Consegui ver a tua essência antes que criasses essa personagem que te reveste a pele - Quando eras tu no começo de tudo. Quando eras tu despida de outro tipo de preconceito - aquele que tens de ti mesma, aquilo que és debaixo dos trapos e que escondes nas paredes do teu quarto.
A religiosidade que ainda te reveste a alma e o corpo.
Os costumes que te são tão próprios e naturais mas que não se coadunam com a realidade em que te inseriste propositadamente com desespero de fuga - e foges do quê?
Foges de ti.
Depois encarnas essa postura de revolta social, ainda assim não te falta absolutamente nada,
Excepto algum tipo de amor.
Excepto amares-te - estás perdida entre o certo e o errado.
E parece-te saír da pele esse grito que rejeita as origens - mas sentes falta de algo mais que só as origens te dão.
Só as origens te dão - vais lá chegar.
Vives em palco - todos os dias -Tu és o palco - Em cada passo que dás.
E não és feliz e leio-te o choro na diagonal dos teus textos.
Porém quando os nossos olhares se cruzam nas ruas há sempre um olhar teu ridiculamente meigo e uma pena de mim, que a sinto, e a detesto solenemente.
É que eu e tu vivemos e sentimos o mesmo - eu só não me dou às tuas gentes. Eu só não faço espectáculo para inglês ver. Eu dou-me às almas inteira de mim, sem merdas.
Eu só não finjo ser.
E tu perdes ao amor porque te descobrem uma verdade dissonante que não soubeste mostrar no momento certo. Que não soubeste mostrar, ponto. Foi uma porta que deixaste entreaberta por puro esquecimento e na hora do amor onde nos perdemos tudo é mais cedo ou mais tarde revelado.
E a timidez vem disso. A insegurança que ainda se sente nos teus lábios, no gesticular dos teus membros e na forma como cruzas a perna a ler numa esplanada da avenida.
E eu vejo-te ainda a vulnerabilidade de ser tão só entre os teus.
De ser sempre só, em tudo.
E vejo o que essas gentes não vêem, essas gentes que te rodeiam de festas e cravos.
Tu não és cravo, nunca foste.
És rosa.
E tens medo.
Tens medo do que sou e do que te digo com os olhos.
Tens medo porque sabes que eu sei quem és.
Debaixo dos trapos.
Debaixo de [um outro] Ti.
- Por dentro.

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