quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Cartas a Júlia

Júlia,
Gostava que esta fosse a minha última carta.
Os dias têm estado tão cinzentos apesar do sol, do calor, dos sorrisos que vejo passar nos rostos dos outros. É como se eu fizesse parte de uma realidade paralela em transparente que me permite caminhar e observar lado a lado um lado da vida que eu não sou capaz de atingir.
Todos os dias acontecem momentos novos. Todos os dias as árvores crescem um pouco mais, eu envelheço um pouco mais, o tempo muda qualquer coisa. No en...tanto tudo passa, alheio a mim, como se eu não estivesse ali a fazer parte da paisagem. Vejo a vida passar-me ao lado. Quero agarrá-la e passa-me entre os dedos. Todos os dias serão dias diferentes, melhores. Prometo na noite anterior e prometo na manhã seguinte. Mas não são. O calor incomoda-me, o sol e o verde. Sinto-me a destoar da paisagem.
Sabe, alguns momentos tenho saudades suas, fico perdida no vazio. Outros momentos não sinto absolutamente nada e na verdade são mais os momentos em que não sinto absolutamente nada do que aqueles em que me iludo de sentir.
Às vezes acho que é por sentir demasiado, como gelo contra a pele que nos anestesia. Às vezes acho que esgotei todo o sentir consigo. Com o amor que lhe dei; o seu, o meu, e o de uma humanidade inteira. Esvaziei-me de amor e emoção para dar. Esvaziei-me de força. Esvaziei-me de crença. Esvaziei-me de vida. Chorei todas as lágrimas que havia para chorar. Na verdade eu andei a dar-lhe a vida este tempo todo enquanto me ligava às máquinas. Feliz fui a sós, recordo-me,mas permanecia ligada e enviava forças de longe em bilhetes postais feitos de pássaros. Talvez eu já nem saiba respirar por mim.
Mas já não me afligem as suas partidas. Já não me arrebatam as suas chegadas. Já não me destroem os seus gritos, a sua impaciência, a sua raiva, a sua intolerância. Já não me saciam os seus sinais mas eu morro lentamente nas voltas.
Não sei que é feito de mim e, Júlia, nem tudo é sua culpa. Mora em mim uma cruz pesada e fui eu que a criei. Mora em mim o cinzento, o frio, a podridão do tempo. Mora em mim um lado de luz que se petrificou e escondeu por debaixo dos tecidos entre os órgãos vitais. Não chego lá.
Não existe alma capaz de suportar o negro que me acompanha algemado aos pés. Não existe alma capaz de me reerguer para a vida se não, talvez, eu mesma. E todos os dias eu tento passar para o lado da luz. Todos os dias eu tento acreditar que sou mais forte. Todos os dias eu tento brilhar se a minha luz for precisa aos outros. E todos os dias me sugam para dentro de um remoinho cor de escuridão.
Todos os dias me sugam como o seu corpo me suga, como a sua alma me suga e ainda depois de tudo isto quando eu vejo os seus olhos sou salva de mim.
Não me tente compreender e não me tente convencer que as suas breves passagens me podem deixar à tona quando eu me aproximo cada vez mais do fundo do mar.
O tempo esgota-se.
Gostava que esta fosse a minha última carta, junto com uma fotografia do meu coração, por dentro.

Benedita

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