quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A casa


Enquanto crescia nunca fui a miúda típica.
Em pequena passava a vida a rasgar collants nas brincadeiras e salvava as miúdas dos rapazes mais inoportunos. Queria usar calças como a Sofia e a Isabel e não entendia porque as minhas colegas da catequese chamavam a minha mãe de tia – Mas afinal eram todas minhas primas?
Na adolescência fui levada para os Açores e o entusiasmo passou-me ao lado. Usava óculos, tinha um sotaque Lisboeta, não era a miúda popular de roupa sofisticada e telemóvel no bolso. Levei dois anos para me adaptar.
As memórias falham-me na sua maioria no que toca ao passado mas distinguem-se dentro de mim como uma infância feliz e uma adolescência triste.
Crescemos e vamo-nos formatando. Vão-se refugiando os traumas e as frustrações no corpo e na mente. O meu amor-próprio foi descendo a pique e culminou numa depressão recente.
O amor dos outros não deve ser confundido com o nosso e não devemos fazer dele casa. A casa somos nós e os outros que sejam aquilo que a preenche. Aquilo que a preenche de bonito. Só. E ainda que sejamos nós a casa isso não retira uma imensa importância às pessoas que nos rodeiam. Às pessoas que nos visitam e fazem connosco sala sem fazer cerimónia.
É igualmente importante não esquecer porém que, ainda que sejamos nós casa, quem a habita e frequenta pode fazê-la ruir.
Eu sentia-me um sem-abrigo nisto do amor-próprio e fiz casa muito cedo no outro. Eu era só a poltrona ao fundo da sala, junto à janela. O outro, a casa que me sustentava. Os pilares seguros por suposições criadas por mim e pela minha adolescência, hormonas, e invisibilidade entre os meus pares.
Isto de fazer casa no outro nem sempre corre de forma trágica, ainda que, mais cedo ou mais tarde, tenhamos que nos aperceber que temos de arranjar a nossa própria casa cujos alicerces afinal só podemos ser nós. No entanto, vai sempre ser trágico e brutalmente devastador se em quem fazemos casa não nos cuida do emocional com carinho e adoração e nos deita a casa abaixo.
Eu já aprendi há muito tempo, mas o próprio tempo o confirma, que não deixamos de amar. Ou aliás, que deixarmos ou não deixarmos não só não depende de nós, como nem nos devemos dedicar a essa luta.
Não é deixar de amar – é deixar de habitar. Não é deixar de amar, é mudar de morada. Não é deixar de amar – é perceber que esse amor só causa dor e instabilidade dentro e em redor de nós de cada vez que se materializa. Não é deixar de amar, mas perceber que viver esse amor dói mais do que sara. Depende de nós sim, saber quando nos retirar – sempre.
Tenho uma família nuclear pequena e ao mesmo tempo tão grande – Sou eu e o meu gato. Sendo eu toda uma casa. Decorada ao meu gosto. Onde me sinto quente e protegida. Onde posso sempre ser eu se souber deixar entrar as pessoas certas – que me aceitam séria e me aceitam pateta, que me aceitam a rir e a chorar. Que me aceitam nos bons e nos maus momentos, que aceitam a minha arte, que se orgulham de mim, me admiram, e me querem perto sem esperar nada em troca senão um abraço sincero.
Haja luz, e energias de conforto e calor, como um colo ou a lareira acesa.
A casa é isto e se voltar a ruir? Eu reconstruo.

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