sábado, 23 de abril de 2016

Silêncio!

Silêncio!
Que se vai cantar o fado.
Que se vai cantar o teu fado.
O teu fado que não é o meu.
O teu fado que não sou eu.
Silêncio!
Que se vão cantar distâncias.
Que se vão cantar promessas que não se cumprem por esquecimento.
Que não se cumprem por falta de tempo.
Silêncio!
Que se vão cantar lamentos.
Impedimentos.
E os teus mais sinceros sentimentos.
Silêncio!
Que se vão cantar - silêncios.
Que te incomodam os barulhos.
As palavras.
O meu corpo.
Silêncio!
Que se vão cantar egoísmos.
Que se vão cantar ordens.
Que se vão cantar desordens.
Que se vão cantar despedidas.
Que se vão cantar desvios.
Que se vão cantar vazios.
Que se vai cantar o fim.

Silêncio!
Que se vai cantar o fado.
O fado que morre em mim.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Secam-se as lágrimas

O telefone toca e limpam-se as lágrimas.
Contamos até dez. Respiramos bem fundo.
Engolimos soluços.
Ninguém sabe o que és por detrás da porta do quarto.
- Ninguém sabe quem és.
Vês no espelho uma imagem que já não é tua.
Foi-te roubada pela falta de ingenuidade.
Pela frieza das palavras.
Pelos silêncios gritantes.
Contas dez vezes mais.
Contas cem vezes mais.
Contas mil vezes mais.
Calas.
Calas a dor.
Tapas-lhe a boca.
Ordenas que te deixe em paz.
Mais um comprimido só para não ser tão duro.
É só às vezes.
Quando é que foi a última vez que foste feliz?
Quem é que te lê, quem é que te ouve?
És farça social.
Monólogo de actuações sem público.
O mundo não faz parte de ti.
Tu não és parte do mundo.
Quando tentas falar, não te saem as palavras.
Não te saem as palavras certas.
Não sabes justificar a tua própria dor.
Já nem sabes de onde vem.
Anestesia.
Apatia.
A dor instalou-se e fez de casa às lágrimas que  secaram.
O corpo adormeceu.
"Estou bem, e tu?"
Fechas os olhos  -Esperas não acordar.