segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Tragédimanche, Amor aos Domingos




Os domingos sempre me traem, como os sonhos. Existem circunstâncias que ainda saem do meu controlo. Quando assim o é, pela inutilidade de raciocinar porquês, para evitar desastres de responder a impulsos, durmo. Muito. É o meu dia de pausa. Como hoje que dormi todo o dia. Todo-o-dia. Quando acordo ou a vontade passa, ou dá-me pra escrever, ao mundo. Em dias de grande fragilidade só há uma primeira escolha. Querem saber quem amam? Aí têm. No chão, na morte, no medo, no medo da morte, quem é a primeira pessoa que vos vem à cabeça? É essa a pessoa. Em todo o caso, se teve que terminar, não pode haver amizade de dia a dia. Saber-se do outro. Eu, que tenho uma boa relação com todas as pessoas que passaram pela minha vida até hoje salvo raríssimas excepções - Foi preciso tempo. Depois depende das situações quanto tempo é preciso. Se ainda se ama, o que para mim nos términos só aconteceu uma vez, é preciso muito mais tempo. Tem que haver espaço - cortar-se uma rotina, se queremos preservar o que ficou.  Guardar num espaço bonito e optar por não destruir o que resta -resta sempre algo.
E nisto só uma coisa me aflige, já que falamos de Amor, além da minha idade que me repugna, à qual deposito parte das culpas, e não devia, que é a sensação de estar a perder dias e provavelmente anos. Dias e provavelmente anos sem ver crescer - crescemos a vida toda, mudamos, evoluímos - sentir que perco sinais nas costas, sorrisos, vitórias, um rosto que se vai modificando.  E já não temo as minhas mortes. Não me aflige fumar mais ou menos, correr riscos. A minha esperança média de vida é o amor que guardo dentro.  Não almejo viver muitos anos mas apenas quantos esteja o meu amor pelo mundo a Ser. E como diz Brel, que seja eu uma mera espectadora se a vida entender que eu não mereço perdão. Seja. Sem ela no peito, sou sem jeito, vagabunda, sem vida, 24h/dia todos os dias. Mas enquanto habita em mim e eu deixo de tentar abortar esse sentimento tão meu e tão intrínseco, sou feliz a maior parte do tempo. Tenho vontades, apetite, sou forte e sou capaz. Vou atrás. Quero viver. Depois há um dia de luto, um dia em que o morar no peito não chega e queremos o aconchego dos braços. Poder acariciar a pele, ver acordar e ver dormir. Ouvir respirar. Rir - E depois dormimos e passa.
Chamem-me louca -  A loucura é o refúgio mais bonito. Amar é bonito. Não tenho nada a perder. Amanhã é dia de voltar a lutar por todos os sonhos, ser maior e melhor. Evoluir, crescer, amadurecer.
E se a vida não trouxer o meu amor de volta? Fui feliz. Não há nada errado na espera - se não esperamos sentados, inúteis, e desistimos de nós.
É porque O meu Amor existe, que eu não desisto de mim.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vai ser sempre assim

[A todos os que amam pelos dois]

Às vezes nos dias mais difíceis tememos que estes se repitam por muitos mais, ao contrário do que desejamos às pessoas nos aniversários. Nestes dias parece que voltamos à estaca zero, que deixámos voar todo o trabalho de casa emocional que andámos a fazer até aqui quando já estava tudo tão bem encaminhado. Ainda ontem aprendemos acordes novos na guitarra; ainda ontem compusemos qualquer coisa de novo; ainda ontem fomos ver uma exposição; ao cinema; jantar fora; planeámos o próximo passo e não nos incomodou estar a sós em casa. Caramba, somos todos tão frágeis. Este mundo é tão injusto. Somos todos tão injustos. Eu quero falar das minhas dores mas também eu já magoei os outros. Aí calo-me a boca mas não é por isso que deixa de doer. Como é que se cura esta culpa? Repito-me em todos os textos. Como é que eu limpo esta culpa de dentro de mim?

Nos dias mais difíceis questiono, como todos nós em dias mais difíceis, como é que vamos seguir. Como é que a vida vai continuar a ser assim, a ter estes dias tão difíceis. Se desculpas não bastam então o que é que basta? Se silêncio não basta então o que é que basta? Se não prender não basta então o que é que basta? O que é que vai bastar? Que saída temos? Sermos nós mesmos e continuarmos aqui, rezando a todos os santinhos para que as nossas almas estejam a comunicar que se está aqui e que vai ser sempre assim, até o coração se abrir de novo? Evoluir, mudar, crescer, amadurecer e rezar novamente a todos os santinhos para que as almas estejam a comunicar que isto está a acontecer e que é melhor vir ver daqui a um ano ou dois?

Neste momento, expelindo aos poucos a nuvem negra cheia de chuva que se apoderou de mim, prestes a tempestear, voltarei a falar como já fiz noutros textos, no “amar pelos dois” de Salvador Sobral e porque é que se ama pelos dois. Eu respondo. Ama-se pelos dois porque, tão simplesmente, não dá para desamar. 

Ama-se pelos dois quando existe aquela pessoa com quem se vai casar ainda que nunca casemos com ela porque, se casarmos, será com ela. E se não for com ela, esse plano é descabido e não vai acontecer. Ama-se pelos dois quando existe essa pessoa por quem sabemos que damos a vida e doamos sem pensar uma vez um órgão do nosso corpo se preciso for. Ama-se pelos dois quando nos pedem silêncio  e era tão mais fácil mandar declarações diárias, falar de todas as vezes que bate aquela saudade de querer contar o que vimos, vivemos, observámos e aconteceu, chamar de volta, fazer birra, ouvir a voz. Amar pelos dois é vencer egoísmos e dar espaço mesmo que a nós nos tire espaço na caixa torácica para respirar e nos deixe em pedacinhos aí pelo mundo, e então engolimos em seco e silenciamos sem prazo correndo o risco de ser para a vida toda. Amar pelos dois é não admitir que ninguém fale mal do nosso amor depois que ele termine fisicamente. É não fomentar relações que o denigram. É não perder os vínculos com pessoas comuns. É continuar e evoluir sozinho na incerteza de que isso alguma vez será partilhado, ao invés de estagnar. É pertencer sem corpo. Ser fiel na alma. Desejar o melhor. [Voa, pássaro contente. Segue o teu caminho.]

Desculpas não bastam mas talvez um dia tudo isto baste. Talvez daqui a muitos anos. Talvez daqui a um ano. Talvez daqui a três. Talvez renasça uma amizade. E entretanto amamos pelos dois e talvez, talvez a vida nos desculpe, nos perdoe, nos mime. 

Se calhar vai ser sempre assim.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Edite


É sempre à mesma hora da madrugada que ela se despe toda e começa a partir tudo dentro de casa. O médico de Edite contou-lhe que é pior ter baixa que alta. Ela não ganha um tostão em acolhê-la, mas a coitada não tem quem cuide dela. Nem os filhos a visitam. Está só no mundo. A sua mãe chamou-a de Edite em homenagem a Piaf que lançava o seu primeiro êxito um ano antes de Edite nascer. Tiveram ambas um destino digno dos grandes artistas: trágico. 
Edite acabou por acolher também, durante sete anos,a vizinha de cima com quem não se dava, mas a senhora teve um AVC e ficou incapacitada. Edite cuida de todos os que ficam por aqui abandonados, isto inclui também o cão Barnabé e o Gato Matias. O marido deixou-a cedo, com três filhas para criar. Conheceu-o numa festa da aldeia enquanto ambos observavam a marcha e timidamente deram as mãos. Manuel era alto, usava bigode, tinha uns olhos marcantes bem como a sua postura. Assim que entrava em qualquer lado todos os olhos eram postos nele. Era um pingamor como os que vemos nos filmes e perdemos-lhe a conta às mulheres. Mas só casou com Edite. Deixou-a quatro anos depois de casados, três de namoro, todos bem atribulados. Sempre teve as suas amantes mas não deixava Edite. Até que deixou.
Edite cantava só à janela. Não teve a mesma sorte (traiçoeira) de Piaf mas sempre encantou os que passavam. Ia a Alfama todas as sextas feiras ouvir os fados. Chorava rios pelo marido que lhe desaparecera sem rasto, fugido para o sul de França. Seria de esperar. Assim que o prendessem ele não se ia aguentar por muito tempo e “muito tempo aguentou ele”, dizem as más-línguas. Nunca mais ninguém o viu. Nunca mais ele voltou. Era um homem de vícios e, em certo modo, também o era Edite. O seu vício era Manuel.
É sempre à mesma hora da madrugada e ela balbucia palavras soltas ligadas ao seu passado, sem nexo. Ou com o nexo dela. Edite questiona-se às vezes se só nos tornamos realmente lúcidos no ponto em que enlouquecemos, ou nos instantes que antecedem a nossa morte. Se só podemos ver com clareza quando rebentamos os fusíveis inúteis que iluminam sensos discutivelmente bons. Edite enlouqueceu por amor uma vez só e recorda-se bem: Caiu no chão e achou que ia morrer. Ali ficou até Isaltina a encontrar deitada, de pele rija de tanta lágrima salgada escorrida, olhos baços sem vida embora o coração batesse, e o corpo mais pesado que nunca. Foi a partir daí que Edite se sentiu a envelhecer. Tinha apenas 35 anos. As filhas notaram-lhe a tristeza nos olhos, independentemente das vezes que sorrisse a elas e lhes dissesse que aguentava bem o barco sozinha. Nunca chorava em frente a elas. No dia em que Manuel a deixou, as meninas estavam de férias com os avós na terra. Nunca mais viram o pai.
Edite gostava de pequenos detalhes, como uma bonita caligrafia ou o barulho do vento em noites silenciosas de janela aberta e nunca sentia frio. Era uma mulher quente.Às três da tarde bebia a sua amêndoa amarga na praça das flores e observava a juventude tão diferente dos seus dias.Mas não se queixa desta. Pelo contrário, “acha muito bem à evolução das coisas”, como costuma dizer. Edite espera o marido à janela como se ele tivesse só ido trabalhar de manhã. Todos os dias. 
Avó, porque dormes tu no sofá? 
Porque a cama é demasiado grande só para mim. Edite fez a cama quando Manuel se foi, de lavado, e nunca mais a desfez. Nunca mais lá se deitou. Um luto que dura há anos mas Edite é uma mulher que aprendeu a ser feliz.
Porque é que não voltaste a casar, como a mamã? 
Porque não voltei a amar outro homem. 
Ainda o amas avó? 
Sim.
É sempre à mesma hora da madrugada mas naquela a velhota não se mexeu. Não partiu tudo em seu redor. Pelo contrário, naquela noite, começou a arrumar tudo freneticamente. Diziam por lá que de enlouquecida tinha ganho poderes de vidente. Falou a noite toda “ele está a chegar, deixemos a casa pronta. Faça o comer Edite”. 
-Ele quem? 
Ele está a chegar. Faça o comer Edite. 
- Estás louca mulher. Vai dormir que é tarde. 
Ele está a chegar. 
Edite deixou de lhe prestar atenção. Nessa noite não teve que a trancar no quarto como era obrigada a fazer por esta lhe começar a partir tudo quanto via pela frente. Conseguiu dormir cinco horas o que para Edite era já uma noite bem dormida. 
No dia seguinte, de manhã, parecia verão. Estava sol, as crianças brincavam na rua. Um senhor consertava para a filha um berço de madeira. Os cães à solta lutavam por um pedaço de carne, e eu observava as vidas e fumava o meu cigarro sentada no degrau. As pessoas cumprimentavam-se. Subiam e desciam. A vida passava de sacos na mão, bengalas, mochilas, trelas, crianças de colo. Gritava-se e jogava-se à macaca. Até que, de repente, fez-se silêncio. Eu nem dei por nada até que dei. Até que percebi que já não se ouvia nada. Nem os pássaros. Nem sequer o serrote contra o berço de madeira. Nem tão pouco os cães, que até mesmo estes pareciamrespeitar tal figura estranha ao bairro que subia a rua e se aproximava devagarinho de todos nós e impunha um respeito, um silêncio, uma atenção de todos, um espanto comum, um choque geral, qualquer coisa que também a mim me contagiou e me deixou, assim, atenta, de cigarro na mão a apagar-se sozinho. “Manuel” murmurou o senhorde serrote na mão, ao vento. Nisto sai edite de casa pronta para ir ao café, como se nada fosse, como se nada se passasse, como se o mundo não estivesse todo parado a contemplar a chegada daquele fantasma do tempo. 
- Edite. 
Olharam-se, ela parou. E agora estávamos todos naquela rua parados. Agora tudo estava religiosamente em silêncio. Não se ouvia um ai que fosse. Eu achei que o mundo fosse parar para sempre. Que fosse aquilo o fim de uma história e agora ficávamos todos assim em pausa. Havia uma tensão no ar. Aqueles dois corpos explodiam energias um contra o outro e no entanto silêncio. Nem uma palavra. Nem um sorriso. Nem um pestanejar. Nem uma expressão no rosto. Ninguém se atrevia a mexer. Pensei que não íamos nunca sair daquele instante de tempo. Que ficássemos colados ao chão. Depois pensei que naturalmente Edite lhe fosse cair nos braços e chorar por todos os anos que conteve as lágrimas, depreendi entretanto que se tratava de Manuel, o ex Maridodesaparecido, fugido. Depois comecei a desconfiar que o ia agredir com todas as forças que tinha e não tinha, com a mala pesada que tinha na mão e cada anel que tinha nos dedos, vincar-lhe as unhas na pele e acabar-lhe com a espécie e nisto, com uma expressão morta, tão vazia, tão perdida de sonhos, Edite sem desviar o olhar diz:
- É tarde demais. – e seguiu para o café, à hora do costume, como fazia sempre, em passo vagaroso, tranquila.
A rua continuou, com alguma dificuldade, gradualmente, à rotina de antes. Sem saber bem como reagir, sem saber bem se ir atrás de Manuel se atrás de Edite, se juntar os dois se deixá-los a sós. Manuel virou costas. Mais tarde avistei Edite regressar a casa do café. Não voltei a ver Manuel. Também não voltei a ver Edite. 

No dia seguinte, ela não acordou.