quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

[A saúde mental é tão frágil quanto nós não esperamos nunca que seja.]


O corpo leva o seu ritmo mas acostuma-se ao lugar e ao tempo. Reaprendemos a caminhar num mundo em que não podemos viver o amor. Guardamos numa caixa bonita. Colocamos de parte, abraçamos a solidão de nós e o que resta da vida depois disso.
Redescobrimos o valor da amizade e compreendemos como também essa pode ser um gesto de amor.
...
Vestimos uma super carapaça de bem estar e amor próprio.
Mesmo os dias cinzentos nos parecem bonitos. Abrimos os braços e deixamo- nos molhar pela chuva que cai porque somos impermeáveis.
Baixamos as armas, derrubamos muros, abrimos fronteiras e convidamos o mundo a entrar na nossa sala de estar.
Afinal, a nossa sala de estar não tem assim tanto espaço. Afinal até nos sentimos a sufocar. Afinal as paredes e tectos começam a apodrecer, a ganhar um qualquer tipo de bolor, a ruír. Corremos ao quarto em busca de isolamento mas o corpo com medo também não quer estar só.
Nós pensávamos que era uma festa. Havia balões e enfeites bonitos. Havia pratos na mesa, bolos e rissóis.
De repente vindo de sei lá de onde estamos a caír a pique num sonho do qual não somos capazes de acordar. Nenhuma cara é reconhecível, nenhum local parece familiar.
Afinal não somos impermeáveis e inicia-se em nós uma tempestade que condiz com as ruas onde nos arrastamos à passagem de uma incontrolável ventania.
Hoje chovemos nós e porque chover constrange o outro arranjamos maneiras de só chover nos locais seguros.
Chovemos na copa, no elevador, no carro, na casa de banho do centro comercial e quando nos entra qualquer coisa maldita para o olho.
Respiramos fundo e dizemos para nós 'eu já estive aqui'. Lavamos a alma debaixo de uma água escaldante na esperança que se dissolva de uma vez por todas.
Percorro uma vez mais um labirinto que já me é conhecido e espero chegar à saída mais rápido que das outras vezes. Faço este caminho há tantos, tantos anos e ainda não aprendi que é melhor ir pela estrada ao invés de apanhar atalhos que não me oferecem uma saída só porque me parecem, sempre, mais bonitos.
Um grito de raiva instala-se porque os amantes não-amados não podem compreender porque nascem sempre tão inúteis.
Os amantes não-amados não podem compreender porque silenciar o amor cura quando são feitos de música.
Os amantes não-amados não podem compreender porque é que o seu amor não salva.
Os amantes não-amados não conseguem compreender porque é que o seu amor não é capaz de mudar o mundo.
Os amantes não-amados não conseguem compreender porque têm que segurar esta cruz.
Os amantes não-amados não conseguem perceber porque nos mantém vivos.
Porque nos fazem reféns.
Porque nos querem aqui.

A casa


Enquanto crescia nunca fui a miúda típica.
Em pequena passava a vida a rasgar collants nas brincadeiras e salvava as miúdas dos rapazes mais inoportunos. Queria usar calças como a Sofia e a Isabel e não entendia porque as minhas colegas da catequese chamavam a minha mãe de tia – Mas afinal eram todas minhas primas?
Na adolescência fui levada para os Açores e o entusiasmo passou-me ao lado. Usava óculos, tinha um sotaque Lisboeta, não era a miúda popular de roupa sofisticada e telemóvel no bolso. Levei dois anos para me adaptar.
As memórias falham-me na sua maioria no que toca ao passado mas distinguem-se dentro de mim como uma infância feliz e uma adolescência triste.
Crescemos e vamo-nos formatando. Vão-se refugiando os traumas e as frustrações no corpo e na mente. O meu amor-próprio foi descendo a pique e culminou numa depressão recente.
O amor dos outros não deve ser confundido com o nosso e não devemos fazer dele casa. A casa somos nós e os outros que sejam aquilo que a preenche. Aquilo que a preenche de bonito. Só. E ainda que sejamos nós a casa isso não retira uma imensa importância às pessoas que nos rodeiam. Às pessoas que nos visitam e fazem connosco sala sem fazer cerimónia.
É igualmente importante não esquecer porém que, ainda que sejamos nós casa, quem a habita e frequenta pode fazê-la ruir.
Eu sentia-me um sem-abrigo nisto do amor-próprio e fiz casa muito cedo no outro. Eu era só a poltrona ao fundo da sala, junto à janela. O outro, a casa que me sustentava. Os pilares seguros por suposições criadas por mim e pela minha adolescência, hormonas, e invisibilidade entre os meus pares.
Isto de fazer casa no outro nem sempre corre de forma trágica, ainda que, mais cedo ou mais tarde, tenhamos que nos aperceber que temos de arranjar a nossa própria casa cujos alicerces afinal só podemos ser nós. No entanto, vai sempre ser trágico e brutalmente devastador se em quem fazemos casa não nos cuida do emocional com carinho e adoração e nos deita a casa abaixo.
Eu já aprendi há muito tempo, mas o próprio tempo o confirma, que não deixamos de amar. Ou aliás, que deixarmos ou não deixarmos não só não depende de nós, como nem nos devemos dedicar a essa luta.
Não é deixar de amar – é deixar de habitar. Não é deixar de amar, é mudar de morada. Não é deixar de amar – é perceber que esse amor só causa dor e instabilidade dentro e em redor de nós de cada vez que se materializa. Não é deixar de amar, mas perceber que viver esse amor dói mais do que sara. Depende de nós sim, saber quando nos retirar – sempre.
Tenho uma família nuclear pequena e ao mesmo tempo tão grande – Sou eu e o meu gato. Sendo eu toda uma casa. Decorada ao meu gosto. Onde me sinto quente e protegida. Onde posso sempre ser eu se souber deixar entrar as pessoas certas – que me aceitam séria e me aceitam pateta, que me aceitam a rir e a chorar. Que me aceitam nos bons e nos maus momentos, que aceitam a minha arte, que se orgulham de mim, me admiram, e me querem perto sem esperar nada em troca senão um abraço sincero.
Haja luz, e energias de conforto e calor, como um colo ou a lareira acesa.
A casa é isto e se voltar a ruir? Eu reconstruo.

Cartas a Júlia

Júlia,
Gostava que esta fosse a minha última carta.
Os dias têm estado tão cinzentos apesar do sol, do calor, dos sorrisos que vejo passar nos rostos dos outros. É como se eu fizesse parte de uma realidade paralela em transparente que me permite caminhar e observar lado a lado um lado da vida que eu não sou capaz de atingir.
Todos os dias acontecem momentos novos. Todos os dias as árvores crescem um pouco mais, eu envelheço um pouco mais, o tempo muda qualquer coisa. No en...tanto tudo passa, alheio a mim, como se eu não estivesse ali a fazer parte da paisagem. Vejo a vida passar-me ao lado. Quero agarrá-la e passa-me entre os dedos. Todos os dias serão dias diferentes, melhores. Prometo na noite anterior e prometo na manhã seguinte. Mas não são. O calor incomoda-me, o sol e o verde. Sinto-me a destoar da paisagem.
Sabe, alguns momentos tenho saudades suas, fico perdida no vazio. Outros momentos não sinto absolutamente nada e na verdade são mais os momentos em que não sinto absolutamente nada do que aqueles em que me iludo de sentir.
Às vezes acho que é por sentir demasiado, como gelo contra a pele que nos anestesia. Às vezes acho que esgotei todo o sentir consigo. Com o amor que lhe dei; o seu, o meu, e o de uma humanidade inteira. Esvaziei-me de amor e emoção para dar. Esvaziei-me de força. Esvaziei-me de crença. Esvaziei-me de vida. Chorei todas as lágrimas que havia para chorar. Na verdade eu andei a dar-lhe a vida este tempo todo enquanto me ligava às máquinas. Feliz fui a sós, recordo-me,mas permanecia ligada e enviava forças de longe em bilhetes postais feitos de pássaros. Talvez eu já nem saiba respirar por mim.
Mas já não me afligem as suas partidas. Já não me arrebatam as suas chegadas. Já não me destroem os seus gritos, a sua impaciência, a sua raiva, a sua intolerância. Já não me saciam os seus sinais mas eu morro lentamente nas voltas.
Não sei que é feito de mim e, Júlia, nem tudo é sua culpa. Mora em mim uma cruz pesada e fui eu que a criei. Mora em mim o cinzento, o frio, a podridão do tempo. Mora em mim um lado de luz que se petrificou e escondeu por debaixo dos tecidos entre os órgãos vitais. Não chego lá.
Não existe alma capaz de suportar o negro que me acompanha algemado aos pés. Não existe alma capaz de me reerguer para a vida se não, talvez, eu mesma. E todos os dias eu tento passar para o lado da luz. Todos os dias eu tento acreditar que sou mais forte. Todos os dias eu tento brilhar se a minha luz for precisa aos outros. E todos os dias me sugam para dentro de um remoinho cor de escuridão.
Todos os dias me sugam como o seu corpo me suga, como a sua alma me suga e ainda depois de tudo isto quando eu vejo os seus olhos sou salva de mim.
Não me tente compreender e não me tente convencer que as suas breves passagens me podem deixar à tona quando eu me aproximo cada vez mais do fundo do mar.
O tempo esgota-se.
Gostava que esta fosse a minha última carta, junto com uma fotografia do meu coração, por dentro.

Benedita

Lisboa

Nesta terra que é tão nossa,
E tão de ninguém,
Perdemos os passos a contar sorrisos e histórias.
Aqui sente-se, e cheira-se, e vê-se, e chora-se.
Os enamorados que prometem infinitos sobre vista,...
As crianças que experimentam os primeiros passos na calçada,
A quantidade de línguas e culturas saboreadas no convívio com os turistas que nos pedem Lisboa emprestada
E a solidão espelhada nos vagarosos passos de quem já não tem pressa
E já não espera
Senão a morte.
Tudo isto,
Lisboa.

Tão simples quanto ser


A maior ironia da vida é a própria vida.
E nós idênticas no não desejável refletimos demais, tempo demais.
Era a culpa, eram os medos, a distância.
Não sabemos de onde vem a força mas passamos por igrejas e páras, e pedes que rezemos.
Vim falar de origens. ...
Ele ouve.
Nós sentimos.
Vim falar de eternidades.
Sobre elas,
Diz o tempo que não se mete ao barulho
Que amores de alma não morrem por morrerem andorinhas.
Nos nossos corações sempre foi primavera.
Nós não sabemos de onde vêm as forças mas a ironia são as origens porque é delas que retiramos os ensinamentos.
A paciência.
O tempo.

Sobre nós,
É tão simples quanto Ser.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Domingos.

Às vezes tenho a sensação de que passaram muitos anos. Sinceramente muitos anos. Tantos anos que às vezes me sinto já no fim da vida, tranquilamente. Em paz. Descansada, reflito de vez em quando, sem medos, que tudo já foi feito, ainda que isso não corresponda à verdade. Fico com aquela sensação de fim de ciclo, como quando termina uma época festiva. Mas sem angústia. No entanto hoje ouvi alguém chorar com saudades do marido e assim de repente deu-se-me um aperto no peito como se eu soubesse exatamente o que aquilo era, e já tivessem passado imensos anos, e eu tivesse que deixar guardado numa gaveta toda uma vida a dois. E no entanto nada disto aconteceu. Mas hoje é domingo. Eu também tenho saudades do meu marido com quem estive a vida toda - se calhar estive, só que dentro de mim. E se calhar toda a vida foi aquele instante.
Domingos.








Último Acto

Estou cansada deste texto,
Recorrente, batido.
A rotina do costume....
Os olhares impenetráveis, distantes.
Como os pés.
Silêncios sem corpo.
A ausência gritante que se ignora um tempo.
Cometem-se uns crimes connosco próprios.
Eu senti um perfume novo, os olhares eram mais doces.
Existe magia e música a prender-me ao chão.
Sempre fugi só porque quis
Mas permanecem rotinas.
As fotografias distantes, frias,
Como os pés.
Palavras sem emoção.
Contam-se piadas que já não se acham graças.
Ergo com a pouca força que tenho as cortinas do palco que se fecham por cima de mim,
Os braços sem força.
Há ainda toda uma multidão que espera por um próximo acto.
Que espera o regresso do artista ao palco.
Vivo na peça, o último acto, criado por mim.
Há ainda um público que espera calor cá em cima.
As cortinas estão fechadas ainda que eu esteja por detrás delas vestida de vida,
Ainda que eu esteja por detrás delas toda vestida de amor,
Ainda que por trás de mim esteja todo um grandioso cenário montado.
Ainda que tudo esteja preparado para mais um acto.
Está sempre tudo pronto a recomeçar.
Mas as cortinas não sobem.
O público levanta-se e eu desço do palco, e de mim.



Jan/2017