Quando já não somos capazes de mais. Emocionalmente, espiritualmente, corporalmente.
Perante os amigos, perante a família, perante a vida, perante nós mesmos.
Estamos à força, sozinhos, em silêncio, a contrariar destinos, a remar contra marés, a querer acreditar no inacreditável - que os ventos se vão voltar a norte, que não vamos cair no esquecimento, que o batom faz a diferença, e o sermos o melhor de nós, e o estarmos aqui, e o amarmos assim tão incondicionalmente, deixar livre na esperança de ser um bocadinho nosso, e por fim, acreditar tão somente que ainda há uma chama, seja ela pequena...
Não.
Estamos no frio há imenso tempo.
Estou já sem sequer sentir a ponta dos dedos dos pés. Sem conseguir sair do mesmo lugar. Colada ao chão. Gelada, ao chão.
Há um pedaço de alma que me deixa, e morro lentamente.
Sempre achei que fosse o teu amor a matar-me.
O que me mata é a falta dele - vai-me matando aos poucos, como fazem as drogas. Como faz um cancro.
Estou a morrer.
Pensei que libertar-me fosse difícil,
Não.
Difícil é ficar.
Fui. Foste. E (pouco) fomos.
Não somos mais, não voltas.
E eu fico.
A ver-te esqueceres-te de mim mais um bocadinho, a cada dia que passa.
Ou então só a não te lembrares de mim, com a frequência que fazias.
Quando tu és ainda o meu primeiro pensamento.
Tive tão pouco tempo. Tive tão pouco tempo para te viver. És-me sempre a correr que finalmente percebi que não me és para seres.
Vou acabando por encher uma pasta cheia de imagens, e folhas cheias de tinta, coisas que vejo, sinto, observo. Ali, tudo o que me recorda de ti, as pequenas coisas do meu dia a dia em que estás, as pequenas coisas que tu gostas, as pequenas coisas que te fariam rir, sorrir, as pequenas coisas que te interessam.
Guardo-as.
Já não faz sentido mostrar-te o meu mundo. Partilhar o meu mundo, e o que vejo.
Hoje vais querer que outras se lembrem de ti durante o seu dia. Vais querer outros telefonemas. Outras mensagens. Outras surpresas.
E tudo o que possa fazer só vai trilhar caminho para a saturação. Sabes como sei? Porque é isso que as outras me fazem. Saturam-me. Farto-me de todas elas, dos seus gestos, das suas mensagens, telefonemas, e de quando se lembram de mim.
Estou farta da falta de reciprocidade, mas não há culpa, na falta de amor sentido.
Os dias passam e tudo muda um bocadinho mais, afastando-nos um bocadinho mais, o sentimento perde-se um bocadinho mais. Mas tu não reparas?
Só os que amam reparam, e silenciam as mortes que neles vão morrendo, um bocadinho mais.
O teu encanto por mim acabou e eu não suporto isso, não suporto viver com isso, não suporto a tua indiferença, e ser-te, apenas, o que hoje sou.
E sabes?
Está tarde, está muito tarde, e torna-se muito difícil. Muito pesado.
Tu queres paz.
Eu quero o mesmo.
Ainda não percebeste que tudo em nosso redor está em guerra?
As conversas têm cláusulas, e as emoções são reprimidas.
Este amor unilateral vai-me levar à loucura.
Estamos presas por uma linha
E eu não sei quanto tempo mais aguento a corda.
Tu vais matar-me.

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