Domingos.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Domingos.
Às vezes tenho a sensação de que passaram muitos anos. Sinceramente muitos anos. Tantos anos que às vezes me sinto já no fim da vida, tranquilamente. Em paz. Descansada, reflito de vez em quando, sem medos, que tudo já foi feito, ainda que isso não corresponda à verdade. Fico com aquela sensação de fim de ciclo, como quando termina uma época festiva. Mas sem angústia. No entanto hoje ouvi alguém chorar com saudades do marido e assim de repente deu-se-me um aperto no peito como se eu soubesse exatamente o que aquilo era, e já tivessem passado imensos anos, e eu tivesse que deixar guardado numa gaveta toda uma vida a dois. E no entanto nada disto aconteceu. Mas hoje é domingo. Eu também tenho saudades do meu marido com quem estive a vida toda - se calhar estive, só que dentro de mim. E se calhar toda a vida foi aquele instante.
Domingos.
Domingos.
Último Acto
Estou cansada deste texto,
Recorrente, batido.
A rotina do costume....
Os olhares impenetráveis, distantes.
Como os pés.
Silêncios sem corpo.
A ausência gritante que se ignora um tempo.
Cometem-se uns crimes connosco próprios.
Eu senti um perfume novo, os olhares eram mais doces.
Existe magia e música a prender-me ao chão.
Sempre fugi só porque quis
Mas permanecem rotinas.
As fotografias distantes, frias,
Como os pés.
Palavras sem emoção.
Contam-se piadas que já não se acham graças.
Ergo com a pouca força que tenho as cortinas do palco que se fecham por cima de mim,
Os braços sem força.
Há ainda toda uma multidão que espera por um próximo acto.
Que espera o regresso do artista ao palco.
Vivo na peça, o último acto, criado por mim.
Há ainda um público que espera calor cá em cima.
As cortinas estão fechadas ainda que eu esteja por detrás delas vestida de vida,
Ainda que eu esteja por detrás delas toda vestida de amor,
Ainda que por trás de mim esteja todo um grandioso cenário montado.
Ainda que tudo esteja preparado para mais um acto.
Está sempre tudo pronto a recomeçar.
Mas as cortinas não sobem.
O público levanta-se e eu desço do palco, e de mim.
Jan/2017
Recorrente, batido.
A rotina do costume....
Os olhares impenetráveis, distantes.
Como os pés.
Silêncios sem corpo.
A ausência gritante que se ignora um tempo.
Cometem-se uns crimes connosco próprios.
Eu senti um perfume novo, os olhares eram mais doces.
Existe magia e música a prender-me ao chão.
Sempre fugi só porque quis
Mas permanecem rotinas.
As fotografias distantes, frias,
Como os pés.
Palavras sem emoção.
Contam-se piadas que já não se acham graças.
Ergo com a pouca força que tenho as cortinas do palco que se fecham por cima de mim,
Os braços sem força.
Há ainda toda uma multidão que espera por um próximo acto.
Que espera o regresso do artista ao palco.
Vivo na peça, o último acto, criado por mim.
Há ainda um público que espera calor cá em cima.
As cortinas estão fechadas ainda que eu esteja por detrás delas vestida de vida,
Ainda que eu esteja por detrás delas toda vestida de amor,
Ainda que por trás de mim esteja todo um grandioso cenário montado.
Ainda que tudo esteja preparado para mais um acto.
Está sempre tudo pronto a recomeçar.
Mas as cortinas não sobem.
O público levanta-se e eu desço do palco, e de mim.
Jan/2017
Psic(análises)
Uma vez estava num café a ter uma explicação de contabilidade e estava sentada ao meu lado uma senhora visualmente simpática. Tinha um ar distinto (distinto é uma das minhas palavras favoritas), reservado e atento ao que fazia. Aproximou-se um senhor, que era estrangeiro, e perguntou-lhe em inglês se ela era escritora com o entusiasmo próprio de quem não está a contracenar com a rotina. Ela respondeu que não e revelou logo a seguir a sua profissão com uma pergunta:
- O que o... levou a pensar isso?
- Está a escrever ao computador, sozinha, num café…
- Sou psicanalista.
- O que o... levou a pensar isso?
- Está a escrever ao computador, sozinha, num café…
- Sou psicanalista.
Maria Julieta
- Estou a ouvir as ondas do mar por cima do nosso tecto, ouve-las? Será que o mar invadiu a terra? Por favor, corre a ver à janela. Vai ver se ainda lá temos o carro. Tenho tão boas recordações nossas dentro dele. Lembras-te da nossa primeira viagem?
- O mar invadiu a terra e tu só te preocupas com o carro? Não queres saber se os teus filhos estão bem?
- Os nossos filhos estão em casa. O mar não passa por debaixo da porta nem das janelas. A nossa casa é indestrutível.
- Enganas-te.
- E se não perdêssemos tempo e fôssemos ver?
Maria Julieta foi o nome que o pai escolhera para ela. Ela pedia todas as noites que ele lhe contasse uma história, então ele ia sentar-se ao piano e começava a improvisar. Todos os dias era uma história diferente. Maria Julieta não podia prever o que dali ia sair. Enquanto as outras crianças tinham de se contentar com as mesmas histórias de sempre, que já as sabiam de cor, Maria Julieta pôde conhecer centenas de histórias, cada uma sempre diferente da outra cujo fim sempre desconhecia. Às vezes era trágico, mas bonito, como a força do mar contra as rochas. Outras vezes era doce, como o nascer das flores junto às estradas com o começar das primaveras. O pai levava-a a viajar aos mais diversos países, percorrendo glaciares e desertos, cidades inundadas de carros e gentes ou então pequenas falésias perdidas, enquanto manobrava artisticamente as oito notas musicais, umas vezes maiores, outras vezes menores, piano acima, piano abaixo. Era uma menina privilegiada. Talvez por isso crescera com ela o sonho e o mundo fantástico não a deixou mais. Habitava outra realidade paralela à dos outros, realidade essa que a salvava de alguns desamores, nomeadamente, o falecimento do pai aos seus 10 anos de idade. Desde aí, Maria Julieta mudou de morada e criou um mundo só dela onde tinha quase tudo - menos o pai. Reencontrou-o anos mais tarde no homem com quem hoje compartilha casa, um tecto, um chão, ou então só a cafeteira italiana onde os dois fazem o seu café da manhã. Já não sei bem o que partilham e não partilham, eu, mera espectadora das janelas dos outros pelos caminhos por onde passo durante o dia, mas ela também não o sabe, imbuída nesse mundo de sonho e ilusão onde esquece a realidade e nem percebe. Onde se esquece dos filhos e da casa, da sopa ao lume, do ferro ligado, da chave na porta e adormece de cigarro na mão. Ele salvou-a durante anos e depois cansou-se. Mas como é que se deixa esta mulher ao abandono? -Perguntava-se, dias depois, a si e às paredes, no quarto de hotel junto à janela enquanto observava o rio.
- Pois, não sei. - Responde-lhe Rita, ainda que a pergunta não lhe fosse dirigida.
- Quem é?
- Quem?
- A Rita.
- É uma colega do trabalho.
- Ah, porque não a convidas para vir jantar também um dia destes?
- A este caos que tu criaste a que chamas de casa?
- Eu vou desfazer a tenda. É só mais uns dias.
- Maria Julieta eu-estou-cansado-de-ti.
- Estás o quê?
- CANSADO-DE-TI. NÃO AGUENTO MAIS.
Maria Julieta fez silêncio, o que é coisa rara de acontecer, e foi recolher-se no quarto enquanto ele ficou a dar voltas na cozinha. Arrependeu-se depressa. Não queria ser o causador da morte da mulher. Vai ao quarto.
- Tinhas razão. - diz Maria Julieta, sentada no soalho de madeira a desfazer-se, humedecido, inundado por um mar gigante, só que só na cabeça dela.
- Como?
- O mar.
- Mas que mar?
- O mar passou pelas portas e pelas janelas. Destruiu-nos a casa. Afogou-me o canto. E agora Jorge? E agora?
- És tu que te afogas, Maria Julieta. Não é o mar. Não são os bichos na tua cabeça. És tu. Mas eu já não consigo salvar-te. Eu já não te consigo levantar. Estás completamente morta. E eu estou cansado. Perdi as forças. Tu fechaste a porta do teu mundo e não deixas ninguém entrar. Não me deixas resgatar-te. Já não te devolvo à terra, nem aos nossos sonhos, nem aos nossos filhos. Nem nada disto é real. Tudo morreu. Essa bolha de onde vives é só tua e nós somos meros escravos à tua serventia. Vives dentro desse mundo mas nós não o alcançamos. Eu não sei lá chegar. Eu não sei onde é que isso fica.
- Enganas-te. Desistente de merda.
- Olha a língua.
- Não te armes em autoritário.
- Não tenho a tua idade, Maria Julieta.
Isso não deveria ser relevante… Onde está o meu pai?
- O teu pai morreu. E eu não sou o teu pai. Não posso mais ser o teu pai.
- Preciso tomar um banho.
Maria Julieta desceu as escadas, colocou o disco do pai a tocar ao fundo, ligou a torneira da água quente e deixou a banheira encher. Lá ficou, com os seus pensamentos, até que a água esfriasse e o seu corpo se enrugasse. Não havia muito mais a fazer, refletia. Se ele não a compreendia então mais ninguém no mundo a ia compreender. O mar tem muita força e ela também nunca pertenceu a nada. Também nunca fora de lado nenhum. A água quase chegava ao tecto, até que chegou. Então, Maria Julieta subiu ao colo do pai, que a abraçou, e começou a tocar para ela.
Num instante, adormeceu.
Nostalgia
Crescer traz-nos abraços à nostalgia de forma mais carinhosa. Nomeadamente, os Açores. Foi uma sucessão de acontecimentos. Reencontros propositados e outros ao acaso. Encontrei na semana passada dois colegas e amigos dos tempos de liceu (São Miguel), dias depois de ter recebido umas fotografias enviadas “pelo amigo do amigo” daqueles tempos, e cresceu em mim qualquer coisa que não sentia aos anos, qualquer coisa como uma vontade de lá voltar e estarmos todos juntos. Às vezes ...reencontramos pessoas na rua e vamos com a pressa da vida sem vontade de parar e ficar à conversa: é natural. Naquele dia isso não aconteceu. Apetecia sentar no chão e ficar a falar por mais umas boas horas ou pudessem essas conversas realmente nos transportar para esse tempo que partilhámos juntos. Se calhar este ano vou curar um bocadinho a ferida que foi os Açores dentro de mim. Afinal, houve momentos bonitos.
[Menos seis graus centígrados abaixo do amor]
Hoje é o nosso não-aniversário.
Está frio lá fora.
Seis graus negativos abaixo do amor.
Há silêncios que se impõem para nos proteger mas esta ausência (de força) deixa-nos sem remos contra correntes bem mais estridentes que não se acanham em mostrar a dureza do que é [re]aprender a caminhar sozinho. De que vale sermos grandes se os silêncios nos fazem sentir tão pequeninos? De que vale o silêncio se por dentro o amor ainda nos grita?
Feliz não-aniversário.
No gelo.
Ao frio.
Está frio lá fora.
Seis graus negativos abaixo do amor.
Há silêncios que se impõem para nos proteger mas esta ausência (de força) deixa-nos sem remos contra correntes bem mais estridentes que não se acanham em mostrar a dureza do que é [re]aprender a caminhar sozinho. De que vale sermos grandes se os silêncios nos fazem sentir tão pequeninos? De que vale o silêncio se por dentro o amor ainda nos grita?
Feliz não-aniversário.
No gelo.
Ao frio.
Avó
Pudesse eu acolher todas as avós
Desde que perdi a minha...
(Não perdi)
Está num qualquer lugar e ao alcance da minha saudade.
Não me apego a todas as pessoas.
Não ligo a almoços de família, aos domingos, às festas.
Mas ela era diferente: Era artista no peito e na alma.
Cantava e queria ser livre, como eu.
Não foi artista e nunca foi livre.
Fecharam-lhe as portas dos palcos e mandaram-na ficar em casa,
Por amor.
Foi para a rua ensinar os meninos, nas salas-de-aula.
Teve seis filhas e aceitou todos os fados,
Assim como os cantou.
E certo dia, de frente para o cristo redentor, no Corcovado, entoou as suas preces numa oração que todos escutaram em silêncio, fazendo uma roda à sua volta, comtemplando e sentindo a sua devoção a cristo.
Foi a sua promessa.
A minha é escrever-te, avó.
Desde que perdi a minha...
(Não perdi)
Está num qualquer lugar e ao alcance da minha saudade.
Não me apego a todas as pessoas.
Não ligo a almoços de família, aos domingos, às festas.
Mas ela era diferente: Era artista no peito e na alma.
Cantava e queria ser livre, como eu.
Não foi artista e nunca foi livre.
Fecharam-lhe as portas dos palcos e mandaram-na ficar em casa,
Por amor.
Foi para a rua ensinar os meninos, nas salas-de-aula.
Teve seis filhas e aceitou todos os fados,
Assim como os cantou.
E certo dia, de frente para o cristo redentor, no Corcovado, entoou as suas preces numa oração que todos escutaram em silêncio, fazendo uma roda à sua volta, comtemplando e sentindo a sua devoção a cristo.
Foi a sua promessa.
A minha é escrever-te, avó.
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