sábado, 30 de setembro de 2017

A Viagem

- Aqui está.
- Desculpe? -  perguntei, indignada e confusa.
- Estava a falar da sua ex-mulher.
- Não lhe falava de coisa nenhuma!
- A senhora estava a falar enquanto dormia.
- E que dizia eu? 
- Não consegui entender, mas posso senti-la aqui nos seus ombros. Era dela que falava, pude perceber. Está muito tensa...
Os meus ombros estalavam a cada passagem dos seus dedos e desde que tomei consciência de que eras tu que ali te encontravas alojada, debaixo da minha pele, gradualmente eles enrijavam pelo desconforto de te saber tão mal instalada. Achei que fosse virar pedra.
- Consegue tirá-la daí?
- Não sou exorcista.
- Não posso viver com esse peso. O que me aconselha?
- Desculpe a indiscrição, era um grande amor?
- É.  
Depois de 50 minutos de massagem as minhas costas não estavam totalmente recuperadas. Carrego um constante sentimento de culpa dentro de mim, sou assim desde criança. Esqueci o teu casaco em casa e não o devolvi. Estava escondido junto com os meus. Massacro-me em considerações; terá sido inconscientemente propositado para te manter perto? Eu realmente nunca mais me lembrei do casaco até há dias olhar para aquele canto da casa e reparar que ele estava ali. Tirei-o com muito cuidado como se pegasse em ti. Abracei-o junto a mim, procurei-te nele. Não estavas lá. Nem tu nem o teu cheiro. Dobrei-o e guardei-o. Respirei fundo e voltei à rotina.
- E o que deixou ela consigo?
- Sabe… - comecei, saltando a pergunta, enquanto ela, de pé não muito longe de mim, me escutava em silêncio  - sabe eu pensei que desta vez que, naturalmente, como tudo acaba, não acaba? … e, tendo eu me apaixonado por outra mulher, este destino fatal de lhe pertencer irremediavelmente na alma ia virar pó como tudo o que arde. Não posso falar por ela, não ousarei mais fazê-lo. Mas posso falar-lhe de mim. Em mim, por ela, tudo arde. Nada é pequeno ou de pouca intensidade. Quando a reencontrei, eu tinha um medo louco de usar as palavras. De me dar demasiado. De dar um passo maior que o seu coração. Foi acertado, fui deixada. Depois a vida lá nos reaproximou, outra vez, e eu decidi que ia viver intensamente sem olhar às consequências. Foi acertado também. Mas os tempos nunca eram os certos. Estávamos sempre em contratempos e distâncias. Se uma queria tentar algo sério a outra estava só de passagem. As coisas não eram fáceis, as circunstâncias não eram as melhores. Eu fazia as crises próprias da idade, de uma relação à distância, incerta, sem tecto. Duas pessoas a recomeçar a vida. A idade faz diferença quando estamos em inícios de carreira e construção de identidades. Quando estamos no começo de tudo. Quando ainda não nos estabilizámos. Quando optamos por recomeçar a vida do zero. E quando o tempo poderia começar, talvez, a fazer mais sentido, e as condições pareciam melhorar, apaixono-me por outra mulher.
- Vire-se de frente. Caiu?
- De joelhos.
- Grandes nódoas negras… 
- Precisamente. 
Fez-se um silêncio mútuo. Aproximou-se dos meus joelhos e gentilmente massajou as minhas nódoas negras, fazendo movimentos circulares com a ponta dos dedos.
- Estou constantemente a tropeçar e a bater em todo o lado. – recomeço, enquanto observo o tecto imaculadamente branco, contrário à minha pele morena, fria e ferida, repleta de nódoas negras - Será que podemos habitar para sempre em alguém que não faz de nós casa? Repare, eu deixei de precisar da presença dos outros. Essa necessidade de estar numa relação, de procurar um outro, de estar acompanhado. Prefiro-me só. Sou feliz comigo e não me quero dar a outro corpo ao qual não pertenço; sou eu a tentar fazer morada numa casa onde não tenho os meus pertences e não reconheço nada. O corpo e o cheiro é uma coisa que não se empresta, nem se vende, nem se dá quando é a alma que está no comando, quando é de amor que falamos. No entanto este ser-se só é falso; desde que os nossos corpos se uniram, e gradualmente, como as sementes crescem e brotam, ficou um pouco dela em mim. Portanto não sou só. Eu não ando por aí triste sem ela porque na realidade eu nunca a perdi. Ela está nas palavras e nos livros, no arranhar dos céus dos edifícios e os detalhes que se escondem da vista de todos nós, que caminhamos frequentemente cabisbaixos do cansaço do dia – esboço o primeiro sorriso do dia, recordo-me do seu caminhar - mas ela olha para cima, observa, interage, dança com as ruas. Eu não deixei de viver, tenho objectivos e planos, tenho vontades, tenho o que dela ficou em mim e o que tenho de mim que já era meu. Às vezes sinto-me errante por mesmo na distância e no silêncio fazer dela casa e pertencer-lhe sabendo que não é essa a sua vontade. Se pudesse escolher escolheria outro caminho. Quantas vezes tentei? Não é algo que escolhamos. Ensinou-me que estas coisas não se escolhem mas aos 20 aprendemos só com as nossas quedas e não com as quedas de quem já caiu uma vida inteira e sabe melhor que nós. Eu poderia ter aproveitado, visto a oportunidade de crescer ao lado dela mas se a vida nos facilitasse o caminho talvez não criássemos arte. Há caminhos que temos que fazer por nós próprios, há ensinamentos que só aprendemos quando somos deixados ao relento para experimentar o voo a sós, pelas nossas próprias asas. Ela deixou comigo as ferramentas e os ensinamentos, o carácter e as lembranças de quem sabe estar e ser e eu retenho isso na retina que olha o mundo hoje de forma diferente. Quando ela foi não deixou só a mala de viagem no canto da sala, ela deixou uma mala com uma viagem dentro de mim. Tenho vindo a abri-la aos poucos. Sabe, foi difícil ouvir tudo no fim. A mala que ela me deixou, dentro de mim, não é uma viagem passada, é a minha viagem para o futuro. 
- Você devia fazer análises. Está muito magra e pálida. Sinto-lhe os ossos. Quanto pesa?
- Agora? 47. – Disponho os braços ao longo do corpo caídos nas ancas cujos ossos visíveis os sustêm. 
- Não tem medo?
- Não. De quê? Cada vez menos, no geral. Já fiz análises. Não tenho nada. A minha ansiedade é outra. Sinto tédio e um aborrecimento imenso, tantas vezes. Ao mesmo tempo uma vontade de viver mais e assimilar tudo. Desencantei-me mas procuro encantos. Não amorosos, dentro de mim. Tenho uma lista de locais a visitar, livros a ler, teatros, museus, concertos e filmes. Quero escrever e compor. Tenho investido na compra de livros dos autores que gosto e procurado estudar a escrita. Não desisto de mim. Não tenho tempo para outros. Não tenho tempo nem paciência para outras mulheres que me sugam a energia como, sabe, eu estava despropositadamente a sugar a dela. Fiz tudo errado. Que desastre. Não me arrependo de nada excepto os últimos dias. Eu queria dar-lhe tanto e tudo o que tinha, e mostrar-lhe que tinha e podia porque achei que a maturidade partia também do ter além do ser mesmo quando ela me dizia «não compres tanto, vive!» que acabei por descurar do essencial e não soube dar e ver o que ela mais precisava. Às vezes só precisamos de um corpo quente em silêncio, sem fogo-de-artifício. 
- Relaxe os braços  – ajeito-me melhor – Assim. Está melhor.
- Paguei esta massagem para lhe estar a contar histórias. 
- Eu gosto de histórias. Às vezes parece que fala dela como alguém que lhe morreu, ao mesmo tempo parece que a tem aqui ao seu lado, de mão dada consigo.
- Sinto exatamente o mesmo. Às vezes ela parece-me tão distante e outros dias aqui mesmo diante de mim. Parece-me que nunca ninguém vai poder ser feliz a meu lado As mulheres que foram passando pela minha vida referem que se sentem constantemente comparadas. Eu não o verbalizo, sabe? Elas dizem que não é por palavras. Que se sente. Existe em mim uma insatisfação e um descontentamento, talvez genético, quem sabe.  Ela tem-me sempre. À minha alma. Conhece-me desde o começo. Onde começo. Sabe o que é e não é para mim. Sabia que … isto não era para mim. - Coloco as mãos à cabeça e de seguida aos olhos. Esfrego-os para limpar as lágrimas e borro a maquilhagem deixando a cara num tom avermelhado da pressão das mãos contra a pele salgada, manchada de preto. - Que fui eu fazer. 
- Chorar faz bem. Isto o quê?
- Apaixonar-me por outra mulher. Eu conto-lhe. Foi ali num pequeno intervalo, em que, sem procurar ninguém, sem querer amar, sozinha mas feliz, a estabilizar, me apaixono por outra pessoa. Pensei que só pudesse ter um significado especial. Que só pudesse fazer sentido depois de tanto tempo. Fiquei tão entusiasmada, tão empolgada com o sentimento novo. O facto de ter conseguido sentir uma emoção igualmente forte por outra pessoa, tão genuíno e despropositado, sabe? Tão perto de mim e tão presente. 
-Fogo-de-artifício.
- Isso. E veja agora os meus joelhos. E quando sou deixada livre para viver este sentimento, quando ela anteviu tudo antes de mim, como sempre vê, e se retira cansada, não necessariamente por essa razão mas…  - Desculpe, estou a gostar muito da conversa mas estamos a terminar, tenho uma outra cliente a seguir... se calhar vai apreciar ficar em silêncio a escutar a música enquanto eu termino agora os últimos dez minutos.- A verdade é que somos pouco ensinados a ficar em silêncio. A apreciá-lo e a reconhecer a sua importância. Ela deixou-me essa herança, também. Durante este tempo todo reclamei pequenos-almoços no quarto e presentes embrulhados em papel de cetim e fita mas sinto-me deixada com uma riqueza imensa daquilo que foi a sua passagem por mim. Oferecemos, deliberadamente, excesso de confiança nos contextos errados. Para que tenham o direito de opinar sobre nós. Decidir os nossos passos e a nossa vida. Para que tenham o direito de nos exigir telefonemas diários e esperar de nós o mesmo. Cobrar, esperar de volta. Mas depois desconfiamos dos que ficam em silêncio a ensinar-nos a importância do que é olhar para cima e estar calado na hora certa. Desconfiamos dos que praticam os gestos certos e cuidam sem fogo-de-artifício. Desconfiamos de presentes que não vêm embrulhados e são oferecidos com o toque, a presença, e até as palavras. Existe dentro de mim uma maior clarividência, como se ela tivesse partido e escancarado as portas de uma solarenga manhã de verão… e agora vou silenciar, sim, e escutar a música de fundo. Boa escolha. Gosto muito deste compositor.
             Ficámos dez minutos em silêncio em que aproveitei o que restava da minha sessão ao som de uma agradável faixa sonora. 
- Vamos ter de ficar hoje por aqui.
- Obrigada. 
Regressei para o carro num estado de levitação e paz. Ultimamente cuido mais de mim embora isso ainda não se note no peso que teima em não aumentar. Tirei um casaco quente da bagageira do carro, num dia que ainda se declarava de verão. Gosto de andar agasalhada mesmo nos dias quentes. Lembrei-me de ligar à tua mãe e saber como estava. Deu-me uma certa saudade depois de falar tanto em ti. O calor do carro que deixei estacionado ao sol e o entusiasmo da tua mãe pelo meu telefonema que a deixa sempre animada reaqueceu-me e segui de volta para casa já sem casaco e de janela aberta. Nessa manhã senti-me particularmente tranquila e feliz. Descobri que os problemas de costas não eram as costas, eras tu. Às vezes ainda te alojas onde não deves que é quando a saudade traz alguma nostalgia. Nos restantes dias vou-te avistando pelas ruas, a lembrar-me para olhar para cima, apreciar os silêncios e ser antes de ter. Foi isto que me deixaste.

Eu caminho comigo e levo-te em mim.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O filho pródigo não regressou a casa
































Quando terminou a minha relação eu senti-me obrigada a informar a família mais chegada que o nome ficava a partir daí proibido em qualquer circunstância. Por uma simples razão de, inicialmente, protecção da minha pessoa, e em segundo lugar, respeito pela outra pessoa.

Pude sentir, como previa, uma espécie de reacção à  filho pródigo que retorna a casa, como na passagem bíblica que é, por acaso, uma das minhas favoritas.

(Dois irmãos, um deles decide deixar a casa de família e afastar-se, viver uma vida de luxos e pecado, gastar o dinheiro todo da herança que lhe foi deixada, e regressa no fim, sem nada, arrependido, para os braços do pai, que o acolhe de volta e recebe em festa com um banquete porque o filho pecou, mas regressou em arrependimento.)

Tempos depois tive um familiar com quem aos dias de hoje não me compatibilizo que fez anos e eu não dei os parabéns. Não comecei a visitá-los mais. Não os procurei como das outras vezes. Continuei a faltar às festas e aos jantares por indisponibilidade ou alguma falta de vontade. Rapidamente as pessoas se aperceberamque o meu afastamento não estava mais preso à minha relação amorosa e se tinha individualizado. 

No outro dia diziam-me que o corpo tem memórias. E eu acrescento que a alma também as tem. Para o bem e para o mal.

Independentemente de ter ou não ter tido relações amorosas tóxicas e/ou abusivas, por culpa minha, de ambas as partes ou apenas de uma, ou por sermos apenas pessoas destruídas pelos meios familiares respectivos, não tenho dúvidas que a minha relação familiar, essencialmente com a minha mãe, é tóxica. Se calhar é-me impossível deixar de a amar, por ser minha mãe. Com certeza ela não planeou intencionalmente ser tóxica, mas é. Se calhar ela genuinamente queria que as coisas fossem diferentes, mas  situações irreversíveis.  Personalidades que chocam. Padrões que se agravam com os anos. 

As rupturas não só são parte da vida como são essenciais e devemos vê-las assim como devemos encarar as mortes com naturalidade – Eu lido mal com ambas. Às vezes não são apenas consequência de, inevitáveis, mas imprescindíveis. Precisas.

Às vezes é necessário o silêncio e a ruptura – não temporária, definitiva. Seguir realmente em frente, o deixar realmente ir e procurar outro caminho, literalmente seguir a outra estrada, deixar para trás - para podermos evoluir, amadurecer, olhar com outros olhos.

Às vezes a estrada em que estamos, por culpa de ninguém, é uma estrada sem fim que já não nos leva a lado nenhum e andamos em círculos já sem qualquer direcção – já não se vê senão o mesmo caminho, a mesma vegetação, as mesmas pessoas, e tudo é igual a si mesmo.


Às vezes o ser tóxico não vem só dos outros mas vem da união dos outros connosco: Às vezes quando somos egoístas e nos afastamos da zona de conflito não estamos a ser assim tão egoístas porque ao nos protegermos a nós protegemos os outros, do conflito e da desordem. Do mau estar. De umas férias estragadas e de um sentimento mútuo de arrependimento.

Às vezes não deixámos de ser criativos – Mas já não dá.

Às vezes não deixámos de ser românticos – Mas já não dá.

Às vezes nenhum de nós é má pessoa – Mas já não dá.

Às vezes temos a capacidade de amar no abstracto – Mas já não dá.

Às vezes não é que não sejamos fortes – Mas já não dá.

Às vezes não somos assim tão imaturos – Mas já não dá.

Às vezes simplesmente já não dá e o mais acertado, saudável, ajustado, sensato, maduro, honesto, amigo, é compreender que já não dá.

E isto vale para todas as relações que preenchem a nossa vida ou nos esvaziam dela  – amorosas, ou não.