domingo, 28 de setembro de 2014

Mais uma carta sem nexo


És o melhor sexo.
[Fumo um cigarro à janela enquanto ela me olha com ar apaixonado e consciencializo-me que terei de a deixar na manhã seguinte.
-Não voltas para a cama?
-Desculpa, estou a escrever.]
O teu corpo é o meu abrigo, e eu sinto-me tão à deriva desde o dia em que o deixei.
Sempre foste uma casa em ruínas e ainda assim, o meu mais seguro tecto - Não faz mal, estou acostumada a contradições, as minhas e as tuas.
Tenho uma mulher bonita na cama, bem mais jovem que tu, e não é nada disto que quero. Só sei que não é nada disto que quero.
Fecho os olhos e transporto-me para a irrealidade temporariamente confortável - Tu naquela cama. Vario entre querer agredir-te e beijar-te o corpo, vario entre querer ter forças e mutilar-me até me arder se não o corpo - deixem a puta da minha alma em paz.
Não estou em mim desde o dia em que me deixaste, mas arranjo refúgios.
Temo ter de ser assim por mais uma eternidade - Procurar-te nas mulheres, perder-te mais um pouco. Não te encontro, senão no cheiro das roupas que ficaram num saco debaixo da cama e que ainda não as lavei – nem consigo.
E elas, essas mulheres não chegam nem ao chão que pisas, quanto mais aos teus pés. Parece-me tudo relativamente reles e sujo - relativamente a ti.
Quero lutar por ti e não tenho armas- Amor não te chega, e eu não tenho mais. Quero fazer um luto e diariamente o recuso porque és ainda a razão por que me levanto. E se te apago, quem me acende?  É-me insuportável a consciência, destruo-a com bebida e cigarros - A consciência de que errei por carência e saudade os tempos, mais uma vez.
Adoro a noite e as gentes que me abordam, a solidão e a morte lenta vem depois, tal qual ressaca, mas consideravelmente pior.
Às vezes saio só e sento-me na última mesa do bar, fico a observar as suas danças, os seus engates, as suas mentiras. Todos mentem, menos nós, em mim. Em ti e contigo, nos teus braços, sou sempre mais real, e a única parte real em mim é a parte que deixaste de ti. Tudo o resto é mentira, disfarce, e mágoa. Até isto que escrevo, que já é o sem-ti.
Que lhe podes hoje dar? Criança reles disfarçada de mundo, não és mais do que projecto inacabado, e ela quer um projecto final. - diz-me a cabeça, pela milionésima vez já não ao coração, mas aos pés que se encaminham para aquela paragem de autocarro. Deixei-a na cama, não me apeteceu esperar - Sabes bem que não vem.
Espero por mim, não por ela. Respondo de volta. E continuo a escrever.
A minha teimosia é a minha motivação, o amor que resta, a droga.
Não respiro a sós sem ti, ando ligada a uma máquina, mas mantenho a lucidez.
A pior das mortes- Aquela em que não se morre. Vive-se morto - Diariamente me levanto, visto-me do melhor de mim e penso que este é mais um dia a menos - um dia a menos, em que não sou o que precisas.
Sê-lo-ei - Não fosse esta teimosia, esta teimosia que me faz querer ser mais e melhor, para ti, mesmo que disso não usufruas, mesmo que nem o saibas! Colmatarei todas as falhas, para que não haja nenhuma razão que nos desune neste mundo, além da tua vontade e do que quiseres que seja em ti:
Estarei preparada como os Reis, de reino feito e castelo montado, a mesa cheia com as melhores iguarias, o coche de seis cavalos pronto te ir buscar, Minha Rainha de sonhos.
E se tu não voltares?
Se não voltares, escrever-te-ei até ao fim dos meus dias.
E se não voltares?
Estarei aqui.
Jantarei só, ou acompanhada, e continuarei a cuidar dos jardins do reino, no caso de me quereres visitar, e elas podem fazer me a corte e despir me as roupas, a alma é tua. E o trono, esse, é teu. Correrei ao teu encontro onde quer que esteja, onde quer que estejas, assim que seja essa a tua vontade, assim que precises de mim- espera para ver onde os meus sonhos dão.
E se a vida, essa, te prender em algum momento a uma cama, eu ficarei do teu lado a ver as estelas passar, o sol levantar e pôr-se. E se as partes do teu corpo deixarem de funcionar, dispo-te os meus órgãos. E neste mundo não há nada que deseje mais, do que poder cuidar de ti.
A noite e as gentes sabem-me bem, mas nada sabe melhor do que ser aquela que se deita a teu lado, te vê existir e seres.
Meto a carta no envelope e fecho-o. Mais uma carta sem rumo. Pego no isqueiro e lentamente a queimo, vejo o fogo percorrer o papel e por fim apagar-se a chama, tal qual nós.
Mais uma carta sem nexo.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Quantos adeus um amante se promete dizer a si?

Mais uma insónia.

Tenho uma dor de cabeça que não passou o dia inteiro, mas faço um esforço por escrever, já que sempre silencia por um momento outra dor maior que se instalou em mim, e sempre me aquece por mais algum tempo.
Na verdade, é isto que tenho feito. Procuro pequenos fogos para me ir mantendo quente. Para sobreviver ao frio que se gerou dentro de mim. Para sobreviver a estas noites de insónia.
Mas quando se apaga o fogo...

De qualquer das formas, porto-me bem.
Eu, mais que ninguém, soube tão bem viver(-te) sem te ter. 
Basta-me desabituar-te em mim. 
É um processo de retrocesso, que faço como trabalho de casa de cada vez que acordo, e mantenho uma postura normal em público- Consigo sorrir, e digo que sim, tudo está bem.
Algumas memórias vêm e vão, umas bastante detalhadas outras já parcialmente esquecidas porque faço por não manter uma imagem mental de que tudo fazia sentido.
Minto-me tanto, ultimamente- Ao meu coração, à minha alma - que é tua, que sei que não pode ser, que sei que não a mereces, que sei que não é recíproco, que sei. Eu sei -  traio tudo o que está dentro de mim.
Lembro-me hoje com especial atenção do dia em que te disse que te amava, pela primeira vez. Estava nos teus braços e sorri, como de tantas outras vezes. E eu já nem pertencia à terra nem a nada. Estava tudo só como devia estar, em mim, em ti.
Já que te sei esquecida, pelo menos, de nós,
Perguntaste-me porque sorria, e em que pensava. 

Não era capaz de responder, porque se abrisse a boca não ia conter o que sempre esteve na ponta da língua. Sorria, então.
Insistias.
Respondi-te por fim após alguma insistência em que pensava. Que te amava.
"Que te amo" - disse.
Respondeste "não", com o teu ar infantil do costume e enquanto me balançavas e abraçavas com força, excluindo a hipótese, sem te aperceberes daquilo que tinha dito, e preparavas-te para continuar a insistir no "diz-me lá em que pensas",
Até que paras.
Apercebes-te do que te disse. 

Fez-se um pequeno silêncio, e exclamas, como criança que acerta na resposta, e com um sorriso emocionado:
"Ah! Nunca me tinhas dito isso!"
Escrevo(-te) em lágrimas, e alguns sentimentos à mistura. 

Quantos adeus um amante se promete dizer a si?
Quando finalmente te tenho inteira nos braços - não dou tudo de mim. Não quis arriscar em espontaneidade inconsciente, a medo que qualquer passo em falso te pudesse fazer partir, fugir, a medo, também.
De que valeu?
(Desculpa se o discurso está incoerente e tropeçado, mas preciso de [te] escrever.)
Julguei que se te apercebesses o quanto eu apreciava a tua presença, e tudo em ti, fugisses, por não quereres isso de mim.
De nada vale racionalizar.

 Todos vamos ciclicamente sofrer de uma maneira ou de outra.
E eu crucifixo a minha idade vezes sem conta, e milhões de vezes ao segundo, mas se dizer o que sinto for imaturo, infantil e precipitado 
Di-lo-ei. 
Sê-lo-ei.
 Em tempo algum voltarei a viver pela metade, sem dar tudo de mim, temendo a brevidade das coisas, porque ainda que que tudo se acabe no minuto a seguir terei vivido intensamente o hoje.
Não mais irei omitir, reprimir ou esconder o que quer que seja que arda no meu peito, que ecoe na minha boca, e me sussurre à mente.
Deito-me, por fim, e venço-me. 

Apetece-me ligar-te, dizer-te que te amo por todas as vezes em que quis dizê-lo e calei.
Por todas as vezes em que o senti:
Quando me olhavas, quando soltavas uma gargalhada estridente e infantil, enquanto lias ou cantavas, ou tocavas, ou sorrias - ou simplesmente existias mais o teu sorriso, do meu lado, 
quando eras tímida, quando eras louca, enquanto fumavas, quando abrias o teu mundo, medos, segredos, histórias a mim - e não disse.
E habituei-me ao silêncio, que vem com a idade e eu desconhecia o quão prazeroso é somente ouvi-lo e olhar-te.
Por mais que seja errado amar-te - meu pecado, minha alma - todo o meu corpo, cérebro, veias, coração, está-se pouco a cagar pra isso.
Ele só sabe - e eu penso em tantas outras coisas, mas no fim do dia, no fim de tudo, quando a luz se apaga, e tudo se silencia, e tu, até tu, dormes,
Ele só sabe,
Que te ama.


domingo, 14 de setembro de 2014

Sometimes I get tired of loving.

Sometimes I get tired of loving. It's so incredibily tiring when you do it alone. Time, wrapped in sterile hope, passes so slowly it even looks like it goes backwards. 

Still, it never goes.


Terminem-me já.

São sete da noite e eu levanto me com o quase deitar do dia
Sento-me na cama antes de ganhar forças para me erguer de pé,
E Já sinto os ossos das costas contra a parede feia e fria do quarto
De tanto comer o teu corpo à noite em sonhos mórbidos em que vens
E me violas sem perdão,
E de me alimentar somente das memórias que restam, durante o dia.
Como é ser papel principal?
Como é ser capa de livros e histórias intemporais,
Em que és a grandiosa protagonista?
Como é seres musa de poemas,
Inspiração para melodias, 
E tudo começar, e acabar em ti?
As minhas mãos tremem.
Eu sinto chegar um laivo de inspiração
Que me faz ter a força de ainda escrever um pouco.
Valha-nos isso - Escrever.
O que diariamente me salva.
E tu és momento quando te lêem e solidão quando te fecham a página,
E enquanto escreves?
Um doce coma ilustrado.
Aí que não me quero mais a mim!
Este corpo, esta alma, este pensar constante!
E sentir a falta daquela droga que é ela em cheiros, formas, sexo e calor,
E colmatar essa falta com tudo o que te corte  momentaneamente a dor.
E ser só isso, a tua realidade. 
Se é disso que vivo,
Terminem-me já.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Lucy in the sky with diamonds

Hoje ligou-me a Lúcia. 
A Lúcia é a irmã de uma das minhas melhores amigas. Tem dez anos de idade.
As crianças não me arrancam grande emoção e se alguma vez escrevi sobre/para elas, fi-lo pouquíssimas vezes, se o fiz.
A Lúcia tem problemas na escola, tem um défice de concentração elevadíssimo e já correu mais escolas nos seus dez anos de vida que a filha de um diplomata na sua vida toda. Ainda assim, ao contrário das suas coleguinhas de escola, que ouvem as músicas convencionais para crianças e os cantores populares portugueses por influência dos pais, ela ouve Beatles e Pink Floyd e diz "ser bem melhor que Tony Carreira". Gostos não se discutem, mas na verdade dada a complexidade da obra dos intérpretes referidos, e meio onde está inserida, é pouco viável serem uma opção agradável aos ouvidos de uma criança que mais depressa compreende e aprecia os singelos acordes e letra das músicas populares que um "blackbird singing in the dead of night". Talvez por isso me cative um pouco mais que as outras crianças com quem contraceno quando é preciso.
A Lúcia viu a minha foto de perfil e diz que quer cortar o cabelo como o meu, do mesmo modo. Escrevo o seu nome vezes sem conta porque além de ser o meu nome predilecto, sinto-me à medida que o escrevo e leio para mim, a transmitir-lhe um pouco mais de força.
A Lúcia vai ter de cortar o cabelo.
A Lúcia ligou-me a perguntar se a podia ir visitar, e  eu nunca sei bem como reagir com as crianças, o que lhes dizer. Entretanto fico sem palavras, e desta vez o silêncio era ainda mais ensurdecedor por ter a responsabilidade de lhe fazer esboçar um sorriso.
E eu queixo-me da quantidade de cadeiras que tenho que fazer, quando ela está a começar uma pequena luta para conseguir chegar, um dia, à faculdade, ou então até ao Natal.
A Lúcia  está com uma puta de uma leucemia. E só não é justo. 

Não é justo criança alguma passar por isto: inevitavelmente criar resistência emocional, forças, medos, maturidades, que podiam muito bem chegar depois da merecida idade da brincadeira.














[Imagem do filme "I am Sam" em que Dakota interpreta a personagem de Lucy. Gostaria de mencionar que este é um dos meus filmes de eleição.]

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Se faz favor

A minha mente paira acima de mim:
Sinto-me fora de mim pelas piores razões.
Já nem consigo fazer uma escrita minimamente consciente,
Coerente.
Chega de festa, chega de sexo, chega.
Mas o que fica?
Nada.
Dói-me a garganta, dói-me a cabeça,
Estou a doer-me.
E ela escreve-me e toca-me e sente-me,
É a loucura materializada em achegos bem quentes,
E agora não me apetece.
E agora, não me apetece calor.
Quero um banho de água fria e acordar do nada,
Se faz favor, obrigada.
A minha cabeça já não pensa, só vive.
Não quero parar, e não quero continuar.
Não quero saír, não quero ficar.
Não há um meio termo aceitável,
Como que um coma?
Preciso só de uma pausa, demorada,
Se faz favor, obrigada.


Escrever é uma forma de amar

Escrever é uma forma de amar. Escrever é amar em papel, assim como fazer amor é amar com o físico.







terça-feira, 2 de setembro de 2014

Falsas manhãs

Como ela fica bonita a dormir a meu lado.
Dou-lhe um beijo na testa, sinal de respeito,
E corro para a cozinha.
Preparo-lhe o pequeno almoço, como ela gosta.
O seu sumo favorito, as torradas do costume, o café na máquina italiana, que aprendi a fazer.
Por breves momentos pensei, que me acostumava a isso.
Novamente a medo, não o sussurrei quando ela abriu os olhos e me viu a seu lado, de pequeno almoço pronto.
Hoje é um dia calmo, e nem tão frio, nem tão quente.
Oiço os pássaros lá fora, e além desses, só o silêncio.
E a sua respiração.
E eu não me lembro ter sorriso mais real do que o que esbocei quando os seus olhos se abriram,
De um verde pouco desperto e terno.
Ela bastava-me e eu não lho disse convenientemente,
Que talvez até mudasse, talvez emigrasse, ou casasse,
Disse sempre,
Que não.
Acordo-me. Lá estou eu a sonhar.
Sento-me na cama.
A falta dela invade-me até aos olhos, e dos olhos até ao pescoço, abaixo
E desço em lágrimas para o quarto dos pais,
Que estou no começo da idade adulta,
A tentar aprender o que é amar sem birras,
Como os adultos fazem - calam e seguem,
Mas creio, ainda jovem o suficiente para me dar ao luxo de ainda pedir abraços,
Esses que a minha mãe então nega, e diz:
Se é por essa mulher, faz esse luto sozinha.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Silêncio

Garrafas de cerveja vão enchendo a minha secretária já sem livros.
Um caos constante instalado no meu quarto representa com rigor o meu caos interior.
A quem engano se disser que este não é o meu estado favorito
Podre, decadente, alcoolizada, e consequentemente genial.
Eu hoje cedi à dor. É o que os domingos, as manhãs e as noites quando te vais deitar fazem.
Não escrevo para te dar palavras, já nao as há.
Não te escrevo para te trazer conhecimentos novos, já não o são.
Eu continuo a fazer de ti uma presença feminina, estática, doce,
Presa às paredes das ruas e dos quartos e das outras,
Para colmatar o silêncio em que me envolveste.
Nunca pensei que o resto da história fosse perder-te de novo,
Perder o teu como estás, perder cafés.
E não me aflige mais saber que hoje não me pertences,
Mas ser a tua passagem sempre breve e contada.
E no resto do tempo,
Quem és?
Quero lutar contra o sentimento que vai crescendo de que não preciso de ti,
Precisando sempre,
Porque ainda que precise tu não estás e não queres estar.
E eu mascaro-me me do melhor que te posso dar, mesmo que nunca mais to dê, para afastar a real percepção que não sou o que queres receber,
E não me culpar por isso.
O teu silêncio é um grito ensurdecedor,
Que eu julguei não mais ter de ouvir.
Como és capaz de me voltar a negar um abraço,
Desses teus que me curam e salvam,
Mesmo que por compaixão fosse.
Tu estás bem, resolvida, apaixonada, destemida.
E eu estou a caminhar sem rumo, a resolver-me só.
Sei que te afastas a medo de esperar de ti mais do que devo esperar de ti,
E eu volto a dizer que o que me queres dar basta,
O que me queres dar e não dás porque devo desligar-te em mim.
Mas o teu silêncio, esse...
Só não me basta o teu silêncio, a tua despreocupada indiferença,
E como todos os apaixonados, eu só queria que soubesses,
[E me desculpasses mais uma vez]
Por estar a precisar de ti.