Curas-me os males, um a um, ao fim do dia, todos os dias.
Quando envolvo e deito a cabeça no travesseiro e me finjo adormecer nos teus seios.
E finjo o bater do teu coração com os ponteiros do relógio da mesinha de cabeceira.
E finjo o calor dos teus braços com o calor dos meus braços.
E finjo seres a mãe que não está e os amigos que já estão em casa e os tios que desconhecem as dores e o corpo que disfarça os soluços e o cérebro que ignora a causa todo o santo dia e o meu companheiro fiel que perdi pelo caminho e os mimos que compro que não te compram nem te ocupam o lugar.
Lembro-me estar só e isso pesa-me só em pequenas partículas do dia:
Neste quarto que não gosto,
No autocarro,
Nos regressos a casa,
Nas despedidas,
Nas festas de família.
Quando se festeja e se batem palmas e tudo à minha volta está ensurdecedoramente feliz.
Quando desligo o botão do lembrar-me que me basto.
- E basto-me,
99% do tempo.
Mas aquele 1%...
Aquele 1% parece fazer[es]-me falta por toda uma vida e quando vem,
Vem em força, vem sem dó, vem e arranca-me toda a maturidade emocional, toda a capacidade de raciocínio, toda a capacidade de ser mais forte.
Deita-me ao chão e aqui estou eu:
Agarrada a este travesseiro
Com a força de mil homens
A pedir a Deus que por mais uma vez nesta vida
Possa ser em teus braços onde me deito ao fim do dia.
Possa dormir sem medos.
Em Ti.
Em nós,
Em paz.
