Mãe,
Hoje preciso de ti.
Se calhar vais estar num daqueles dias bons em que me ouves e me falas durante horas.
Se calhar não, mas refugio-me à mesma em ti, arranjo manerias. Sempre o faço.
Qualquer dependência é de pendência.
Estou pendente.
Estou pendente de tudo e todos os que me movem em sentido oposto ao meu chão.
Por isso não digo mais “vou andando”, flutua-se sem jeito. Rasteja-se, às vezes.
E eu sou tão dependente das coisas.
Sou tão dependente de ti, embora não o mereças sempre.
Embora não o mereças.
Ninguém merece ser a nossa dependência.
Ninguém merece estar pendente.
Sei que as minhas actuações não são de todo saudáveis.
Tudo em meu redor, é doentio e lentamente me esquarteja qualquer sentido de racionalidade que tente atingir.
Tento-o diariamente.
Vivo em espiral mas não lhe sei o fim.
Digo-me racional mas não - Faço-me.
Caminho só.
Não me adapto a mim - Fujo-me, procuro-me incessantemente.
Acabo nos braços de alguém - Mesmo que não seja real, sonho-o.
Afinal não sei onde começa a minha razão, e onde acaba a minha emoção.
Acho que as misturo e cozinho asneiras atrás de asneiras.
Eu sei, começo a perder os argumentos.
Sim, eu também não te mereço.
Talvez eu não mereça, na verdade, mulher alguma.
As que me amam, perdem.
As que eu amo, perdem.
E eu perco-me nisto.
Perdemos todos, sei lá. Perdemos tempo, perdemos paciência, perdemos amor – É que eu não sei fazer ganhar nada. Não é de mim essa capacidade de engrandecer, só estrago.
Às vezes sinto tanto a sua falta, sabes? Deixa-me dizer-to, porque preciso que me digas que tenho que sentir só falta de mim,
Para me encontrar.
E aí recomeço a procura, e pode ser que desta vez...
Na realidade tudo isto que me falta é um pouco a falta que eu sinto de ti.
Mãe,
Eu hoje preciso ouvir os teus inúmeros exemplos de vida, de ti e dos outros, e até os repetidos, que me fazem sentir um pouco menos só.
Ouvir-te até deixar de te ouvir.
Podes até falar da religião e invocar o teu Deus, que tu julgas ser nosso.
Hoje não me vou opor àquilo que pensas ser verdade.
Para o fazer, terei de ter resposta para o que é verdade em mim, e eu, não tenho verdade.
Tão pouco sei da minha existência senão quando dói.
E apesar de todos os nossos mal-entendidos és a minha única certeza.
É que mesmo no dia em que te fores, serás mãe para sempre.
Então és o meu para sempre.
E hoje, eu preciso do para sempre - Daquilo que fica.
Preciso sentir que algo resta.
Aquilo que fica mesmo quando erro - e tenho tanto por errar, porque eu não sei viver senão em erro.
Eu não sei senão experimentar os meus riscos, queimar-me na minha real-idade,
Que eu nego, e nego, e nego outra vez.
Não quero nada disto - mas fantasio, dou-lhe cor.
Ando em preto mas visto-me de azul, para ofuscar a dor.
Se eu pudesse ao menos ser mais feliz, quando feliz, do que sou triste, quando triste.
Poder balancear-me, e acertar-me, como as balanças ou os relógios.
Sou um relógio parado.
A hora passa por mim, e eu sou certa durante 60 segundos, duas vezes ao dia.
Talvez eu consiga superar esta dor, este vazio, esta falta de alguém que só tu podes, temporariamente nestes períodos de dor, de vazio, de falta, quase substituir.
Talvez porque tu, sendo certeza, sejas o oposto da dúvida, da exclamação que é o meu coração.
Então, liga-me e vamos falar.
Passar tempo até eu me esquecer de mim,
Para depois recomeçar a encontrar-me, mais uma vez.
Este relógio que sou eu, sempre fora de tempo.
Mãe
Acho que hoje estou a precisar de ti.