domingo, 31 de agosto de 2014

Incoerências

Vagueio por Lisboa só,
Até chegar ao teu encontro.
E Lisboa comigo é Linda,
Comigo e com os turistas apaixonados que por ela passam,
E os sem abrigo que dela fazem casa,
Mas quando chegas Lisboa toma nova forma,
Embuída da tua tão grande incoerência.
És só por si um risco de coca aceso,
E mesmo em lágrimas eu snifo-te o sorriso.
Trespassas-me com a tua loucura
Até que a sinto minha
És só inocência disforme em vivências precoces
E ensinas-me acerca do nada, que do resto eu já fui sabendo.
Nas tuas pernas, compridas, de traços ainda infantis,
Toda uma curta vida de experiências cortantes, uma história em cada cicatriz que trazes,
Ainda assim,
Pareces-me sempre tão virgem.
E tu enrolas mais uma ganza,
Sentada de pernas abertas, os calções curtos do costume, a blusa sempre a caír e a mostrar o começo dos teus seios,
Mas sabes,
Sou eu que realmente fumo,
Que te fumo toda essa incoerência,
Que não é mais que a minha fonte de lucidez.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Sou nada

Sou nada. Nada sinto.
Sinto necessidade de escrever para sentir que sinto necessidade de qualquer coisa que seja.
Na verdade, estou em tédio e vazio profundo, hipotecaram-me. Estou vazia.
Vazia dela. Fiz um investimento de longos anos com meu coração. Ele avisou-me que era arriscado. Quis eu saber?
Não.
"Agora não consigo pagá-lo", digo-o em lamento, aos pulmões que fraquejam e partem sem escolha para longe de mim. Falta-me o ar.
Hipotecaram-me.
E a alma não chegou para saldar as dívidas. Tem-se vindo a desvalorizar seriamente, com toda esta crise de amor que hoje se sente - ninguém resiste, ninguém investe, ninguém acredita - desiste-se.
Estou farta, farta, farta, farta de fingir.
Fingir tudo. Fingir.
Fingir, caro público. Em praça pública me executem, que tanto condenei a falta de honestidade, e aqui estou eu, todos os dias, a mentir.
A fingir que não sinto por ela,
Nada.
A fingir que sinto por elas,
Tudo.
Tudo me enerva. Até a própria escrita- mas preciso dela.
Para ocupar o lugar onde a sua ausência se gosta de sentar.
E hoje, bastava-me a sua presença. Prometo-vos.
Ela não acredita um segundo da sua existência, mas eu apostava as estrelas em como me bastava, hoje, senti-la perto de mim. Só.
Olhá-la. E ter uma noite tranquila de sono, sem medos.
Só.
Assim estou.
É ridículo e humilhante pedir-se a alguém a sua presença, quando nada somos. Quando somos, nada.
Nada é uma palavra pluriofensiva- podemos falar em tantas formas que há de ser-se nada, e todos elas extremamente ofensivas à nossa pessoa:
Não é amiga, não é namorada, não é conhecida, nada.
É o vácuo, uma lacuna que não sabemos onde enquadrar em nós, como guardar em nós, e nem sequer sabemos se a devemos, sequer, guardar.
O nada ressoa-me à mente.
Aqui estou eu. E cá me conformo a continuar a sê-lo, peço desculpa, voltar a ser, novamente, nada.
O banco do coração já não empresta nada, com toda esta crise que nos envolve, e eis que chega o momento em que tenho que declarar, por fim, insolvência.
E aqui me despeço, caro público, meu alento.

A minha mente, antes de partir, deixa-me um bilhete de despedida. Sempre tivemos os nossos atritos, ainda assim, dávamo-nos relativamente bem, e conforta-me:
"Não te inquietes. Todos somos sempre alguma coisa que seja."

Verdade. Sou nada.





domingo, 24 de agosto de 2014

Gosto de ti

Envolvemos-nos por vezes em considerações estúpidas, e caímos no erro de medir aquilo que não se pode medir: o amor.
Diferente em cada circunstância e em cada olhar, em cada toque e em cada ferida. Nós amamos do jeito que precisamos, do jeito que nos faz sentido, impulsionados pelo que não nos preencheu com o tempo.

O ser humano na verdade é um eterno egoísta; Mesmo quando ama outrém, ama viciado. Ama na medida em que o preenche e alimenta, e a ilusão que se faz de um amor é a natural resposta ao medo. Da perda, da incerteza, da solidão.
Não sabemos nada. E o nada tem tanto de assustador como de empolgante. O que temos, é um diamante em bruto e um traço de combustível no chão, a poucos metros da fogueira que nos aquece. Estamos tão perto do abismo como da praia. Duas metades de uma só partícula. Temos tanto de igual como de diferente. Ainda assim, as nossas almas encaixam em perfeita harmonia. Como yin e yang, duas energias opostas. Tu és a escuridão e eu sou a luz. Completamo-nos a meio caminho. Tu dás-me as noites e eu dou-te os dias.

Foi esse encaixe que se deixou ficar no tempo, até que os nossos olhos se encontrassem de novo, e procurassem por fim os nossos corpos, e devorassem a nossa mente, e emburrecessem os nossos corações.

E sabes, eu gosto de ti. Mais do que amar, se é que sequer sei o que é, afinal, o amor. Gosto verdadeiramente de ti. Ninguém deveria amar, sem gostar primeiro. E tanta gente ama sem gostar. Por isso antes de todas as coisas, antes de qualquer coisa que possa dizer, ou escrever para ti, quero que te lembres e guardes no teu coração, e te venha à memória quando te sentes perdida, ou só, ou desamparada pela incerteza do amanhã e se irás vingar nas tuas conquistas, que eu gosto de ti.

E verás, com o tempo, o alento que isso traz.

Saber que cativámos, e que nos gostam por isso.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Monólogo da madrugada

São 4.
Oiço o fado que me arrepia e presencio a nitidez da sobriedade que por alguma razão aprecio hoje.
A noite foi fantástica, mas assim que chego a casa desmancho-me em lágrimas.
Parti o ipad. Foda-se, parti o ecran do ipad.
Desato a chorar, depois desta noite maravilhosa.
Ultimamente, sinto-me pior.
A pior filha do mundo. A pior amante do mundo. A pior pessoa do mundo.
Minto. Não me sinto. Não me sinto de todo. Tudo o que vivo está além da pele, alheio à alma.
Que se passou, pergunto-me. Tive uma uma noite maravilhosa.
Mas depois sei, já que não és mulher. Tu és A mulher.
A minha mente mentiu-me a puta da noite toda.
E eu não choro pelo ipad partido, choro porque me partiste em mim.
Sinto na pele a condenação dos olhares que passam, parece que sabem.
Será que os meus olhos te transparecem em holograma enamorado?
O teu nome vem-me à mente e grita-me. Grita-me, grita-me, grita-me, GRITA-ME.
E eu já não posso olhar para esta guitarra vazia na minha frente, vazia. Sem te ter entre os braços.
Quero a tua voz. O teu toque que não sei decifrar entre o sexual e o maternal. Ou ambos.
Quero o teu sorriso tão, tão frágil, tão meu.
Não o que hoje exprimes.
Quero-te assim, imperfeita e frágil.
Enquanto caminho até casa recordo me do cheiro dos teus cabelos. Recordo-me dos teus cabelos.
Lindos, grandes. Já não os sei, bem como nada em ti.
Tudo o que [te] amo, sei conscientemente não ser mais do que uma ilusão disforme,
Que construíste para mim. Não te perdoou.
Saí dali.
Não me estava a trazer conforto algum provar outro sabor, além do teu.
A quem engano? Engano-me para te esquecer e nos beijos dela só recordo os teus.
Estou acordada sem sono absolutamente nenhum.
Não me gabam a sorte.
Porque o meu corpo e mente escolheu esta cruz pra si?
Aquele teu cheiro tão teu, tão doce, tão venenoso. Entrou e encheu toda uma sala.
Os teus olhos nos meus quando a minha voz se juntou com as cordas.
Aquilo que não esquecemos, consolidamos com os sexos.
Tu-vives-em-mim.
E vais fugir eternamente a isso, não conformada com os olhares e reprovação que nos rodeia, tudo isso aliado à tua carência insaciável, incontrolável, e à tua própria instabilidade mental provocada por abandonos, crenças, fragilidades e desejo interminável de vivências no limite da emoção.
E eu?
Estou aqui.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Chego em breve, Lisboa

Lisboa,
Chego em breve para te abraçar inteira.
És a primeira e serás a ultima que os meus olhos querem ver e comer.
Aqui te prometo o meu último suspiro, mesmo que a distância nos prive de nos amarmos juntas.
Lava os restos que é de mim e traz-me sangue novo e doce à alma.
Quero-te nua, crua, verdadeira.
O teu pior e o teu melhor.
Quero as tuas ruas, os teus sons, os teus ruídos, os teus prantos, os meus gemidos.
Chego para me amparar na tua calçada.
Beijarei teus pés com as minhas palavras,
E num canto eterno proclamar-me-ei tua,
Mesmo que me venda aos falsos anjos, por aí.
Da noite ao dia encher-te-ei da minha doce melancolia, aquela mesma que os fadistas entoam em solene harmonia.
De madrugada traz-me o prazer que se esconde em teus braços.
Dá-me as drogas que mereço, todo um álcool que me polua a alma e a escureça, para que eu não possa mais ver o que nela se esconde.
Dá-me tudo o que me possa levar ao clímax da maior inconsciência.
Deixa-me só consciente ao riso.
Prometo rir-te muito, e dançar em ti desfeita.
Preenche o meu coração, as minhas entranhas, as minhas preces e descrenças.
Devolve-me inocência, rouba-me a decência.
Faz de mim o teu voraz pecado.     
Vem perder-te enfim comigo, Lisboa
Que chego em breve para te abraçar inteira,
E tão vazia de mim.

domingo, 17 de agosto de 2014

Bem-vindo ao circo



Bem-vindo ao circo - murmuram-me, oiço mal.
Despacho-me demasiado rapidamente a confiar no que ela me dá a beber, com um sorriso maduro mas louco no rosto que me acalma as pulsações muito rítmicas que o álcool me provoca e dá a provar em sensações desfocadas de muita luz e muito som envoltos numa neblina que me cerra os sentidos da sensatez.
Sinto-a acariciar-me no braço, ou então, sinto só o toque, que me sabe bem, que me sabe real, que me sabe. E já nada me sabe. E já nada me enche.
Eu sei que ela não gosta de mulheres, noto-lhe na postura e na forma como se chegou a mim, mas gosta de brincar, e isso basta-me bem, basta-me. E já nada me basta. E já nada me [pre]enche.
Gosto da forma como me olha e eu deixo-me ser muito adolescente e insana, já que ela não parece estar a importar-se, e brinca comigo às trocas de olhares falando-me perto demais para me permitir conter impulsos, arrisca-se.
Ensinaram-me a não falar com desconhecidos, muito menos beber das suas bebidas.
[A ela não, provavelmente.]
Mas quanto a mim? Faço por pôr em prática precisamente o contrário do que me foi ensinado, já que em nada resultou - permaneço em vazio e desconsolo, continua a faltar-me algo.
"23 anos para o lixo"- dizem eles diariamente, certo como o despertador. Eficaz e pontual.
Foi apanhada na rede da minha carência, muito susceptível, muito reles.
Se me estendesse a mão e me levasse com ela não estaria hoje aqui deitada, sem sono, na cama do costume, a escrever mais uma merda destas para passar o tempo, e provavelmente estaríamos num quarto de hotel a brincar aos casais e ao "amo-te muito", que não ama nada, que é só fachada para enganar a alma que sofre menos hoje para doer só lá à frente, adia-se.
É como a droga e o álcool, esses corpos em tesão que só se querem vir porque é a sensação mais próxima de amor possível que se arranja enquanto reais emoções não chegam - deixem-se disso, caro público- elas não chegam.
Somos todos farsa e mentira, bando de egocêntricos que só nos queremos amar a nós. Aliamo-nos a quem só nos pode ajudar a alimentar isso- amarmo-nos a nós. Sentirmo-nos amados, da maneira que encontramos,
Sentirmo-nos bem, grandes, especiais, úteis, bem fodidos.
[Nós, nós, nós, nós,  nós, nós, nós, nós, nós... mesmos.]
Ela vai falando mas eu não entendo o que diz, não consigo juntar as palavras e só vejo agora o seu semblante moreno, a sua pele gasta com traços que denunciam a idade, e os seus olhos fulminantes em mim,
E beijo-a.
Bem-vindo ao circo - murmuram-me. Agora oiço, e acredito.
Estou no meio do palco, os leões aproximam-se, o trapezista quase cai, bem por cima de mim. Oiço sons muito altos e disformes, aplausos, e sinto todas as vistas em cima de mim. Só pode ser o circo.
Consigo distinguir algumas expressões faciais, tradicionalmente condenatórias,
Será que errei o meu número?  Ah, fiz merda outra vez.
E ela, depois de me retribuir o beijo, deixa-me só, em palco de número falhado, a viver aquela condenação mental sozinha.
O relógio toca as três horas da manhã e o estômago em nó regista a data de óbito,
A hora em que oficialmente me perdi.





Se te minto

[ainda não] sei o que é de nós.

Se te minto,
escondo-te que sinto medo de cada vez que beijo mais uma vez a tua pele.
Escondo-te que sinto paz quando o silêncio se instala depois que os nossos corpos gritaram à luz da noite escura.
Quanto mais te tenho, mais te quero, mais te preciso.

Se te minto,
Escondo-te que todos os dias ao acordar quero fugir, de mim, e de ti, e de nós, repudiar este sentimento porque vai crescendo, e não sei se cresce em direcção ao caos.

Temos, eu acho, tanta certeza na dúvida. Não sabemos o que queremos, mas queremos isto, não sabemos quanto dura, mas sentimos falta. Não queremos fazer planos, mas imaginamos futuros próximos. Não nos queremos envolver demasiado, mas envolvemos-nos em abraços.

Temos, eu acho, alguma certa dependência, em toda a nossa liberdade.
Queres mostrar-me o teu mundo, e eu quero mostrar-te o meu. Queres que te leve, e te vá buscar, e eu quero cuidar de ti.

Às vezes reflito, e penso em como é mais fácil quando somos impulsivos e não tomamos consciência das coisas. Acreditar tão simplesmente que tudo é eterno, e que nada acaba, como se pensa quando se é adolescente. A maturidade, ou a idade, traz enriquecimento, mas traz também descrença. E de que serve, quando aproveitamos tudo a metade, e nem por isso deixamos de viver aquilo que o coração quer.

Gostava de não te ouvir quando dizes que te fartas depressa, gostava que o meu sentimento fosse mais forte do que a consciência.

Gostava de continuar ingénua, e acreditar nas pessoas. Porque na verdade,talvez aí eu fosse plenamente, momentaneamente feliz, e não pela metade, sempre sempre à espera do princípio do fim.

Se te minto,
escondo-te que receio dizer-te tudo isto, e te afastes, para me proteger. Escondo-te que receio o dia em que me conquistas de corpo e alma, e partas com desejo, e saudades de conquistar outrem. Escondo-te que receio e sinto não poder dar-te tudo o que precisas e queres e desejas; Um dia irás procurar as partes que te vão faltar, deixando-me.

Temo tanto o futuro, como o anseio, para ver afinal, no que isto dá.

Peço-te, que fiques, enquanto te sentes minha, e eu me sinto tua, enquanto me quiseres conhecer, e descobrir comigo. E que me deixes sem perdão, quando só me quiseres o corpo.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Pais e filhos

Há uma troca de olhares com o homem da frente uma dezena de vezes.
Não sei se ele acha que o estou a achar interessante,
Mas na verdade o que acho interessante é a relação dele com o filho.
Como todas as relações com os filhos.
Porque não as entendo.


Esperas-me?

Às vezes digo o teu nome, pra mim. Gosto de o ouvir. Sinto-te perto.
Não te posso deixar ler isto que vou escrevendo. Não quero que me decifres assim.
Quero que me decifres com o tempo. Com os olhos, com o tacto, em beijos.
E nunca em tempo algum eu, apressada e irrequieta, e inquieta, gostei tanto de esperar.
Nunca fui capaz de esperar tempo suficiente por nada.
Desisti de algumas coisas que não devia ter desistido, porque me farto delas.
Abandonei locais na hora errada.
Ainda assim, soube esperar-te. A única coisa, por que soube aguardar.
Espero contigo,
Espera comigo.
Esperas–me?


Primavera


-Por morrer uma andorinha, não se acaba a primavera.

- Mas mãe, ela era a primavera...


Primeiro amor

Mais que as guerras,
As maiores calamidades,
Temporais que ameaçam ruir as casas,
Perigo algum se igualará, em tempo algum,
À perigosidade de viver e perder
Um primeiro amor.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Quero ser livre"


Já conheço todo o teu mundo e o que te rodeia. 
Tornou se monótono caminhar contigo, porque conheço a tua forma de ver. 
Precisava sentir uma fuga, e literalmente sentir me a fugir.
Há outra brisa que me refresca sentidos perdidos num espaço que ocultei no tempo. 
Não sabia mais voltar... e ainda não sei. Ainda me procuro.
Parece-me hoje que já me ensinaste tudo o que podias, e eu tenho saudades de aprender.
Não quero ser de ninguém, além de mim, e nem sei se de mim quero ser,
Porque posso correr o risco de me querer mudar. 

Quero ser livre.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

I will writte you down a thousand times until you come to life

To you, my letters.

You've won them All and one by one,
It's how it has to be, for centuries it was so.
I hate whom created me so deeply attached to feelings.
How can I love god
If he created this monster shadow upon me

How funny,
I see murderers behind bars
And they are not less trapped as me.
They've hurt someone so deeply
So they must be punished with their freedom taken

But I now ask sincerely
when was I free.
I can't recall.
I'm a prisoner of my own thinking
still I want this pain.
I must to cause it feeds my veins.

I drink another beer and
Scratch my notebook with these words.
I'm now free to the paper.
And to the paper only.

I will writte you down a thousand times
until you come to life.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Errar-te

Ama-me.

Ama-me ainda que mintas.
Engana-me mais uma noite,
E eu dir-te-ei toda a verdade.

Ama-me,
Que eu conto-te o resto.
Conto-te que onde a minha alma mora
- Olha para dentro de ti.

Ama-me,
Que os meus braços envolver-te-ão enquanto dormes,
E até à minha morte não serás nunca só-
Pensas que és.

Ama-me,
E eu confesso-te às paredes,
Derrubo os muros que nos fecham na lógica
Colmato uma a uma todas as nossas falhas.

Ama-me,
E eu fujo contigo,
Recrio as chamas que forem precisas
E aqueço o teu mundo.

Porque tu foste a mais bonita maneira de cometer um erro.
E eu só queria poder errar[-Te] o resto da vida.


Casas

                 A casa do coração constrói-se nos braços de quem o leva junto consigo no peito.
                                                                                                                                                  C.B.

Paixão fugaz em horário de almoço

O teu lugar acabou de ficar vazio.
Enquanto saías não me olhavas mais, meteste conversa com o empregado.
Não reparei de imediato em ti, e ainda não sei o que me prendeu.
Trocámos olhares três vezes quase seguidas.
Quando olhei a primeira vez, olhavas para mim.
 Estavas a observar-me e não sei o que pensas.
Depois ficaste inquieta, o resto da refeição. Tentavas não me olhar, claramente.
Não conseguia ver-te inteira, tinha pessoas sentadas à frente e escondias-te por detrás de um vaso grande, mas fiz um esforço.
Expressão cansada no rosto. Vestias-te bem.
Não me olhaste com desejo. Uma curiosidade atroz, talvez. E medo alheio à curiosidade que te consumia, ou parecia consumir. 
Vestias uma camisa fina azul, mangas arregaçadas, ligeiro decote. Cabelo arranjado, ligeiramente ondulado com jeitos, semi-comprido. Não eras nova, mas tinhas um ar sofisticado e estavas em forma.
Fiquei subitamente com calor, e despi os casacos. Até agora continuo sem eles, e hoje chove e está frio.
Alguma coisa em ti me aqueceu a alma.
Não sei o que viste em mim, que levo uma t-shirt preta simples e nem estou arranjada. Como acordei, saí. Não penteei o cabelo, está desordenado e parece mais curto quando está assim, para todas as direções. Mas o teu olhar prendeu-me, ou o que tentaste transmitir com ele. 
Alguma telepatia pouco recetiva se terá passado, algum sinal que não soube decifrar.Os teus olhos procuravam os meus, pelo menos, naquelas três vezes em que nos olhámos.
A tua postura mudou depois daí, parecias incomodada com aquilo que tu mesma pareceste provocar.
Será que és casada?
Não pareces feliz. Mesmo quando sorris, é um sorriso mecânico. Fabricado para distanciar perguntas.
Mas mesmo antes de te levantares, enquanto eu sorria pela conversa da minha mesa e me esqueci por segundos de ti, olho-te por acidente e lá estavas tu novamente a olhar de volta. 
Acho que sorri ligeiramente para ti, pela primeira vez, e tu mantiveste a tua postura executiva e desviaste novamente o olhar. 
Mas desta vez, a mensagem passou. 
Consegui sentir o sentimento de culpa que te consumia, alimentado por uma qualquer religião – reparei numa revista que contigo trazes.
Por momentos eu penso que me poderia levantar, chegar-me a ti e dizer-te tão somente o quão bonita és, em todo o teu olhar tão incomodado e tão intenso. 
Ainda que parecesse ridículo da minha parte.
Talvez o tivesse feito, num outro contexto, e se não estivesse sentada num banco duplo impossibilitada de espontânea e impulsivamente me levantar como a situação o exigiria para poder agir com alguma coragem. Descobrir por onde te levam os reservados passos. 
Mas saíste, e  não te voltarei a ver. Todavia se pelo acaso do destino voltar a cruzar-me contigo, saber-te-ei reconhecer. 
Talvez também tu te recordes de mim.