sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Maria Julieta


- Estou a ouvir as ondas do mar por cima do nosso tecto, ouve-las? Será que o mar invadiu a terra? Por favor, corre a ver à janela. Vai ver se ainda lá temos o carro. Tenho tão boas recordações nossas dentro dele. Lembras-te da nossa primeira viagem?
- O mar invadiu a terra e tu só te preocupas com o carro? Não queres saber se os teus filhos estão bem?
- Os nossos filhos estão em casa. O mar não passa por debaixo da porta nem das janelas. A nossa casa é indestrutível.
- Enganas-te.
- E se não perdêssemos tempo e fôssemos ver?
 Maria Julieta foi o nome que o pai escolhera para ela. Ela pedia todas as noites que ele lhe contasse uma história, então ele ia sentar-se ao piano e começava a improvisar. Todos os dias era uma história diferente. Maria Julieta não podia prever o que dali ia sair. Enquanto as outras crianças tinham de se contentar com as mesmas histórias de sempre, que já as sabiam de cor, Maria Julieta pôde conhecer centenas de histórias, cada uma sempre diferente da outra cujo fim sempre desconhecia. Às vezes era trágico, mas bonito, como a força do mar contra as rochas. Outras vezes era doce, como o nascer das flores junto às estradas com o começar das primaveras. O pai levava-a a viajar aos mais diversos países, percorrendo glaciares e desertos, cidades inundadas de carros e gentes ou então pequenas falésias perdidas, enquanto manobrava artisticamente as oito notas musicais, umas vezes maiores, outras vezes menores, piano acima, piano abaixo. Era uma menina privilegiada. Talvez por isso crescera com ela o sonho e o mundo fantástico não a deixou mais. Habitava outra realidade paralela à dos outros, realidade essa que a salvava de alguns desamores, nomeadamente, o falecimento do pai aos seus 10 anos de idade. Desde aí, Maria Julieta mudou de morada e criou um mundo só dela onde tinha quase tudo - menos o pai. Reencontrou-o anos mais tarde no homem com quem hoje compartilha casa, um tecto, um chão, ou então só a cafeteira italiana onde os dois fazem o seu café da manhã. Já não sei bem o que partilham e não partilham, eu, mera espectadora das janelas dos outros pelos caminhos por onde passo durante o dia, mas ela também não o sabe, imbuída nesse mundo de sonho e ilusão onde esquece a realidade e nem percebe. Onde se esquece dos filhos e da casa, da sopa ao lume, do ferro ligado, da chave na porta e adormece de cigarro na mão. Ele salvou-a durante anos e depois cansou-se. Mas como é que se deixa esta mulher ao abandono? -Perguntava-se, dias depois, a si e às paredes, no quarto de hotel junto à janela enquanto observava o rio.
- Pois, não sei. - Responde-lhe Rita, ainda que a pergunta não lhe fosse dirigida.
- Quem é?
- Quem?
- A Rita.
- É uma colega do trabalho.
- Ah, porque não a convidas para vir jantar também um dia destes?
- A este caos que tu criaste a que chamas de casa?
- Eu vou desfazer a tenda. É só mais uns dias.
- Maria Julieta eu-estou-cansado-de-ti.
- Estás o quê?
- CANSADO-DE-TI. NÃO AGUENTO MAIS.
Maria Julieta fez silêncio, o que é coisa rara de acontecer, e foi recolher-se no quarto enquanto ele ficou a dar voltas na cozinha. Arrependeu-se depressa. Não queria ser o causador da morte da mulher. Vai ao quarto.
- Tinhas razão. - diz Maria Julieta, sentada no soalho de madeira a desfazer-se, humedecido, inundado por um mar gigante, só que só na cabeça dela.
- Como?
- O mar.
- Mas que mar?
- O mar passou pelas portas e pelas janelas. Destruiu-nos a casa. Afogou-me o canto. E agora Jorge? E agora?
- És tu que te afogas, Maria Julieta. Não é o mar. Não são os bichos na tua cabeça. És tu. Mas eu já não consigo salvar-te. Eu já não te consigo levantar. Estás completamente morta. E eu estou cansado. Perdi as forças. Tu fechaste a porta do teu mundo e não deixas ninguém entrar. Não me deixas resgatar-te. Já não te devolvo à terra, nem aos nossos sonhos, nem aos nossos filhos. Nem nada disto é real. Tudo morreu. Essa bolha de onde vives é só tua e nós somos meros escravos à tua serventia. Vives dentro desse mundo mas nós não o alcançamos. Eu não sei lá chegar. Eu não sei onde é que isso fica.
- Enganas-te. Desistente de merda.
- Olha a língua.
- Não te armes em autoritário.
- Não tenho a tua idade, Maria Julieta.
Isso não deveria ser relevante… Onde está o meu pai?
- O teu pai morreu. E eu não sou o teu pai. Não posso mais ser o teu pai.
- Preciso tomar um banho.
Maria Julieta desceu as escadas, colocou o disco do pai a tocar ao fundo, ligou a torneira da água quente e deixou a banheira encher. Lá ficou, com os seus pensamentos, até que a água esfriasse e o seu corpo se enrugasse. Não havia muito mais a fazer, refletia. Se ele não a compreendia então mais ninguém no mundo a ia compreender. O mar tem muita força e ela também nunca pertenceu a nada. Também nunca fora de lado nenhum. A água quase chegava ao tecto, até que chegou. Então, Maria Julieta subiu ao colo do pai, que a abraçou, e começou a tocar para ela.
Num instante, adormeceu.





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