O telefone toca e limpam-se as lágrimas.
Contamos até dez. Respiramos bem fundo.
Engolimos soluços.
Ninguém sabe o que és por detrás da porta do quarto.
- Ninguém sabe quem és.
Vês no espelho uma imagem que já não é tua.
Foi-te roubada pela falta de ingenuidade.
Pela frieza das palavras.
Pelos silêncios gritantes.
Contas dez vezes mais.
Contas cem vezes mais.
Contas mil vezes mais.
Calas.
Calas a dor.
Tapas-lhe a boca.
Ordenas que te deixe em paz.
Mais um comprimido só para não ser tão duro.
É só às vezes.
Quando é que foi a última vez que foste feliz?
Quem é que te lê, quem é que te ouve?
És farça social.
Monólogo de actuações sem público.
O mundo não faz parte de ti.
Tu não és parte do mundo.
Quando tentas falar, não te saem as palavras.
Não te saem as palavras certas.
Não sabes justificar a tua própria dor.
Já nem sabes de onde vem.
Anestesia.
Apatia.
A dor instalou-se e fez de casa às lágrimas que secaram.
O corpo adormeceu.
"Estou bem, e tu?"
Fechas os olhos -Esperas não acordar.

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