cheias, tão ricas, tão interessantes e tão estimulantes.

Hoje lembrei-me dele como me lembro sempre que soam os discos que ouvíamos, as guitarras a tocar romance de amor, os pianos a tocar Bach e Chopin.

Em mim ele permanece bem vivo bem como a imagem de um amor tão bonito e tão desejado por mim que era o destes meus tios.

Quando eu revisito a minha infância, são estas as memórias que tenho. Quando penso no quanto fui feliz, também ele fez parte, e muito, desta nostalgia boa.

Onde estejas, um abraço.


Nenhum comentário:

Postar um comentário