domingo, 15 de maio de 2016

Avó

Hoje é um dia pesado.
Tu eras leve.
Não sei porque é um dia pesado se tu eras leve.
Não tenho jeito para compreender estes dias.
Não sei enfrentar este preto.
Não sei que fazer aos dias pesados que estão por vir.
Não sei que dizer às pessoas,
Não gosto de lhes dar resposta.
Foste embora e foi-se se o piano ao centro da casa,
A peça fundamental do puzzle,
A música de fundo do momento glorioso chave, do momento alto, do filme do ano.
Eras tu.
O pilar, a base, o centro
A música.

domingo, 1 de maio de 2016

Por dentro

Consegui ver a tua essência antes que criasses essa personagem que te reveste a pele - Quando eras tu no começo de tudo. Quando eras tu despida de outro tipo de preconceito - aquele que tens de ti mesma, aquilo que és debaixo dos trapos e que escondes nas paredes do teu quarto.
A religiosidade que ainda te reveste a alma e o corpo.
Os costumes que te são tão próprios e naturais mas que não se coadunam com a realidade em que te inseriste propositadamente com desespero de fuga - e foges do quê?
Foges de ti.
Depois encarnas essa postura de revolta social, ainda assim não te falta absolutamente nada,
Excepto algum tipo de amor.
Excepto amares-te - estás perdida entre o certo e o errado.
E parece-te saír da pele esse grito que rejeita as origens - mas sentes falta de algo mais que só as origens te dão.
Só as origens te dão - vais lá chegar.
Vives em palco - todos os dias -Tu és o palco - Em cada passo que dás.
E não és feliz e leio-te o choro na diagonal dos teus textos.
Porém quando os nossos olhares se cruzam nas ruas há sempre um olhar teu ridiculamente meigo e uma pena de mim, que a sinto, e a detesto solenemente.
É que eu e tu vivemos e sentimos o mesmo - eu só não me dou às tuas gentes. Eu só não faço espectáculo para inglês ver. Eu dou-me às almas inteira de mim, sem merdas.
Eu só não finjo ser.
E tu perdes ao amor porque te descobrem uma verdade dissonante que não soubeste mostrar no momento certo. Que não soubeste mostrar, ponto. Foi uma porta que deixaste entreaberta por puro esquecimento e na hora do amor onde nos perdemos tudo é mais cedo ou mais tarde revelado.
E a timidez vem disso. A insegurança que ainda se sente nos teus lábios, no gesticular dos teus membros e na forma como cruzas a perna a ler numa esplanada da avenida.
E eu vejo-te ainda a vulnerabilidade de ser tão só entre os teus.
De ser sempre só, em tudo.
E vejo o que essas gentes não vêem, essas gentes que te rodeiam de festas e cravos.
Tu não és cravo, nunca foste.
És rosa.
E tens medo.
Tens medo do que sou e do que te digo com os olhos.
Tens medo porque sabes que eu sei quem és.
Debaixo dos trapos.
Debaixo de [um outro] Ti.
- Por dentro.